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Frustração com BCE. Bolsas no vermelho na Europa. Juros da dívida em alta

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Depois de um recuo ligeiro na quinta-feira, as bolsas europeias aprofundam as perdas esta sexta-feira. Os juros da dívida soberana na zona euro continuam em alta. Juros das obrigações portuguesas a 10 anos já subiram para 3,16%. Sobem mais do que os restantes periféricos

Jorge Nascimento Rodrigues

As bolsas europeias, depois de uma abertura ‘mista’, estão todas no vermelho, ao final da manhã da sessão de sexta-feira. O índice PSI 20, da bolsa de Lisboa, cai 0,8% e o índice Eurostoxx 50 (das cinquenta principais cotadas da zona euro) perde 0,4%.

No mercado secundário da dívida soberana da zona euro, as yields das obrigações estão em alta desde que foi conhecida na quinta-feira ao final da manhã a decisão do Banco Central Europeu (BCE) de não mexer no quadro de politica monetária. O movimento é geral a todos os países membros do euro, mas a subida das yields das Obrigações do Tesouro (OT) português no prazo de referência destaca-se, se a comparação for feita em relação a 7 de setembro, o dia anterior à reunião do BCE. Os ‘choques’ que contagiam toda a zona euro tendem a ter maior impacto na dívida portuguesa do que na espanhola, irlandesa e italiana.

As yields das OT a 10 anos já registaram esta sexta-feira um pico de 3,16%. Pelas 12h (hora de Portugal) situavam-se em 3,13%. A tendência é para fecharam acima do valor de encerramento de ontem em 3,07%. Atualmente estão 16 pontos base acima do fecho em 2,97% na quarta-feira, dia anterior à reunião do BCE. Uma subida que compara com 12 pontos base para Itália, 11 pontos base para Espanha, oito pontos base para Irlanda e cinco pontos base para a Grécia, naquele período.

O custo de financiamento no mercado secundário da dívida a 10 anos está, agora, nos valores mais elevados desde 28 de junho. Os picos registados até à data este ano ocorreram a 11 de fevereiro, acima de 4% - em virtude da conjugação do contágio grego com a reação internacional muito negativa a uma decisão do Banco de Portugal (BdP) em transferir dívida sénior do Novo Banco para o BES "mau" -, e a 16 de junho, acima de 3,4%, quando as sondagens no Reino Unido começaram a apontar para uma vitória do Brexit no referendo que se realizaria dia 23.

A equipa de Mario Draghi frustrou as expetativas elevadas de muitos analistas financeiros que previam mais estímulos monetários, nomeadamente o anúncio da ampliação formal do programa de aquisição de ativos para além de março de 2017. Não tem colocado de lado essa possibilidade, Draghi, o presidente do BCE, disse em conferência de imprensa que essa possibilidade não foi sequer discutida na reunião do conselho de quinta-feira.

Stresse do rating

Este 'choque' de desapontamento com a inação do BCE na reunião de ontem está a provocar um efeito global em toda a zona euro. Efeitos globais à zona euro registaram-se, também, e com mais impacto negativo, em fevereiro (risco de Grexit) e em junho (Brexit).

Os factores específicos a Portugal - "idiossincráticos", no dizer dos analistas financeiros - conjugaram-se negativamente em fevereiro (decisão do BdP que chegou a ser avaliada pela Associação Internacional de Swaps e Derivados (ISDA) se implicava um evento de crédito) com fatores exógenos (risco de Grexit) e estão a ter um impacto continuado desde meados de agosto com o 'stresse do rating' (provocado, volta e meia, pela especulação em torno da possibilidade da agência canadiana DBRS cortar a notação da dívida portuguesa para terreno especulativo a 21 de outubro).

Para a Goldman Sachs (GS), os fatores 'idiossincráticos' estão a pesar mais de 55% nas subidas verificadas nas yields das OT desde meados de agosto, em virtude do já referido 'stresse do rating'. Os fatores comuns ao conjunto da zona euro (como o risco de Grexit, o efeito do Brexit, as frustrações com o BCE, riscos políticos na zona euro derivados de incerteza política, como em Espanha, Itália, Áustria) pesam 44,8%, segundo uma nota desta semana.

A GS chama, ainda, a atenção para o facto de que o Fundo Monetário Internacional irá ser mais rigoroso na análise da sustentabilidade das dúvidas soberanas dos periféricos do euro, em virtude das críticas a que foi sujeito sobre a sua atuação em relação à Grécia. O FMI tem, ainda, pendente uma decisão sobre a participação no terceiro resgate à dívida helénica e tem insistido em uma nova reestruturação da dívida. Periféricos mais vulneráveis como Portugal estarão sujeitos ao confronto entre uma análise mais apertada da sustentabilidade da dívida portuguesa pelo FMI e a oposição da Alemanha a qualquer alívio na consolidação orçamental.

Na próxima semana, a 16 de setembro, será a vez da Standard & Poor's se pronunciar, ou não, sobre o rating da dívida portuguesa de longo prazo. A Moody's, a 2 de setembro, decidiu não emitir qualquer opinião. As duas agências classificam a dívida portuguesa como especulativa (vulgo 'lixo financeiro').

Contudo, como datas críticas para Portugal, os analistas agendam a apresentação a Bruxelas do relatório de andamento da consolidção orçamental em 2016 e do 'rascunho' de Orçamento de Estado para 2017 até 15 de outubro e a revisão da notação pela DBRS seis dias depois. Espanha deverá ser isentada da apresentação do 'rascunho' de orçamento para 2017 se continuar com um governo de gestão.