Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

FMI: economia “está a perder impulso” e meta de défice só com plano B

  • 333

A recuperação económica em curso foi largamente suportada pelo consumomas não chega, alerta o FMI

Tiago Miranda

Relatório relativo à missão em Lisboa no final de junho, aponta para abrandamento da economia e coloca o défice no limite dos 3%. E avisa que sem medidas adicionais, a meta de défice do Governo não é atingida. Para o futuro, o FMI quer corte de salários e de pensões

O Fundo Monetário Internacional (FMI) avisa que Portugal está a perder gás. Num comunicado divulgado esta quinta-feira, juntamente com o relatório da missão pós-programa que decorreu em junho e da avaliação anual do artigo IV, o Fundo considera que “a recuperação económica de Portugal está a perder impulso”. Ainda que as políticas macroeconómicas sejam favoráveis ao crescimento.

E os números da instituição não deixam margem para outra interpretação. Depois de ter crescido 1,5% em 2015, as perspetivas para o andamento do PIB este ano e no próximo são de apenas 1% e 1,1%. Valores idênticos aos avançados no final da missão em Lisboa, no passado mês de junho, e que representam um claro abrandamento face ao ano passado e às projeções do Governo que fez um Orçamento do Estado.

Diz o FMI que “o crescimento global do PIB está a ser inibido pelo fraco crescimento das exportações e o investimento anémico, este último prejudicado pelas incertezas, o forte endividamento do sector empresarial e os estrangulamentos estruturais ainda significativos”. Isto apesar de haver “condições cíclicas ainda favoráveis e do quadro de políticas macroeconómicas de apoio”, incluindo-se neste último caso as medidas do Banco Central Europeu e, no plano interno, o “relaxamento orçamental”.

“A posição orçamental continua expansionista”, refere o Fundo. E acrescenta: “O Orçamento de 2016 tem como meta um défice de 2,2% do PIB e uma redução no saldo primário estrutural de 0,1 pontos. Os técnicos [do FMI] projetam, contudo, um défice de 3% devido a projeções macroeconómicas e orçamentais mais conservadoras. Isto é consistente com um aliviar de 0,5 pontos do PIB na posição orçamental.”

As estimativas do Fundo confirmam, aliás, aquilo que a Comissão Europeia tinha sublinhado no relatório pós-programa divulgado também esta semana. Em 2015, o esforço orçamental diminuiu e essa tendência mantém-se este ano.

Plano B faz falta

No plano orçamental, o FMI aponta para défices de 3% do PIB em 2016 e 2017, que não só deixam Portugal mesmo em cima do limite de Maastricht como ficam muito acima dos objetivos do Governo e das exigências de Bruxelas. “É necessária uma trajetória credível e realista de ajustamento orçamental – muito além de conseguir um défice de 3% – para assegurar a sustentabilidade de médio prazo das contas públicas”, pede o Fundo.

Aliás, o documento diz preto no branco que sem plano B não é possível atingir as metas este ano: “A meta orçamental de 2016 do Governo parece em risco na ausência de medidas adicionais que contenham a despesa”. A preocupação tem a ver com o facto de algumas despesas estarem a evoluir abaixo do orçamentado por acumulação de dívidas por pagar – nos hospitais, por exemplo – que terão que ser suportados mais à frente, ao mesmo tempo que a receita está a crescer a um ritmo inferior ao estimado.

Para o FMI, deve haver um ajustamento primário estrutural (sem juros e corrigido do ciclo económico) de 0,5 pontos percentuais do PIB em 2017 e 2018. Nas contas do Fundo, para 2017 a projeção é, para já, de 0,4 pontos. Este ponto era, aliás, sublinhado pelo chefe de missão do FMI em Lisboa, Subir Lall, em entrevista ao Expresso no final de junho quando dizia precisamente que o mais importante não era olhar para as décimas do défice deste ano mas antes garantir consolidação nos próximos anos.

Mas este esforço estrutural deve ser conseguido com “medidas credíveis”. E o que são medidas credíveis aos olhos dos técnicos do FMI? “O foco do ajustamento orçamental deve estar na reforma da despesa, em particular salários do Estado e pensões, dada a já elevada carga fiscal em Portugal”.

Ter uma trajetória orçamental credível serve para assegurar a sustentabilidade da dívida mas também dar confiança aos investidores que compram as obrigações portuguesas. O elevado endividamento, juntamente com a banca e o fraco crescimento, são problemas que deixam Portugal exposto a diversos riscos que cheguem do exterior. Seja de mudança de sentimento de investidores, seja de acontecimentos como o Brexit ou o abrandamento da economia mundial.

  • A injeção em Portugal de cerca de €44 mil milhões pelo Banco Central Europeu, o equivalente a mais um meio resgate, beneficiou a gestão da dívida pública e o consumo das famílias. Efeito no crescimento económico foi marginal e ajustamento emagreceu, diz estudo do FMI divulgado esta quinta-feira

  • O FMI considera-o indispensável para garantir pagamento antecipado do empréstimo face à vulnerabilidade da dívida portuguesa e aos riscos de alteração súbita no sentimento dos mercados

  • Portugal pode ter de injetar mais dinheiro na banca

    Os bancos podem precisar de mais dinheiro público caso as perdas com a venda do Novo Banco se confirmem, diz o Fundo Monetário Internacional. Defende que a limpeza do setor devia ser uma prioridade urgente das autoridades portuguesas. E sugere ainda maior consolidação e cortes de custos

  • “Não há argumentos para estímulos orçamentais em fases de crescimento”

    O chefe de missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) falou com o Expresso no final de mais uma avaliação pós-programa e da tradicional avaliação do artigo IV, numa semana em que a temática das sanções voltou à baila na imprensa europeia. Apesar da revisão em baixa do crescimento este ano para 1%, o FMI continua a apontar para um défice abaixo de 3% do PIB. Subir Lall não se mostra muito preocupado com a meta de défice este ano e prefere apostar numa estratégia credível de médio prazo. Mas avisa que com a economia a crescer, é tempo de ter “boas políticas” e que os estímulos keynesianos funcionam, no máximo, a curto prazo.