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Schäuble diz NEIN a Draghi

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Sean Gallup/GETTY

O ministro das Finanças alemão respondeu à letra ao presidente do BCE. A Alemanha, recordista em excedentes orçamentais e externos, não vai mudar de política para dar um impulso na zona euro

Jorge Nascimento Rodrigues

“Não ouvi dizer que o BCE esteja a mudar a sua política monetária”, respondeu, ironicamente, Wolfgang Schäuble esta sexta-feira, à margem da reunião do Eurogrupo, quando perguntado se iria mudar a política alemã e seguir a ‘recomendação’ que lhe fez Mario Draghi.

O presidente do Banco Central Europeu (BCE) disse, esta semana, que a Alemanha deveria usar a folga orçamental de que dispõe e os excedentes externos que continua a registar para impulsionar a economia da zona euro, para a retirar de uma inflação perto de 0% (previsão de 0,2% em 2016) e de uma retoma económica "moderada" (crescimento anual de 1,6% no segundo trimestre).

“Muito antes do BCE decidir as suas políticas monetárias não convencionais, que conduziram a que a taxa de câmbio do euro caísse significativamente, eu já tinha dito que a Alemanha aumentaria o excedente comercial”, referiu, ainda, o ministro das Finanças alemão.

Berlim tem usufruído de dois impactos indiretos da política monetária do BCE, que, por vezes, critica: a desalorização do euro (de 6% face a um cabaz de divisas dos principais parceiros comerciais da zona euro, desde que Draghi assumiu a presidência a 1 de novembro de 2011) e o financiamento da sua dívida soberana a juros perto de 0% ou mesmo negativos num grande número de prazos, sobretudo graças ao programa de compra pelo BCE de dívida pública no mercado secundário desde março de 2015.

Dois excedentes

A Alemanha registou recentemente dois recordes em excedentes. No primeiro semestre de 2016, o governo alemão registou um excedente orçamental de 1,2% do PIB. Um ‘salto’ em relação aos excedentes verificados no final de 2014 e 2015, de 0,3% e 0,7% respetivamente. Ou seja, Berlim tem claramente folga orçamental, como argumentou Draghi na conferência de imprensa que se seguiu à reunião do conselho do BCE na quinta-feira.

Esta semana, o instituto germânico IFO divulgou uma previsão de um excedente externo de 278 mil milhões de euros no final do ano, um valor que levará a Alemanha a ultrapassar a China e a sagrar-se a campeã de excedentes externos do mundo. O excedente externo corresponde a uma saldo positivo das contas externas.

Há cinco anos que o excedente externo alemão é sistematicamente superior a 6% do PIB, o limiar que as regras da União Europeia consideram como excedente excessivo caso seja persistente. No ano passado, atingiu 8,8% do PIB e a previsão do IFO aponta para 8,9% este ano. Na zona euro, também a Holanda (com 9,1% em 2015) e a Eslovénia (com 6,9%) estão acima de 6%, violando esse limiar máximo. O limiar mínimo são défices externos de 4% do PIB ou mais.

Questionado sobre a situação alemã, Draghi referiu na conferência de imprensa de quinta-feira que a Alemanha deveria usar a folga orçamental de que dispõe para impulsionar o investimento e que a economia alemã precisava de um aumento dos salários para impulsionar a consumo interno, o que, indiretamente, teria um efeito positivo na procura agregada de toda a zona euro.

Apelo do G20

O presidente do BCE recordou o apelo do G20, esta semana, para que não se sobrecarregasse a política monetária, incentivando os governos a fazerem mais pela retoma económico através das políticas orçamental e de reformas estruturais. Já no simpósio de Jackson Hole em agosto, organizado pela Reserva Federal norte-americana, diversos intervenientes apelaram a que os governos façam mais, para que a política monetária possa fazer menos. São cada vez mais as vozes que apontam limitações de eficácia e impactos negativos às taxas de juro de referência perto de 0%, às taxas negativas de remuneração dos depósitos (na zona euro e no Japão, por exemplo) e à dimensão que assumiram as injeções financeiras através dos programas de quantitative easing dos mais importantes bancos centrais das economias desenvolvidas.

Os meios governamentais alemães acenaram esta semana com algum alívio fiscal de 15 mil milhões de euros, mas só depois das eleições legislativas federais no segundo semestre de 2017.