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BCE pressiona governos a fazerem mais, ao não mexer na política monetária

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DANIEL ROLAND/AFP/GETTY

Ao não ter ampliado o programa de compras na reunião de quinta-feira, a equipa de Mario Draghi insistiu que os governos têm de fazer mais e recordou a declaração do G20 desta semana. Sublinhou que a Alemanha tem folga orçamental para atuar. Presidente da Comissão Europeia pode pedir mais flexibilidade nas regras orçamentais na próxima semana

Jorge Nascimento Rodrigues

Mario Draghi, o presidente do BCE, sublinhou em conferência de imprensa que a reunião do conselho desta quinta-feira não discutiu a tão esperada extensão do programa de compras para além de março de 2017, em que apostavam muitos analistas. Justificou que as alterações ocorridas na conjuntura, desde a reunião de 21 de julho (onde já havia sido incorporado o Brexit decidido pelo referendo britânico de junho), “não são substanciais de modo a exigirem uma decisão no sentido de agir”.

A política monetária do Banco Central Europeu (BCE) está a ser eficaz e, por isso, por ora, não se justifica “fazer mais”, apesar da previsão da inflação para este ano não ficar acima de 0,2% e da perspetiva de crescimento para a zona euro continuar moderada.

A equipa de especialistas do BCE na projeção que apresentou hoje ao conselho reviu em baixa em uma décima as previsões de crescimento e de inflação para 2017 e 2018. A previsão de crescimento para 2016 é de 1,7% e nos dois anos seguintes haverá um abrandamento de uma décima. A inflação deverá descolar, subindo de 0,2% este ano para 1,2% e 1,5% nos dois anos seguintes, mesmo assim abaixo da meta de 2%. A retoma económica na zona euro continua a "estar amortecida por uma procura externa memos intensa", disse o presidente do BCE.

Além disso, os estímulos monetários estão a produzir efeitos positivos. Draghi foi perentório em diversas partes da conferência de imprensa: “A fragmentação acabou. O crédito está a aumentar constantemente desde 2014. Ele está a chegar ao sector não financeiro da economia”. E mais adiante: “As taxas negativas [de juro do BCE na remuneração dos depósitos] não estão, até agora, a provocar entesouramento. Não observamos isso. Não vemos que a lucratividade dos bancos esteja a ser afetada, até agora. Não se podem culpar as taxas negativas por tudo o que vai mal na banca”.

E, finalmente, “a política monetária do BCE contraatacou os choques que se verificaram no início do ano e aquando do Brexit [em junho]”, tendo Draghi avançado com os números do efeito positivo acumulado: 0,6 pontos percentuais no crescimento do PIB da zona euro e 0,4 pontos percentuais na inflação. Ou seja, sem este efeito, o PIB não poderia atingir 1,7% em termos anuais em 2016 e a inflação estaria em terreno negativo.

A vez dos governos

O presidente do BCE chutou a bola para o campo dos governos. “A política monetária só por si não pode levar a um crescimento equilibrado. As estratégias orçamentais são igualmente importantes”, disse Draghi, para recordar o comunicado do G20 desta semana, no final da reunião na China. “Todas as políticas - monetária, orçamental, reformas estruturais - são necessárias individual e coletivamente. O que tenho dito há meses”, reforçou. O compromisso do comunicado do G20 “envolve governos e ministros das Finanças”, sublinhou.

Acentuou que a flexibilidade na política orçamental é fundamental e que os governos devem dar prioridade a investimentos de qualidade, como recomenda o G20. “O gasto público deve ser mais amigo do crescimento. O que é importante não é a dimensão da despesa, mas a forma como se gasta”, acentuou. Produtividade, infraestruturas públicas, extensão do Plano Juncker, reformas estruturais são competência de outros atores, não do BCE.

Questionado diretamente sobre o excedente orçamental da Alemanha [0,7% do PIB em 2015 e 1,2% no final do primeiro semestre de 2016], Draghi sublinhou que os países que têm folga orçamental devem usá-la e defendeu a necessidade de aumentos salariais naquele país.

O site "Politico" adiantou hoje que o presidente da Comissão Europeia deverá apelar a uma flexibilização das regras orçamentais na zona euro no seu discurso da próxima semana sobre “O Estado da União”. Jean-Claude Juncker irá defender que, no caso dos países que têm necessidade de respirar orçamentalmente e que têm tido dificuldade em cumprir as regras orçamentais, a despesa pública em investimento e educação não deveria entrar para o cálculo do gasto. Esta proposta gerou polémica interna e dividiu a Comissão, segundo o site.

  • O Banco Central Europeu decidiu manter a taxa de juro de referência em 0% e a taxa de remuneração de depósitos, em terreno negativo, em -0,4%. Não alterou QE, como alguns analistas esperavam. Bolsas europeias no vermelho. A atenção vira-se para a conferência de imprensa de Mario Draghi pelas 13h30 em Frankfurt