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Investidores imobiliários 
em estado de choque

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Os investidores internacionais aguardam em suspenso o clarificar da abrangência do novo imposto sobre o imobiliário

DR

Encontro com António Costa consolida receios dos fundos estrangeiros

Marisa Antunes

Jornalista

Se esperança houvesse para que o polémico imposto sobre o património não avançasse, essa dissipou-se definitivamente esta semana para os grandes investidores imobiliários que asseguram os principais empreendimentos a avançar no país.

No Portugal Real Estate Summit, evento de dois dias realizado no Estoril, organizado esta semana pela revista “Vida Imobiliária”, duas centenas de representantes de promotores, familly offices e grandes fundos imobiliários (alguns à escala mundial, também presentes em Portugal, como os americanos da Blackstone e da Lone Star) tiveram a oportunidade de confrontar diretamente o primeiro-ministro António Costa com os riscos que acarreta uma medida como esta — a aplicação de um imposto sobre imóveis a partir de €1 milhão — para o sector imobiliário e para a economia, no geral. Mas não receberam a resposta que mais desejaram.

“Depois da surpresa e da incredulidade dos primeiros dias, mantivemos a esperança de que o bom senso iria vingar, mas ontem, no jantar com o sr. primeiro-ministro, percebemos que este imposto pode mesmo avançar, pondo em causa tudo o que foi conseguido até agora e que vai afetar não só o segmento mais alto mas largos milhares de portugueses que estão a beneficiar de toda esta dinâmica provocada pelos estrangeiros que estão a procurar o nosso país”, resumiu um dos participantes.

Fora do anonimato, Paul Taylor, presidente do Vilamoura World, braço executivo da Lone Star em Portugal, confidenciou também ao Expresso o seu desalento. E admite mesmo uma reavaliação daquele que é um dos maiores empreendimentos em projeto da Europa, com um investimento global implícito na ordem dos €1000 milhões. “Fiquei chocado. A avançar terá um efeito devastador em toda a economia e também para o nosso projeto, claro. Estamos a falar de 5000 casas, 2/3 das quais serão abrangidas se este imposto sobre o património avançar”, adiantou o responsável, referindo que a Lone Star tem em curso negociações com investidores de diferentes origens, entre as quais o Dubai, África do Sul e Escandinávia. “Agora vão ficar à espera do que vai acontecer em outubro, com a apresentação do Orçamento”.

Mas, até lá, o impacto já está a causar prejuízos incontáveis, aponta, por seu turno, Diogo Gaspar Ferreira, presidente da Associação Portuguesa de Resorts (APR), entidade que representa 30 empreendimentos de luxo, entre os quais a Quinta do Lago, o Pine Cliffs ou o Vale do Lobo. “Vai acontecer o mesmo efeito que sucedeu com a polémica gerada com os vistos gold. Quem ficou a ganhar foram os espanhóis”, diz, acrescentando que é preciso não esquecer o efeito multiplicador do investimento estrangeiro em Portugal. “A diminuição da venda de casas a estrangeiros que nos chegam via Golden Visa e Residentes Não Habituais vai ter impacto no consumo de produtos nas lojas, nos restaurantes, nos consumos de água e eletricidade, nos empregos domésticos, em consultoria fiscal, imobiliária, etc. Isto não se resume apenas ao imobiliário”, sublinha Diogo Gaspar Ferreira.

Um estudo da APR, executado pela PricewaterhouseCoopers, divulgado no ano passado dava conta desse efeito multiplicador na ordem dos €1000 milhões com os gastos relacionados com a manutenção e a regular utilização das casas e ainda um impacto na criação de emprego na ordem dos 50 a 60 mil postos de trabalho diretos e indiretos.

Efeito psicológico

Hugo Santos Ferreira, secretário-geral da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII), que agrega 150 associados de peso como o Belas Clube de Campo ou a Fosun, reforça, lembrando os 9 mil postos de trabalho gerados este ano pelo sector da construção e do imobiliário.

O responsável lembra que uma boa parte dos franceses, atualmente a liderar o grupo de clientes finais estrangeiros interessados no imobiliário nacional, fugiu da pesada carga fiscal que existe atualmente no seu país. “Atraímos investimento que estava a fugir da taxação abusiva do seu país e agora fazemos o mesmo. Que mensagem estamos a passar?”, questiona.

Nos empreendimentos da Habitat Vitae, que no conjunto agregam cerca de 200 apartamentos (metade dos quais no Eight Building, junto ao mercado da Ribeira, onde restam apenas três unidades), não há só franceses. “Há turcos, vietnamitas, brasileiros, ingleses e mais 30 outras nacionalidades”, especifica o administrador da empresa, Luís Corrêa de Barros.

A empresa promotora que até agora tem sido financiada por bancos nacionais já acumulou €100 milhões em vendas. Os bons resultados atraíram entretanto um “fundo grande inglês com o qual a empresa está a desenvolver para o futuro vários projetos”, adianta o responsável, referindo que o parceiro estrangeiro, após o anúncio do imposto sobre o património de luxo, “não virou costas, mas recebeu com preocupação e está a acompanhar a situação”.

A mesma preocupação que Pedro Lancastre, diretor da consultora JLL, espera encontrar na próxima semana na ronda de reuniões marcadas com representantes de fundos de investimento imobiliário no Dubai. “E também daqui a três semanas quando estivermos com investidores da África do Sul. A primeira pergunta que nos vão fazer é se vale a pena investir, nestas condições, em Portugal. E só vale se houver clientes finais. Se não houver, eles vão investir em qualquer outro lugar do mundo”.

Para Eric van Leuven, diretor da consultora Cushman & Wakefield (CW), “esta é mais uma ameaça à estabilidade fiscal, num sector que já é muito penalizado”.
Resta agora aos investidores aguardar até ao próximo mês pela apresentação do Orçamento mas, como diz o diretor da CW, “o efeito psicológico já está a provocar danos, é quase tão mau como o próprio imposto”.