Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Juros de Portugal e Itália mais afetados pelo desapontamento com o BCE

  • 333

A frustração com a inação de Mario Draghi afetou sobretudo os juros da dívida portuguesa e italiana. Custo de financiamento da dívida alemã a 10 anos regressa a terreno positivo depois de mais de dois meses com juros negativos. Dívida elegível para compras pelo BCE aumentou

Jorge Nascimento Rodrigues

Itália e Portugal foram os mais afetados pela reação negativa dos investidores em dívida soberana à inação do Banco Central Europeu (BCE) na reunião de quinta-feira.

A equipa de Mario Drahgi decidiu não mexer no quadro de política monetária, argumentando inclusive que as medidas tomadas desde março de 2015 estão a ser eficazes, o que desapontou os analistas e os investidores que esperavam alguma ampliação dos estímulos monetários. O presidente do BCE adiantou que as medidas em curso geram um impacto positivo adicional na zona euro de 0,6 pontos percentuais no crescimento e de 0,4 pontos percentuais na inflação no período de 2016 a 2018. Mexidas na política monetária, só, eventualmente, nas reuniões de 20 de outubro ou 8 de dezembro.

No mercado secundário da dívida, em relação a quarta-feira, o dia anterior à reunião do BCE, as yields no prazo de referência a 10 anos das Obrigações do Tesouro português (OT) e das obrigações italianas (BTP) subiram 17 pontos base, face a 15 pontos base para as obrigações espanholas, 11 pontos base para as obrigações irlandesas e seis pontos base para as obrigações gregas.

As yields das OT a 10 anos fecharam pelas 21 horas (hora de Portugal) em 3,14%, depois de terem atingido um pico de 3,17% durante a sessão desta sexta-feira no mercado secundário. No dia anterior à reunião do BCE tinham fechado abaixo de 3%. Em relação ao final de agosto, subiram nove pontos base.

A maior subida em relação ao final do mês anterior registou-se com as yields das BTP transalpinas que subiram 10 pontos base, de 1,15% para 1,25%. A 7 de setembro haviam descido para 1,08%.

O prémio de risco da dívida portuguesa subiu esta sexta-feira para 312 pontos base, apenas 1 ponto base acima do fecho do final de agosto. um premio de mais de 300 pontos base significa que o custo de financiamento da dívida portuguesa está mais de três pontos percentuais acima do custo para a dívida alemã, que serve de referência na zona euro.

A mesma subida registou-se com o prémio de risco da dívida italiana, que aumentou de 121 para 122 pontos base, no mesmo período. Os prémios de risco da dívida espanhola e irlandesa desceram entre o final de agosto e hoje. Nesse período, a maior subida registou-se com o prémio da Grécia, que subiu cinco pontos base, continuando acima de oito pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã.

Juros da dívida alemã a 10 anos acima de 0%

O desapontamento com a inação do BCE provocou no mercado secundário da dívida uma alta generalizada nas yields das obrigações dos membros da zona euro, tanto periféricos como do centro.

O facto mais relevante desta sexta-feira foi o regresso a terreno positivo das yields das obrigações alemãs a 10 anos, que fecharam em 0,023%. Desde 23 de junho (dia do referendo britânico) que estavam em terreno negativo. Na quarta-feira, dia anterior à reunião do BCE, haviam afundado para -0,116%. Agora, só o Japão e a Suíça registam yields negativas no prazo da dívida a 10 anos. O financiamento da dívida alemã a 10 anos deixou de ser “pago” pelos credores.

Um efeito ‘colateral’ da inação do BCE foi provocar a subida para terreno positivo das yields das obrigações suíças a 30 anos, que estavam em terreno negativo desde 24 de junho (dia em que foi conhecida a opção do eleitorado britânico pelo Brexit).

Um outro impacto do movimento de alta das yields nos países do centro do euro foi aumentar as linhas de obrigações elegíveis para o programa de compra de dívida pública pelo BCE no mercado secundário. Segundo as regras do programa, o BCE não compra dívida, entre 2 a 30 anos, que registe yields inferiores a -0,4%, o teto fixado em função da taxa de remuneração de depósitos dos bancos. Com a subida de hoje das yields, passou a ser elegível dívida alemã a 7 anos, dívida austríaca e belga a 5 e 6 anos, dívida finlandesa e holandesa a 6 anos, dívida francesa a 4 e 5 anos, e dívida irlandesa a 3 anos.

A inação da equipa de Mario Draghi ampliou a dívida elegível e diminuiu os riscos de escassez de títulos com juros negativos para adquirir, ou seja, paradoxalmente, aliviou um problema que levava os analistas a pressionarem o BCE para tomar medidas adicionais, nomeadamente o abandono da regra do teto de -0,4%.

  • BCE pressiona governos a fazerem mais, ao não mexer na política monetária

    Ao não ter ampliado o programa de compras na reunião de quinta-feira, a equipa de Mario Draghi insistiu que os governos têm de fazer mais e recordou a declaração do G20 desta semana. Sublinhou que a Alemanha tem folga orçamental para atuar. Presidente da Comissão Europeia pode pedir mais flexibilidade nas regras orçamentais na próxima semana

  • Os juros das Obrigações do Tesouro português estão em alta em todos os prazos desde o anúncio da decisão do Banco Central Europeu de não mexer na política monetária na reunião desta quinta-feira. Juros a 10 anos, perto de 3,1%, regressaram a níveis de 20 de julho