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Bolsas mundiais ganharam em setembro. Mas o mês foi mau para Lisboa e Milão

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A capitalização bolsista mundial subiu 0,44%. Os mercados de fronteira e a Ásia registaram o melhor desempenho. PSI 20 perdeu 3,5%. Desapontamento com Mario Draghi provocou pior dia do mês com quebra mundial de 2%

Jorge Nascimento Rodrigues

A crise de confiança no Deutsche Bank (DB) alemão parecia ir toldar, definitivamente, setembro, mas o stresse diminuiu significativamente na sexta-feira, dia 30, à tarde, e a quebra do índice mundial MSCI reduziu-se na última semana do mês para 0,38%.

Uma notícia da Agence France Presse na sexta-feira à tarde, apontando para um eventual acordo entre o banco alemão e o Departamento de Justiça norte-americano no sentido de uma redução significativa da multa, fez recuar o pânico financeiro na Europa e em Wall Street.

Com a redução do stresse em torno do maior banco alemão, setembro saldou-se por um ganho de 0,44% no índice mundial, com os mercados de fronteira (designação para os que ainda não são considerados economias emergentes) a liderar as subidas, registando um ganho de 2,14% no índice MSCI respetivo.

No entanto, o que se passou com o DB em fevereiro, depois em junho e, agora, na última semana de setembro, vem recordar que o problema do sector bancário não é exclusivo da periferia do euro (Portugal e Itália).

Nova Iorque ficou abaixo da linha de água

No melhor desempenho mensal seguiram-se a Ásia Pacífico, com um ganho de 1,25%, os mercados emergentes com uma subida de 1,09% e a Europa com um avanço de 0,81%, segundo os índices MSCI respetivos.

A ‘região’ perdedora, ainda que ligeiramente, foi Nova Iorque, onde se concentram as duas principais bolsas do mundo, o New York Stock Exchange e o Nasdaq (bolsa das tecnológicas). O índice MSCI para os Estados Unidos caiu 0,04% em setembro.

Os três melhores desempenhos mensais em termos de bolsas registaram-se em Buenos Aires – o índice Merval subiu 5% -, em Moscovo – o índice MSCI global para os índices russos avançou 3,5% -, e em Viena – o índice austríaco ganhou 3,1%.

PSI 20 entre os piores do mês

Os cinco piores desempenhos mensais incluem o índice PSI 20 da bolsa de Lisboa, que recuou 3,5%. Nesse grupo incluem-se, ainda, o índice Tadawul saudita, que liderou as quebras perdendo 5,5%, o MIB de Milão, com uma redução de 4,6%, o Nikkei 225, de Tóquio, que recuou 2,8% e o SET da Tailândia que registou uma queda de 2,5%.

No PSI 20, os piores desempenhos mensais, com quebras acima de 10% em bolsa, incluem o BCP, que perdeu 18,5%, o grupo Navigator Co (ex-grupo Portucel-Soporcel) que recuou 15% e o grupo Altri (conglomerado na área florestal) que registou uma descida de 13,9%.

Draghi provoca tempestade

A pior sessão de setembro registou-se no dia 9, com a reação negativa dos mercados financeiros à inatividade do Banco Central Europeu (BCE), que reuniu no dia anterior para nada decidir em matéria de mais estímulos ou promessas de tal em política monetária.

Houve um desapontamento generalizado com o BCE e as bolsas mundiais quebraram 2,1% no dia seguinte à reunião em Frankfurt. Juntou-se-lhe a dúvida recorrente dos investidores sobre o curso efetivo de uma subida, ainda este ano, das taxas de juro pela Reserva Federal norte-americana (Fed). A mistura provocou no dia 9 uma queda de 2,5% em Nova Iorque e de 1,64% na Europa.

Janet Yellen e Mario Draghi, respetivamente presidentes da Fed e do BCE, provocaram mais mossa nas bolsas do que a crise de confiança no final do mês em torno do banco alemão considerado o de maior risco sistémico mundial.

