Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Com os governos ausentes, BCE empurrado para “fazer mais”

  • 333

Apesar dos apelos do G20 aos governos na segunda-feira, os estímulos à retoma económica dependem quase totalmente da política monetária dos bancos centrais, sobretudo na zona euro. A equipa de Mario Draghi reúne-se na quinta-feira e os analistas esperam que anuncie algumas mexidas

Jorge Nascimento Rodrigues

Sem sinais dos governos da zona euro e da Comissão Europeia de que usarão as suas políticas orçamentais e de reformas estruturais para impulsionar uma economia que abrandou uma décima no segundo trimestre do ano e onde a inflação não descolou em agosto de 0,2%, o Banco Central Europeu (BCE) poderá ter de “mergulhar mais fundo” – para usar a expressão de Benoît Coueré, da direção do banco - nas suas medidas de estímulos monetários. E já na quinta-feira, desejam alguns analistas.

O BCE poderá ter de “fazer mais” em política monetária, apesar dos riscos crescentes de ineficácia, já que os governos dos países membros e Bruxelas continuam a fazer de menos. A pressão sobre os bancos centrais das economias desenvolvidas subiu ainda mais em virtude do agravamento do contexto global.

FMI vai rever em baixa previsão para 2016

O Fundo Monetário Internacional (FMI) deverá rever em baixa, em outubro, a sua previsão de crescimento mundial para 2016. Se o fizer, em antecipação à assembleia anual e à divulgação do World Economic Outlook, será o sexto corte em 18 meses. Em julho, o FMI cortou a previsão em uma décima, apontando para 3,1% em 2016.

Na reunião do G20, que terminou na segunda-feira, o FMI apelou a que haja um “esforço coordenado para aumentar o crescimento”. Christine Lagarde, a diretora-geral, sublinhou que “há um acordo para que se utilizem totalmente todas as políticas – monetária, orçamental e estrutural – individual e coletivamente”, num quadro em que todos se comprometem a resistir a tomar medidas protecionistas.

O conselho do BCE reúne-se quinta-feira em Frankfurt e os analistas já criaram expetativas de que a equipa de Mario Draghi poderá anunciar algumas mexidas na política monetária.

Mudanças de política do BCE com maior probabilidade

As mudanças que recolhem maior probabilidade têm a ver com a revisão dos critérios de elegibilidade para compra de dívida pública no mercado secundário (libertando-a de um teto relacionado com a taxa de remuneração de depósitos que se situa em -0,4%), com a alteração dos limites proporcionais para aquisição de cada linha de obrigações em cada país e no total (que, até agora, obriga a uma regra em função do peso económico de cada estado membro) e com a extensão do programa de aquisições de ativos para além de março de 2017.

O economista Constantin Gurdgiev dá 75% de probabilidade à primeira mexida, 60% à segunda e 65% a 70% à terceira. Este analista, professor no Middlebury Instituto de Estudos Iternacionais, nos Estados Unidos, admite, ainda, que o âmbito de aquisições possa passar a incluir títulos emitidos por entidades da União Europeia, o que equivaleria “em certa medida a uma certa coordenação entre a política monetária e a orçamental a nível da União”.

Com probabilidades inferiores a 30%, segundo Gurdgiev, estão mexidas na taxa de juros de referência (que está em 0%), na própria taxa negativa de remuneração de depósitos (que está em -0,4%), ou a 'aventura' em medidas não convencionais mais heterodoxas, como as injeções designadas como ‘dinheiro de helicóptero’ (que Ben Bernanke tem aconselhado no caso do Japão), o aumento da meta de inflação de 2% para 4%, defendida recorrentemente por vários economistas, ou a descontinuação do dinheiro físico sobretudo notas em valores faciais mais elevados, como defende Kenneth Rogoff no livro que lançou este mês intitulado "The Curse of Cash" (A Maldição do Dinheiro).

Espetativas de inflação de médio prazo desapontam

Depois de 1,2 biliões de euros injetados pelo banco central da área do euro até 2 de setembro através dos quatro programas de aquisição de ativos (privados e públicos), o crescimento anual do Produto Interno Bruto desceu de 1,7% em julho para 1,6% em agosto. A inflação anual mantem-se em 0,2% em agosto, a mesma variação de julho. E as expetativas de inflação continuam muito abaixo da meta do BCE, que aponta para uma inflação inferior mas próxima de 2%.

“O que tem corrido pior, para além do desconforto alemão, é que a inflação e os objetivos de inflação continuam muito abaixo das metas do BCE. As expetativas de inflação a médio prazo estão abaixo de 1,4% no terceiro trimestre”, refere Filipe Garcia, economista-chefe e presidente da IMF, Informação de Mercados Financeiros. No final do ano passado, as expetativas apontavam para um intervalo entre 1,6% e 1,8%. Não têm deixado de descer.

Os índices de andamento da economia conhecidos por Purchasing Managers Index (acrónimo PMI) pioraram em agosto para a zona euro. O índice composto desceu de 53,3 em julho para 52,9 em agosto; no mesmo período, o índice dos sectores de serviços caiu de 53,1 para 52,8 e o relativo à indústria transformadora recuou de 52 para 51,7. O índice acima de 50 ainda significa crescimento, mas, no caso, tem abrandado.

Só em aquisição de dívida pública no mercado secundário, o BCE já comprou, até 2 de setembro, um pouco mais de 1 bilião de euros em títulos entre 2 a 30 anos que tenham uma yield até -0,4% (o teto imposto pela taxa de remuneração de depósitos dos bancos da zona euro nos cofres do sistema do BCE). O sucesso desta aquisição massiva provocou uma descida das yields das obrigações soberanas para níveis mais abaixo dos -0,4% em sete membros do euro.

No caso de dívida portuguesa, o BCE já adquiriu 20,8 mil milhões de euros no âmbito do programa iniciado em 2015. A Grécia continua a estar excluída deste programa.

Muita dívida com juros negativos inferiores ao teto imposto pelo BCE

Para dados de hoje, a Alemanha registava yields negativas inferiores ao teto definido pelo BCE em títulos de 2 a 7 anos. Para o banco privado suíço Pictet, citado hoje pela Reuters, mais de 50% da dívida em obrigações alemãs já regista yields abaixo daquele teto. Com yields abaixo do teto nos prazos entre 2 e 6 anos incluem-se obrigações da Áustria, Bélgica, Finlândia e Holanda. A França regista yields naquelas circunstâncias entre 2 a 5 anos e a Irlanda no prazo a 3 anos. “Parece-me provável que o BCE possa passar a poder comprar títulos com rendimentos abaixo dos -0,4% e que seja anunciado o alargamento temporal do programa. Deve notar-se que o reinvestimento em títulos que vão atingindo a maturidade implica uma dificuldade adicional de implementação do programa”, sublinha Filipe Garcia.

Mario Draghi, o presidente do BCE, regressa na quinta-feira ao palco da política monetária, de onde esteve ausente desde a última reunião do conselho do BCE a 27 de junho. Não participou no encontro anual de Jackson Hole organizado pela Reserva Federal norte-americana que se realizou entre 25 e b27 de agosto. O BCE enviou Benoît Coueré da direção executiva que avisou que “se os outros atores não adotam as medidas necessárias nos seus domínios de políticas, talvez tenhamos de mergulhar mais fundo no nosso enquadramento operacional e na nossa estratégia para o fazer”. Draghi reaparecerá amanhã na conferência de imprensa posterior à conclusão da reunião do BCE.