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FMI pede maior intervenção da política orçamental

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O risco de um período de baixa inflação persistente aumentou nas economias desenvolvidas onde a atuação dos bancos centrais está a ser vista como limitada, refere o World Economic Outlook divulgado esta terça-feira. É preciso mais ação dos governos e maior sinergia entre países

Jorge Nascimento Rodrigues

“A eficácia da política monetária para lidar com a desinflação [trajetória descendente da taxa de inflação] pode estar a diminuir nas economias [desenvolvidas] cujas taxas de juro dos bancos centrais estão perto de zero por cento. É necessário, por isso, uma “combinação apropriada de políticas”, conclui o Fundo Monetário Internacional (FMI) no World Economic Outlook de outono divulgado esta terça-feira em Washington.

Por “combinação” de políticas, o FMI entende “complementar uma contínua acomodação monetária [estímulos] com medidas orçamentais amigas do crescimento, com políticas de rendimento (em países onde os salários estão estagnados) e com reformas estruturais apoiando a procura, resolvendo heranças da crise (como sobreendividamento e crédito mal parado)”.

Em suma, é preciso o contributo urgente das políticas orçamental e económica dos governos nas economias desenvolvidas, nomeadamente nas que dispõem de folga orçamental e quadros orçamentais de médio prazo credíveis. Mas deve ser evitado o investimento em sectores transacionáveis com sobrecapacidade instalada.

O estudo de uma equipa liderada por Davide Furceri faz parte da edição de outubro do ‘World Economic Outlook’ (WEO), o documento fundamental de previsões económicas e recomendações políticas do FMI, cuja versão completa será conhecida até ao início da assembleia anual que se realizará em Washington de 7 a 9 de outubro.

Está na hora dos governos agirem em simultâneo

As conclusões estão em linha com os apelos repetidos do FMI, e nomeadamente da sua diretora-geral, Christine Lagarde, para que a política monetária não seja “sobrecarregada” e os governos desempenhem o seu papel. Os ministros das Finanças do G20 ainda recentemente, na China, fizeram um apelo semelhante.

Ainda esta semana, em entrevista ao jornal alemão ‘Süddeutsche Zeitung’, Benoît Cœuré, membro da direção executiva do Banco Central Europeu (BCE), declarou: “O desafio atual é gerar crescimento de longo prazo e emprego de um modo sustentável. O BCE não pode fazer muito nestas áreas. Está na hora para o foco se desviar dos bancos centrais”.

Este capítulo do WEO faz referência a um trabalho a publicar por Vítor Gaspar, o ex-ministro das Finanças que dirigiu a primeira fase de austeridade do resgate a Portugal e atual diretor do Departamento de Assuntos Orçamentais do FMI, Maurice Obstfeld, economista-chefe do Fundo, e Ratna Sahay sobre “gestão macroeconómica quando o espaço de politicas é limitado”, onde apontam uma estratégia para a política económica impulsionadora do crescimento.

Na linha do que decidiu, recentemente, o Banco do Japão, o FMI propõe “um empenho credível e transparente para uma ultrapassagem modesta e temporária da meta de inflação” por parte dos bancos centrais. Ou seja, colocar de lado a perspetiva rígida de 2%.

Gaspar e Obstfeld apontam inclusive para a importância de “sinergias” entre países, ações em simultâneo, e não só cooperação interna, entre políticas.

Risco de ‘armadilha de deflação’ é ainda pequeno, mas nunca fiando

“O risco de um período persistente da inflação fraca está a aumentar em países onde a política monetária é vista como estando condicionada”, refere-se no capítulo do WEO. Este processo de desinflação "é mais evidente quando se olha para os preços dos bens de consumo transacionáveis - como carros e televisões - em vez de serviços” e para os preços na produção.

Um processo de desinflação não é preocupante se for temporário; até acarreta benefícios. O problema é se se entranha. Desinflação persistente pode conduzir a ciclos deflacionistas, como se tem visto no Japão, onde procura fraca e deflação (queda persistente dos preços) mutuamente se reforçam negativamente. O caso do Japão é tratado em particular no estudo.

Um dos efeitos importantes de uma desinflação persistente é o agravamento da situação dos devedores (particulares, empresas e Estados) e o aumento da taxa de juro real a pagar pelas dívidas. O ‘Fiscal Monitor’, outro documento importante a ser publicado em outubro, abordará este assunto em profundidade, pois o aumento da carga da dívida, em tal contexto, diminui ainda mais a folga orçamental.

Os autores do estudo acham que o risco de um salto da desinflação para uma “armadilha de deflação” é ainda “pequeno”. Mas, mais vale prevenir: “Como é muito difícil reverter dinâmicas deflacionistas quando se instalam, os países não podem ser complacentes”.

A desaceleração da inflação tem sido impulsionada por dois motores, um doméstico (interno) ligado à fraca procura e ao défice ainda existente na utilização de fatores (o que significa que há sobrecapacidade em diversos setores à escala mundial e subutilização clara em várias grandes economias exportadoras, como na China, Japão e EUA), e outro, externo, derivado da queda do preço das matérias-primas.

Mas a relação com as expetativas de inflação também conta. As expetativas de inflação de médio prazo tornaram-se desde 2010 cada vez mais “sensíveis” a surpresas no ritmo do índice de preços, nas economias com taxas de juro dos bancos centrais perto de zero por cento. Surpresas, por exemplo, na volatilidade dos preços das matérias-primas (com o petróleo em destaque) ou mesmo movimentos bruscos na taxa de inflação, para cima e para baixo.

‘Desancoramento’ das expetativas de inflação

O panorama da inflação, que deveria, no pós-crise, subir consistentemente para atingir as metas da política monetária, é desolador: “Em 2015, as taxas de inflação estavam abaixo das expetativas de médio prazo em mais de 85% de uma amostra de 120 economias, e 20% vivia em deflação total”, sublinha o estudo, que acrescenta que mesmo a inflação subjacente (excluindo do índice a alimentação e a energia, categorias de produtos mais voláteis) “tem também deslizado abaixo das metas de inflação nas economias desenvolvidas e mesmo em muitos mercados emergentes”.

Em relação às metas de inflação da política monetária – um elemento fundamental na ação dos bancos centrais, e na sua credibilidade -, a inflação está, em média, 1,5 pontos percentuais abaixo do objetivo nas economias desenvolvidas (que se tem situado em torno de 2%, com a exceção recente do Japão que aponta para a sua ultrapassagem de um modo estável) e quase 3 pontos percentuais no caso dos mercados emergentes.

Este processo é designado de “desancoramento” por oposição ao “ancoramento” da inflação perto das metas tradicionais de médio prazo da política monetária. “Ainda que a magnitude económica desse ‘desancoramento’ seja ainda relativamente pequena, ele sugere que a capacidade percebida da politica monetária para combater uma desinflação persistente talvez esteja a diminuir em algumas economias”, refere o estudo.