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Mercados não esperam subida de juros nos Estados Unidos

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Banco do Japão e Reserva Federal norte-americana iniciam esta terça-feira reuniões de política monetária. Analistas apostam em mais ação em Tóquio e adiamento para dezembro de qualquer decisão em Washington

Jorge Nascimento Rodrigues

Os mercados financeiros esperam que o Banco do Japão (BoJ) se decida por mais estímulos monetários e que a Reserva Federal norte-americana (Fed) opte por, uma vez mais, adiar uma subida das taxas de juro nas reuniões que se iniciam esta terça-feira em Tóquio e em Washington. As resoluções dos respetivos comités de política monetária só serão conhecidas na quarta-feira.

Se, ao contrário das apostas dos analistas, o BoJ desapontar – como aconteceu com o Banco Central Europeu a 8 de setembro - e a Fed surpreender com uma subida das taxas de juro, os analistas anteveem um ‘choque’ nos mercados financeiros ao longo das sessões de amanhã. “Qualquer surpresa do lado da Fed ou do BoJ será interpretada pelos mercados como um gatilho para uma venda massiva de obrigações soberanas e também será negativa para as ações nas bolsas”, refere-nos Constantin Gurdgiev, do Middlebury Instituto e Estudos Internacionais, nos EUA.

Em Tóquio, a equipa liderada pelo governador Haruhiko Kuroda está fortemente pressionada pela ineficácia da política até à data e pelo compromisso de uma ‘sinergia’ entre a política monetária e a política orçamental do governo de Shinzo Abe no sentido de um forte impulso à terceira maior economia do mundo. A economia nipónica, em termos homólogos (em relação a igual período do ano passado), cresceu apenas 0,2% no primeiro trimestre do ano e 0,8% no segundo trimestre e mantém-se em deflação (inflação negativa, queda de preços no consumidor) há cinco meses. A par destes resultados medíocres do seu programa “quantitativo e qualitativo” de estímulos monetários, o banco central defronta-se com escassez de ativos elegíveis para serem adquiridos, segundo os analistas.

Twist em Tóquio

“Há uma probabilidade de 60% a 70% para o Japão optar por uma operação ‘twist’ inversa do que a Fed decidiu em setembro de 2011 nos EUA. Ao contrário da Reserva Federal, o BoJ poderá anunciar uma compra de obrigações soberanas com maturidades de menor prazo e uma venda de títulos com prazos mais longos, ‘torcendo’ o início da curva das yields das obrigações, ao contrário do efeito nos EUA, em que a curva foi ‘torcida’ no final, nas maturidades mais longas. Um movimento mais tradicional por parte do conselho de governadores, de mais do mesmo em política monetária - por exemplo, alargando o volume de compras de obrigações - tem uma probabilidade de 30% a 40%”, diz Gurdgiev.

A ideia de ‘torcer’ (twist) a curva de yields surgiu como uma “experiência” de política monetária entre 1961 e 1965 quando a Fed tomou pela primeira vez uma decisão de comprar dívida soberana de longo prazo com o objetivo de baixar as yields no final da curva. A operação foi batizada pelos media financeiros de ‘twist’ pelo efeito visual no final da curva e em homenagem à dança que marcou a década de 60 do século passado.

Na reunião de 20 e 21 de setembro não haverá atualização das projeções económicas, que só surgirão a 1 de novembro, e deverá haver uma declaração. A divulgação de um sumário das posições manifestadas no comité de política monetária só ocorrerá a 30 de setembro.

Probabilidade alta da Fed nada fazer

A inflação anual nos Estados Unidos melhorou em agosto, subindo para 1,1%, continuando um processo de reflação iniciado no começo do ano. Recorde-se que o Japão, em julho, estava em deflação (-0,4%) e que a Zona Euro patinava em 0,2% em agosto.

“Em virtude dos sinais de algum fortalecimento da economia norte-americana no decurso do terceiro trimestre do ano e das primeiras estimativas de uma melhoria da inflação em agosto, a equipa liderada por Janet Yellen poderá surpreender amanhã com uma subida das taxas de juro de referência em 25 pontos base subindo o intervalo para 0,5% a 0,75%. Mas, também, se têm observado alguns sinais menos encorajadores na economia, com uma quebra nas vendas a retalho, uma estagnação na inflação dos preços na produção e uma grande redução na produção industrial. Estes aspetos contraditórios, a par do ciclo político, com eleições presidenciais em novembro, reduzem fortemente a probabilidade da Fed optar, agora, por aquela subida dos juros”, sublinha Gurdgiev.

O analista aponta para uma probabilidade de 75% de que a Fed "apenas se limite, nesta reunião, a amplificar a sua postura de sinalizar o consenso entre os banqueiros centrais para uma subida das taxas de juro, mas só depois das eleições presidenciais".

No mercado de futuros das taxas de juro da Fed, a probabilidade implícita do anuncio de uma subida das taxas de juro amanhã é de 15% e na reunião de 2 de novembro de 23,8%, segundo dados do “Countdown to FOMC” do grupo CME. A probabilidade dispara para 60,1% na reunião de 14 de dezembro e para 62,5% na reunião seguinte, já em 2017, em fevereiro.

A reunião da Fed de 20 e 21 de setembro divulgará as novas projeções económicas do banco central, atualizando as divulgadas na reunião de 14 e 15 de junho, e será seguida de uma conferência de imprensa pela presidente Yellen, o que não ocorreu na última relizada em 26 e 27 de julho.