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Bruxelas facilitou a vida à Caixa para evitar o pior

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Luís Barra

António Domingues entra com a difícil missão de encolher substancialmente o banco. Espanha e Brasil poderão fechar

Bruxelas flexibilizou as regras para que a capitalização da Caixa se fizesse em condições mais suaves do que as que impôs quando autorizou o Estado a emprestar ao banco público quase €1000 milhões, em 2011, no âmbito do pacote de €12 mil milhões concedido durante o período da troika. Mais, não considerou os €5,160 mil milhões (€2,7 mil milhões de dinheiro fresco) agora autorizados, uma ajuda de Estado, o que a acontecer obrigaria a um resgate da Caixa, com consequências graves para os obrigacionistas e grandes depositantes. Se em 2011 o retorno do capital investido (ROE) para que o Estado mostrasse que estava a investir como um privado era de 10%, agora será de 5%. A Caixa, que no pior cenário dos últimos testes de stresse tinha chumbado, fica com a vida facilitada. O “Financial Times” chamou-lhe “um passe de mágica” feito em prol da estabilidade do sistema financeiro português.

Já com luz verde da Direção-Geral da Concorrência europeia (DG Comp), a nova administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD), presidida por António Domingues, tomou posse esta semana. Tem pela frente um trabalho árduo de reestruturação — vai ter de encerrar 300 balcões e rescindir contrato com mais de 2500 pessoas (tem aliás um orçamento de €800 milhões para o fazer). O violento corte de custos não se ficará por aqui. Na prática, o plano de negócios irá conduzir a Caixa a uma reformulação profunda e a uma saída do banco de determinados mercados. Espanha, Brasil e Macau são operações que poderá abandonar, apurou o Expresso. Há ainda unidades de negócio que poderão ser descontinuadas ou reinventadas de forma a maximizar o regresso do banco aos lucros.

O primeiro-ministro, António Costa, que apadrinhou a escolha de Domingues, juntamente com o ministro das Finanças, Mário Centeno, e o vice-presidente do Banco Central Europeu, Vítor Constâncio, deixou já um recado à nova gestão: “Retribuam devidamente o investimento que o acionista, todos os contribuintes portugueses, faz na Caixa”.

As tarefas da comissão executiva são muitas e espinhosas, a começar pela limpeza a fundo nos ativos tóxicos. Não será de estranhar, diz uma fonte da banca ao Expresso, que as contas do final do ano passem por um aumento significativo das provisões de alguns créditos mais problemáticos. O tema é sensível pois poderá colocar alguns dos grandes clientes numa situação delicada. As dores de cabeça não ficam por aqui: é preciso ter um plano de negócios suficientemente credível para conseguir levantar junto de investidores privados €1000 milhões, através de uma emissão de dívida subordinada.

António Domingues, ex-vice-presidente do BPI, aterrou na CGD na quarta-feira. É a primeira vez em muitos anos que a comissão executiva não tem figuras políticas. Nos corredores do mundo financeiro tem sido criticado o peso de gestores recrutados no BPI. Estranha-se que não haja ninguém da Caixa a integrar a administração, o que permitiria uma linha de continuidade na gestão e evitaria anticorpos. No primeiro dia Domingues fez o que todos os presidentes novos fazem: escreveu uma carta aos trabalhadores onde os convoca para os árduos desafios que o banco público tem pela frente. Não falou, porém, nos despedimentos.