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Descubra se também é um prosumidor

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Gerir poupanças e ter variedade de escolha ainda são as preocupações dos portugueses, mas ganham peso os consumidores que compram como reflexo de um estilo de vida

Há novos perfis emergentes entre os consumidores, devido ao aumento da consciência ética, das compras como um reflexo do estilo de vida e da moda dos trabalhos manuais e do ‘faça você mesmo’, personificada na figura do prosumidor (contração entre produtor e consumidor). Tendências às quais a crise não é alheia, ao obrigar os portugueses a terem novos hábitos de consumo, como produzir e trocar aquilo de que precisam em vez de comprar, entre outras práticas.

Estas são algumas das conclusões do inquérito sobre sustentabilidade em Portugal, desenvolvido pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa para a Missão Continente, marca que agrega as iniciativas de responsabilidade social dos hipermercados da Sonae. “Era importante termos um estudo para balizar as nossas iniciativas e dar prioridade onde pode ser mais interessante intervir, porque há iniciativas que podem fazer sentido mas que podem não ser aquelas que a população está mais preparada para absorver”, refere José Fortunato, presidente da Missão Continente, para justificar a aposta no estudo que é apresentado na terça-feira em Lisboa, no auditório do Instituto de Ciências Sociais (ICS).

O consumo responsável, as energias sustentáveis, bem como o associativismo e o voluntariado, são as áreas prioritárias de intervenção, no quadro das atividades da Missão Continente e na sequência deste estudo, que salienta a emergência dos consumidores com estas características. Os consumidores dominantes, no entanto, continuam a ser aqueles mais preocupados com a gestão das poupanças e em ter uma grande variedade de produtos e serviços à disposição.

A redução das idas aos restaurantes, o hábito de levar de casa as refeições para consumir no trabalho, o cultivo de legumes, frutas e ervas aromáticas e a troca de produtos com amigos e familiares são as principais mudanças que os portugueses fizeram nas suas práticas de consumo, na sequência da crise. “Só 29% dizem que a crise não mudou os seus hábitos de consumo. A todas as outras pessoas a crise obrigou a repensar os padrões de consumo e lazer e levou-as para outras práticas”, refere Luísa Schmidt, socióloga do ICS e uma das responsáveis pelo estudo, acrescentado que este é um movimento em que os portugueses fizeram da necessidade uma virtude, ao adotarem um consumo mais frugal e com preocupações ambientais.

A socióloga destaca ainda a tendência de crescimento do número de pessoas que faz compras em supermercados e lojas de proximidade, apesar da maioria se deslocar aos hipermercados. “As pessoas já não fazem tanto as compras mensais, fazem compras mais à semana”, avança Luísa Schmidt, referindo também como novas tendências os consumidores que optam por comprar produtos mais baratos porque o prazo de validade está a acabar, projetos como o Frutafeia e a explosão de lojas com produtos biológicos.

Neste contexto, as marcas de grande distribuição têm de se repensar. “As marcas continuam a ser importantes, mas a sua importância irá depender do que fizerem. As pessoas valorizam, por exemplo, a produção nacional, a informação e a rotulagem dos produtos, a proximidade local, entre outros”, sustenta.

José Fortunato avança que o Continente já procura cobrir estas preocupações. “Nos nossos produtos de marca própria já temos muita informação, que explica de forma transparente e com o semáforo nutricional o impacto dos alimentos”, explica o presidente da Missão Continente, acrescentando que “vai haver mais insistência nisso porque há perfis novos de consumo”. Com o Clube dos Produtores Continente, por outro lado, José Fortunato espera, por exemplo, aumentar o envolvimento e as práticas sustentáveis no agroalimentar.

O consumo responsável é outra das áreas onde o Continente já intervém, com projetos que vão desde a combustão dos desperdícios orgânicos das lojas para serem transformados em energia, até parcerias com a Cruz Vermelha e cerca de 600 instituições a nível local, para a alocação de alimentos que já não chegam ao dia seguinte em boas condições. Esta economia circular também é salientada por Luísa Schmidt, que considera fundamental desenvolvê-la.

“Outra coisa interessante é que as pessoas dizem que se o rendimento familiar aumentasse iriam poupar. O boom consumista nos anos 80 e 90 foi rápido e não deu oportunidade para as pessoas pensarem. Depois caiu-lhes em cima uma crise. Os consumidores não querem passar outra vez por isso”, avança a socióloga referindo-se a outra das conclusões do inquérito presencial feito junto de uma amostra aleatória estratificada, de 1500 pessoas, entre 17 de março e 7 de abril.