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Banco do Japão lança mão de nova bazuca

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Na reunião que terminou esta quarta-feira, a equipa de Haruhiko Kuroda avançou com o controlo do nível de juros das obrigações nipónicas de longo prazo. Pretende mantê-lo perto de 0%. E pretende a médio prazo ultrapassar a meta de inflação de 2%

Jorge Nascimento Rodrigues

Depois da decisão em janeiro ao fixar taxas de remuneração negativas em parte dos depósitos dos bancos nipónicos nos cofres do Banco do Japão (BoJ), a equipa de banqueiros centrais liderada por Haruhiko Kuroda anunciou esta quarta-feira um novo ingrediente da sua política monetária anti-deflacionária: o controlo da curva de juros das obrigações soberanas emitidas pelo governo japonês.

A decisão desta quarta-feira foi tomada por uma maioria confortável de 7 a favor contra 2. Em janeiro, a opção por uma taxa negativa de -0,1% sobre os depósitos dos bancos foi aprovada por uma maioria de apenas um voto.

Taxas de juro negativas sobre depósitos fixadas em janeiro e agora a opção pelo controlo da curva dos juros da dívida pública nipónica são medidas inéditas na história do BoJ.

A nova bazuca do arsenal de política monetária japonesa visa manter as yields das obrigações nipónicas a 10 anos em torno de 0%. Atualmente, têm estado em terreno negativo consecutivamente desde final de fevereiro.

Novo objetivo: juros da dívida de longo prazo fora de terreno negativo

O objetivo da nova orientação para o "controlo da curva das yields" é evitar que a remuneração das obrigações de longo prazo se afunde em terreno negativo - a 10 anos já fixaram, este ano, mínimos de -0,29% em julho, e a 15 anos chegaram a manter-se abaixo de 0% entre meados de junho e final de julho. Alguns analistas falam na possibilidade do BoJ pretender vender obrigações nos prazos mais longos, visando 'torcer' para cima o final da curva das yields da dívida obrigacionista.

A perspetiva de remunerações positivas dos títulos soberanos em todo o espectro de longo prazo é uma boa notícia para as carteiras dos investidores, nomeadamente das instituições financeiras, que se sentiram prejudicadas pela fixação pela equipa de Kuroda de uma taxa de remuneração negativa sobre os seus depósitos nos cofres do BoJ. Recorde-se que yields negativas significam que os investidores 'pagam' ao Estado para adquirir títulos, em vez deste último pagar um juro nomimal positivo. Atualmente, os investidores 'pagam' ao Estado nipónico para comprar obrigações de 12 meses a 10 anos.

O economista Constantin Gurdgiev, do Middlebury Instituto de Estudos Internacionais na Califórnia, referiu-se ontem a este tipo de estratégia como uma operação twist inversa. Comentando a decisão desta quarta-feira da equipa de Kuroda, sublinha-nos: “Como referi, o BoJ está a procurar ajustar a curva de rendimentos, pressionando em baixa as yields dos títulos a 2 anos (apontando para compra de obrigações a curto prazo) e em alta as yields no caso das obrigações a 10 anos (apontando para venda de títulos de longo prazo). A operação Twist da Reserva Federal norte-americana (Fed) em 2011 foi o espelho desta. A Fed pretendia, então, vender obrigações de curto prazo e comprar títulos do Tesouro de longo prazo, visando, assim, rendimentos mais baixos a longo prazo em relação aos rendimentos de curto prazo”.

Aumentar expetativa de inflação

Adicionalmente, o BOJ comunicou o seu compromisso de, no médio prazo, ultrapassar a sua própria meta de inflação de 2%. “O Banco compromete-se a aumentar a sua base monetária até que a taxa anual de aumento do índice de preços no consumidor (excetuando alimentos frescos) exceda a meta de estabilidade de inflação de 2% e permaneça de um modo estável acima dessa meta”, refere o comunicado.

