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BCE: As medidas que Draghi pode anunciar hoje

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JOHN THYS/GETTY

O Banco Central Europeu reúne-se esta quinta-feira em Frankfurt com a subida da pressão para que ‘faça mais’ face a uma inflação na zona euro que não descola de perto de 0% e com o aviso de que o FMI vai cortar na previsão de crescimento mundial para este ano

Jorge Nascimento Rodrigues

Os analistas estão profundamente divididos sobre a possibilidade de haver ‘ação’ esta quinta-feira em Frankfurt após a reunião do conselho do Banco Central Europeu (BCE). O tira-teimas ocorrerá pelas 12h45 (hora de Portugal) quando o conselho comunicar as suas decisões.

Um bloco de analistas inclina-se para que a tomada de mais medidas de ‘alívio’ monetário seja adiada para uma das duas próximas reuniões, a 20 de outubro e 8 de dezembro, podendo Mario Draghi, o seu presidente, dar ‘sinais’ na conferência de imprensa que realizará pelas 13h30 (hora de Portugal).

Outro bloco aposta no anuncio já hoje de mexidas no programa de aquisição de ativos, vulgo quantitative easing (QE), na sequência da revisão que os técnicos do BCE tenham feito às previsões sobre a inflação e o crescimento na zona euro, novas projeções que serão divulgadas esta quinta-feira.

O que não deverá ser mexido

Há consenso em que não haverá mexidas na política monetária no quadro das taxas de juro e no alargamento do tipo de ativos que o programa de QE pode adquirir.

Os analistas acham que a taxa de juro de referência, que está em 0%, não será cortada para terreno negativo, como reclamam alguns estudos recentes, incentivando a equipa de Mario Draghi a seguir o que já fizeram a Suécia e a Suíça.

Também não deverá ser mexida a taxa de remuneração dos depósitos dos bancos que se situa em terreno negativo, em -0,4%, apesar de haver quem proponha a sua descida em mais uma décima.

A proposta de alargar a compra de ativos pelo BCE às ações das empresas cotadas deverá também estar fora do quadro de medidas possíveis. O BCE começou a comprar, a 8 de junho, obrigações de empresas, tendo adquirido, até 2 de setembro, 20,5 mil milhões de euros. Até à data, apenas a Autoridade Monetária de Hong Kong entrou excecionalmente nesse terreno no final dos anos 1990 em resposta a um ataque cambial.

Ainda mais distante de recolher simpatia no BCE estará a proposta de subir a meta de inflação de 2% para 3% ou 4%, ou de avançar para um programa de QE já na fronteira com a política orçamental, em clara cooperação com os governos da zona euro, designado por ‘QE para o povo’ (no Reino Unido) ou ‘dinheiro atirado de helicóptero’ (como tem sido defendido por Ben Bernanke, o ex-presidente da Reserva Federal norte-americana, junto das autoridades japonesas).

Alguns académicos têm defendido ultimamente, com mais insistência, a transição para economias com uma redução significativa do dinheiro físico em circulação, sobretudo em notas com valor mais elevado, que permita restringir os riscos de entesouramento em situações em que a retoma não descola em virtude da chamada armadilha de liquidez, que restringe o consumo e o investimento. É o caso do norte-americano Kenneth Rogoff no seu mais recente livro “A Maldição do Dinheiro”, agora lançado.

No entanto, os investidores e os analistas estarão atentos a quaisquer declarações que Draghi faça a respeito deste leque de medidas mais heterodoxas.

Duas medidas que poderão ser anunciadas

Filipe Garcia, economista-chefe e presidente da IMF, Informação de Mercados Financeiras, considera duas áreas com probabilidade mais elevada de alterações.

Extensão temporal do QE. Os analistas que apostam por ‘ação’ já hoje consideram que há probabilidade elevada para o anúncio de uma extensão do programa de QE para além de março de 2017. A ampliação mais provável seria de seis meses, até setembro do próximo ano, implicando um volume adicional de cerca de 500 mil milhões de euros. O programa já injetou, até 2 de setembro, mais de 1,2 biliões de euros, em que uma fatia de 81% corresponde às compras de dívida pública no mercado secundário. A previsão até março do próximo ano situa-se em 1,7 biliões, ou seja 16% do PIB da zona euro. Em termos comparativos recorde-se que o QE aplicado nos Estados Unidos implicou quase 25% do PIB respetivo e que o ainda em curso no Japão já atinge 70% do PIB nipónico.

Mexidas na estrutura do QE. Há um consenso que, no caso do BCE estender o programa por mais seis meses, se torna imperativo alterar os parâmetros do programa, sobretudo no campo das regras para aquisição de dívida obrigacionista emitida pelos países membros do euro. São quatro as mudanças consideradas mais urgentes por muitos analistas.

