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BCE trava a fundo nas compras

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Travagem nas comprasAgosto face ao ritmo médio, em percentagemFONTE

FONTE: BCE

Portugal teve uma das maiores travagens na aquisição de obrigações em agosto. Limites do BCE estão quase esgotados. Esperam-se alterações

É sempre difícil interpretar o sentimento dos mercados que resulta da soma de milhões de ordens de compra e venda que nem sempre têm a mesma motivação. Por isso, qualquer razão avançada para o seu comportamento é sempre uma hipótese e não uma explicação definitiva. Os factos são simples. Facto número 1: os juros (yields) da dívida portuguesa a 10 anos deram um salto de 0,6 pontos percentuais e são os únicos na zona euro que, em agosto, tiveram uma taxa média mais alta do que no final do ano passado. Facto número 2: houve uma travagem nas compras do BCE no mês passado. Estão ambos relacionados? É natural que a atuação do banco central afete os juros portugueses mas, como explicam vários analistas (ver texto ao lado), não pode ser a única causa. Desde logo porque vários outros países também tiveram um abrandamento nas compras e porque, além disso, tem havido outras perturbações no mercado, como as análises da imprensa internacional sobre a situação portuguesa, a decisão da Comissão Europeia sobre o incumprimento das metas de 2015, a novela das sanções e, mais recentemente, o debate sobre o segundo resgate.

Ainda assim, a atuação do BCE deve ser tida em conta. Em agosto, o banco central comprou apenas €722 milhões de dívida portuguesa. Trata-se do valor mais baixo desde o início do programa, que representa uma redução de 24,6% face ao mês anterior. Não é a pior, tendo em conta que no conjunto o programa teve um abrandamento de 27,5%. Só que Portugal aparece entre as maiores travagens quando se compara o volume de obrigações comprado em agosto com o ritmo médio mensal desde o início do programa. Aí, a quebra é de 34% e só é ultrapassada por seis países — Chipre, Estónia, Luxemburgo, Eslováquia, Malta e Lituânia — onde não se inclui nenhum país da periferia da zona euro normalmente comparado com Portugal. Espanha, por exemplo, teve uma travagem de apenas 6,7% face ao ritmo médio do programa (ver gráfico).

Esta travagem geral está relacionada, interpretam os especialistas, com dificuldades em encontrar ativos no mercado elegíveis depois de ter sido reforçado o objetivo de compras mensais de €60 mil milhões para €80 mil milhões a partir de abril. O BCE impôs alguns limites que lhe estão a reduzir a margem a atuação, nomeadamente não comprar mais de 33% de cada série de obrigações e não adquirir dívida com taxa inferior aos -0,4% aplicados aos depósitos. A primeira afeta países como Portugal que tem €112 mil milhões em obrigações, um terço dos quais corresponde a cerca de €37 mil milhões. Um limite que, tendo em conta as compras que vinham do tempo do programa SMP (Securities Market Program) lançado em 2010, pode estar quase esgotado. No final de 2015, havia €12,4 mil milhões ainda do SMP a que se somam €20,8 mil milhões do atual programa. O segundo limite tem impacto em países como a Alemanha, com taxas negativas até à maturidade de nove anos. São estas dificuldades que têm justificado a ideia de que o BCE pode rever em breve os parâmetros do programa.