Com esta nova formulação, pela primeira vez mencionando "exceder" a sua própria meta, os banqueiros centrais nipónicos pretendem gerar um aumento das expetativas de inflação por parte dos agentes económicos. Muitos economistas têm sugerido que os bancos centrais das economias desenvolvidas subam a sua meta oficial de inflação para um nível acima de 2%, por exemplo 3% ou 4%, o que tem sido rejeitado. O BoJ flexibilizou, agora, a meta, apontando para a ultrapassar e mantê-la acima. Resta saber se terá efeito de contágio nos pares dos outros bancos centrais.

A inflação japonesa tem estado em terreno negativo há cinco meses consecutivos. Em maio, junho e julho foi de -0,4%. A estimativa para agosto só será conhecida na próxima semana. O BoJ admite que ela se vai manter "ligeiramente negativa ou cerca de 0% nos tempos mais próximos".

O crescimento económico homólogo no primeiro trimestre foi de 0,2% e acelerou para 0,8% nos três meses seguintes. O comunicado do banco refere que a tendência continuará a ser de "expansão moderada". Como referência, a média anual desde 1981 situa-se em cerca de 2%. Nos últimos três anos, a economia japonesa esteve em recessão quatro trimestres consecutivos, entre abril de 2014 e março de 2015.

Quando assumiu o lugar de governador do BoJ, Kuroda prometeu em março de 2013 que a meta dos 2% seria atingida dois anos depois, mas já perto do final de 2016 continua em terreno negativo.

Em caso de necessidade, o BoJ não hesitará em aumentar os estímulos monetários, e mantem em aberto várias opções de mais "alívio": voltar a descer as suas taxas de juro, ou subir o volume anual de aquisições de obrigações, ou acelerar a expansão da base monetária.

A equipa de Kuroda não mexeu no volume de compras de obrigações nipónicas que se mantém num saldo anual de 80 biliões de ienes (cerca de 701 mil milhões de euros), no entanto, apontando para flexibilidade no curto prazo. A manutenção deste volume anual de compras de obrigações do Estado levará a um disparo no já atual muito elevado peso relativo da massa monetária (reservas dos bancos mais moeda em curculação), que deverá subir de 80% do PIB atualmente para mais de 100% daqui a um ano. O que compara com um rácio de 20% nos casos dos Estados Unidos e da Zona Euro, sublinha o comunicado do BoJ.

Recorde-se que o BoJ detém em carteira 48% da dívida pública do país - que representa um recorde de 250% do PIB - e que se inclui nos 10 maiores investidores nas empresas cotadas pertencentes ao índice bolsista Nikkei 225.

Os banqueiros centrais reafirmaram a sua política de 'sinergia' com o governo de Shinzo Abe no sentido de afastar, de vez, o quadro de deflação da economia nipónica e a 'mentalidade deflacionária' que tem imperado nos agentes económicos. A reunião contou com a presença de membros do Gabinete do primeiro-ministro e do Ministério das Finanças. A próxima reunião de política monetária decorrerá de 31 de outubro a 1 de novembro.

Bolsa de Tóquio reage favoravelmente

A bolsa de Tóquio reagiu favoravelmente, com o índice Nikkei 225 a fechar com um ganho de 1,9%. A Europa abriu em alta e os futuros em Wall Street estão em terreno positivo. As yields das obrigações nipónicas a 10 anos subiram para terreno positivo, chegando a 0,011% depois do anúncio da decisão do BoJ, mas, depois, desceram, de novo, para terreno negativo, situando-se, agora, em -0,02%.

O sumário das posições manifestadas pelos banqueiros centrais nipónicos nesta reunião de setembro só será divulgado a 30 de setembro e as atas a 7 de novembro.

Os mercados financeiros aguardam, agora, as decisões da reunião da Reserva Federal norte-americana, que termina esta quarta-feira. A sua presidente, Janet Yellen, realizará uma conferência de imprensa pelas 19h30 (hora de Portugal).