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Crise da dívida está associada à integração na moeda única

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Estudo indica que crise da dívida está associada à crise bancária gerada com a integração de Portugal na moeda única europeia e comportamento dos bancos portugueses nos primeiros anos do euro

A crise da dívida está associada à crise bancária gerada pelo processo de integração de Portugal na moeda única europeia e pelo comportamento dos bancos portugueses nos primeiros anos do euro, segundo o "As crises bancária e financeira de Portugal: consequências inesperadas da integração monetária', publicado no Journal of Economic Policy Reform.

Neste estudo, os investigadores Tiago Cardão-Pito e Diogo Baptista analisaram o desempenho do sector bancário português desde a adesão do país ao euro (1999) até 2015, concluindo que "a situação difícil de Portugal pode ter sido piorada consideravelmente pela crise bancária pós-euro".

Em entrevista à Lusa, Tiago Cardão-Pito afirmou que a principal conclusão desta investigação é que "a situação de dívida pública muito elevada que existem Portugal está em parte relacionada com uma crise bancária gerada pelo processo de integração monetária".

De acordo com o professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), a chegada do euro "eliminou o risco de câmbio, mas não eliminou o risco de crédito e de liquidez" e o problema foi que, "nos primeiros anos da moeda única, os bancos portugueses atuaram como se todos esses riscos tivessem sido eliminados".

Em consequência, os bancos "começaram a obter financiamento junto de entidades financeiras na União Europeia em montantes muito elevados, o que levou a transferências de capital muito grandes para Portugal, que geraram depois explosões de crédito", explicou Cardão-Pito.

Todo este processo "colocou os bancos numa situação muito difícil", que foi agravada quando, em 2007, houve uma alteração das taxas para os diferentes países do euro, "o que levou a que os bancos portugueses tivessem sido intervencionados".

Na investigação, Tiago Cardão-Pito e Diogo Baptista analisaram os episódios de crises bancárias em Portugal entre 2008 e 2015, nomeadamente com o BPP, o BPN, o BES e o Banif. A conclusão a que chegaram foi que "todos estes problemas que existiam nos vários bancos não foram fenómeno isolados, mas são parte de um problema sistemático" que decorre da "forma como o euro foi implementado" e do "comportamento da banca nacional nos primeiros anos do euro".

Questionado sobre se o euro fez pior do que melhor ao sistema bancário português, Cardão-Pito diz que a moeda única "por si só é um objeto inanimado" e que o problema "não seria o euro em si mas a forma como foi implementado e como foi gerido nos primeiros anos". No entanto, o académico sublinha que se tratou de "uma experiencia nova que nunca foi tentada", pelo que "é natural que existissem problemas".

Tiago Cardão-Pito diz mesmo que "a própria União Europeia parecia não estar completamente preparada" para a introdução do euro em vários países e que Bruxelas está agora "a tomar algumas medidas que se calhar deviam existir nos primeiros anos do euro", como é o caso da união bancária.

"É difícil um país controlar as movimentações de dinheiro de um país para o outro por si só, tem de ser uma instituição internacional que faz isso e esse é um dos objetivos da união bancária. Se essa união bancária tivesse em funcionamento nos primeiros anos do euro, essas transferências massivas de liquidez que vieram para Portugal no início do euro poderiam ter sido acauteladas", exemplifica.

Outro "fator de segurança para o futuro" apontado pelo investigador foi "o funcionamento do Banco Central Europeu (BCE) como credor de último recurso", um sistema que é "relativamente recente". Também o facto de o Banco de Portugal estar agora "a funcionar em termos de supervisão de forma articulada com o BCE", de uma forma "muito mais próxima do que antes", é apontado como uma alteração no sentido certo.
O académico afirma que "as crises bancárias não podem ser tomadas de ânimo leve", uma vez que têm "consequências muito graves para os países": por um lado, "a dívida pública tende a aumentar de forma muito elevada nos três anos seguintes" e, por outro, "se o banco despede pessoas, isso vai pesar nas contas públicas" por via dos impostos que trabalhadores e empregador deixam de pagar ao Estado.

De qualquer forma, Tiago Cardão-Pito diz que "é preciso gerir estas questões com muito cuidado", porque, "mesmo que a gestão do sistema bancário seja feita de forma muito mais ensinada e preparada, não há nenhum país do mundo que consiga evitar uma crise do setor bancário", sendo "sempre um risco que persiste".