A par da desdramatização da crise do DB, a reunião informal em Argel, realizada na última semana de setembro pelos membros do cartel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), trouxe animação aos mercados financeiros. Os detalhes do restabelecimento de um teto de produção mensal só serão debatidos na cimeira do cartel a 30 de novembro.

A Goldman Sachs adianta que a OPEP procura ganhar tempo, e, no entretanto, puxar os preços do barril para um preço mais confortável, ainda que os dados estruturais do mercado petrolífero continuem sem alteração substancial – excesso de oferta. Em setembro, o preço do barril de petróleo WTI, da variedade norte-americana, subiu 8% e a cotação do barril de Brent, a variedade europeia de referência internacional, aumentou 6,8%. O preço do Brent fechou em 50 dólares na última sessão do mês.

Banco do Japão muda de paradigma

Na frente da política monetária, setembro fica marcado por novidades.

O Banco do Japão (BoJ) face a uma economia em deflação persistente, há seis meses consecutivos, decidiu uma “mudança de paradigma” (sic) na sua política monetária, quando reuniu a 20 e 21 de setembro. Avançou para o controlo da curva das yields das obrigações do Tesouro nipónico a 10 anos (que deverão procurar manter-se perto de 0%) e comunicou que, pela primeira vez, vai apontar para ultrapassar a sua própria meta de inflação de 2%, tentando aumentar as expetativas futuras de inflação.

O movimento do BoJ para uma subida da meta de inflação parece ter o respaldo do Fundo Monetário Internacional (FMI). Esta organização divulgou esta semana algumas partes do ‘World Economic Outlook’, o seu documento fundamental de previsões e recomendações, e num dos documentos, um estudo liderado por Davide Furceri, cita-se um trabalho a publicar em breve de Maurice Obstfeld, o economista-chefe, e Vítor Gaspar, diretor do Departamento de Assuntos Orçamentais e ex-ministro das Finanças na primeira fase do resgate a Portugal.

O estudo recomenda, no fundo, a mudança de paradigma efetuada pelos japoneses. Obstfeld e Gaspar incentivam um “empenho credível e transparente para uma ultrapassagem modesta e temporária da meta de inflação” nas economias que sofrem de inflação baixa ou deflação e problemas sérios na descolagem da retoma económica.

Fed admite comprar ações

Finalmente, os analistas foram apanhados de surpresa pela hipótese, admitida por Janet Yellen, da Fed poder vir a comprar ações de empresas – como já o faz o Banco do Japão.

Yellen disse no seu testemunho esta semana perante o Congresso norte-americano que, se este o autorizasse, a Reserva Federal poderia ampliar o seu programa de quantitative easing, centrado na aquisição de dívida pública e empresarial, para o campo das ações. Mas sublinhou que não o estava a solicitar. Alguns analistas especulam que o BCE também poderá acabar por seguir o exemplo japonês.

  • As bolsas de Nova Iorque encerraram esta quinta-feira com uma queda de cerca de 1%. Apesar da animação com a subida do preço do petróleo, as ações do Deutsche Bank afundaram 6,7% em Wall Street e o índice do sector financeiro perdeu 1,5%

  • O risco de um período de baixa inflação persistente aumentou nas economias desenvolvidas onde a atuação dos bancos centrais está a ser vista como limitada, refere o World Economic Outlook divulgado esta terça-feira. É preciso mais ação dos governos e maior sinergia entre países

  • As bolsas de Buenos Aires, Estocolmo, Lisboa, Nova Iorque e Oslo registaram ganhos semanais. Na Europa, Bruxelas, Frankfurt e Zurique perderam mais de 1% durante uma semana marcada pelo stresse do Deutsche Bank, que abrandou depois de noticiado eventual acordo com o Departamento de Justiça dos EUA para redução da multa