A primeira pode ser o abandono do teto de -0,4%, a taxa de remuneração de depósitos, como limite à aquisição de obrigações entre 2 a 30 anos. O BCE poderia passar a poder comprar títulos públicos com yields ainda mais negativas do que aquele teto, afastando o risco de escassez de títulos para aquisição. Sete países membros do euro – Alemanha, Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Holanda e Irlanda – registam yields abaixo de -0,4% em médio e mesmo longo prazo (acima de 5 anos), elegíveis para o programa.

A segunda seria considerar a possibilidade de aquisição de dívida pública com maturidades acima de 30 anos. A terceira, referida pelos analistas, é o abandono dos limites em vigor para a aquisição em cada linha de obrigações e em cada país em relação ao montante de dívida. Finalmente, apesar de forte resistência das maiores economias, como a alemã, o abandono da regra de proporcionalidade na aquisição de dívida em relação à contribuição de cada membro para o capital do BCE, que é estabelecida em função da dimensão de cada economia. O maior peso é o da Alemanha, que domina 24% das compras de obrigações já feitas pelo BCE.

Porque aumenta a pressão para o BCE fazer mais

A pressão para que o BCE ‘faça mais’ em matéria de estímulos monetários pode resultar de três aspetos.

A avaliação do impacto do Brexit resultante do referendo britânico de junho e o aviso do Fundo Monetário Internacional (FMI) de que, em outubro, vai rever em baixa a taxa de crescimento mundial para 2016 terão sido incorporadas nas novas previsões do BCE. Os chamados riscos descendentes aumentaram.

A volatilidade política na zona euro subiu. Espanha caminha para terceiras eleições legislativas sucessivas em dezembro, com um adiamento já admitido do envio para Bruxelas do ‘rascunho’ de orçamento de Estado para 2017 pelo atual governo de gestão em Madrid. Desenha-se novo impasse no andamento do cumprimento de metas no terceiro resgate à Grécia, que continua sem acesso ao programa de compra de dívida pública no mercado secundário pelo BCE e com profundas divisões entre a Alemanha e o FMI quanto a uma nova restruturação da dívida helénica. O resultado do referendo constitucional em Itália em novembro continua a pesar nas incertezas.

Finalmente, a dúvida se a política orçamental efetivamente vai passar a ‘fazer mais’, permitindo à política monetária ‘fazer menos’. Quer o FMI, quer o BCE já avisaram que a política monetária está ‘sobrecarregada’. No Japão e no Reino Unido há sinais de que uma ‘sinergia’ entre as duas políticas vai para diante, mas na zona euro não se vislumbra uma mudança desse tipo. A Alemanha registou um saldo orçamental de 1,2% do PIB no primeiro semestre e insiste em que a consolidação orçamental deve continuar no seu país e no conjunto da zona do euro.

Num contexto de absentismo dos governos da zona euro quanto a estímulos à retoma e no combate à inflação perto de 0%, Benoît Coueré, membro do conselho do BCE, avisou na reunião de banqueiros centrais em Jackson Hole, nos EUA, em agosto, que “se os outros atores não adotam as medidas necessárias nos seus domínios de políticas, talvez tenhamos [BCE] de mergulhar mais fundo no nosso enquadramento operacional e na nossa estratégia para o fazer”.

Apesar das dúvidas, para Filipe Garcia, a agulha poderá estar a mudar. “Como se percebe pelas dificuldades sentidas pelo BCE, os bancos centrais estão a deparar-se com as limitações da política monetária. O crescimento continua relativamente baixo, sobretudo tendo em conta os estímulos já injetados, os rendimentos das obrigações estão em níveis muito baixos e as taxas negativas (e suas distorções) passaram a fazer parte da rotina. Portanto, com a política monetária a 'esgotar-se', o foco pode passar para a política orçamental. Já se nota una inflexão de discurso a nível global que leva a crer que os principais governos irão “privilegiar o crescimento à austeridade”. Isto parece ser particularmente verdade na Europa e no Japão, à medida que se percebe que o impacto das ações do BCE e BoJ é cada vez menor. O mais provável é que esta expansão orçamental seja acompanhada de expansão monetária, tentando-se manter o risco e as taxas em níveis baixos. Será uma nova fuga para a frente, quando se aproximam eleições importantes em Itália, Espanha, França e Alemanha. Mas, e se isso também falhar?”, refere.

Muitos analistas querem que o BCE “mergulhe” ainda mais fundo. Ao início da tarde saberemos até onde a equipa de Draghi está disposta a ir até final do ano.

  • A Bolsa portuguesa segue com ganhos. Mas o sentimento em toda a Europa é de cautela. Esta quinta-feira é dia de reunião do Banco Central Europeu e há quem espere um prolongamento do programa de compras de ativos

  • Apesar dos apelos do G20 aos governos na segunda-feira, os estímulos à retoma económica dependem quase totalmente da política monetária dos bancos centrais, sobretudo na zona euro. A equipa de Mario Draghi reúne-se na quinta-feira e os analistas esperam que anuncie algumas mexidas