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As missões espinhosas de Domingues na Caixa

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Encolher o banco dentro e fora de portas, limpar do balanço o que resta dos créditos tóxicos e preparar a emissão de dívida subordinada no valor de mil milhões de euros são as tarefas hérculeas que o novo presidente da Caixa tem pela frente. É um plano de reestruturação agressivo. Sair de Espanha é uma hipótese

d.r.

Os primeiros obstáculos ao futuro do banco público estão ultrapassados. Há mais pela frente e não são pequenos. O governo tem autorização de Bruxelas para avançar com a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos sem que seja considerada ajuda de Estado (evitando um resgate aos obrigacionista e depositantes do banco). Houve uma flexibilização das regras. E, finalmente, a nova administração, liderada pelo ex-vice-presidente do BPI, António Domingues, vai tomar posse. Há um respirar de alívio, num processo que se arrastou durante meses, com muita polémica à mistura e alguma resistência da Direção Geral da Concorrência (DG Comp) e do Banco Central Europeu (BCE).

A recapitalização será de 5,160 mil milhões de euros, sendo que deste montante 2,7 mil milhões de euros é dinheiro fresco, ou seja, injeção de capital direta colocada pelo Estado.
Será uma operação feita "em condições de mercado", como fizeram os outros bancos privados, e por isso não foi considerada ajuda de Estado. E as Finanças garantem que não irá afetar o défice - assim será se for nas condições negociadas com a DG Comp. Porém, irá à dívida pública e obrigará um orçamento retificativo, como o ministro das Finanças, Mário Centeno, já assumiu.

Cortar a doer

O processo de capitalização e preparação do futuro da Caixa tem sido duro, e vai continuar a ser. A administração liderada por António Domingues, que toma posse esta quarta-feira, tem uma tarefa difícil pela frente. Desde logo pôr em prática o plano de negócios e reestruturação do banco público, o que significa avançar para um corte de custos e para uma redução da dimensão doméstica (menos trabalhadores e menos balcões) e internacional. Haverá certamente uma reformulação da exposição da Caixa a determinados mercados, nomeadamente Espanha, Brasil e Macau. Está inclusive em cima da mesa a hipótese de sair totalmente do mercado espanhol, onde a Caixa perdeu centenas de milhões de euros.

Outras das tarefas que promete provocar algumas dores de cabeça é o aumento da provisão de alguns créditos, ou seja, uma limpeza profunda dos ativos mais problemáticos. Um tema sensível, já que é uma ação que poderá fragilizar alguns dos grandes clientes da Caixa.

A equipa de Domingues terá ainda de desatar outro nó complexo: é preciso ter um plano de negócios suficientemente credível para conseguir levantar junto de investidores privados mil milhões de euros, através de uma emissão de dívida subordinada. Não vai ser fácil convencer os investidores depois do que aconteceu com as obrigações do antigo BES. Voltar ao lucro é imperioso, até porque o plano obriga o banco público volte a ser rentável e distribua dividendos. A Caixa teve um prejuízo de €205,2 milhões nos primeiros seis meses deste ano.

Quatro meses à espera de Domingues

Foi um longo calvário o processo de aprovação da nova administração da Caixa, que toma posse quarta-feira. Serão para já onze administradores, com António Domigues a acumular a presidência da comissão executiva e do conselho de administração. O novo presidente da Caixa quis formar uma equipa de 19 pessoas. Queria ter 12 administradores não executivos, mas o BCE por agora só admitiu 11, permitindo, no entanto, o alargamento para 15 no futuro. E deu seis meses para que o acionista Estado escolha alguém para liderar o conselho de administração (chairman), e nomeie mais três elementos, preferencialmente mulheres.

BCE exige formação e vigilância

O sim de Frankfurt à equipa de Domingues vem com exigências. O caderno de encargos imposto pelo Banco Central Europeu à CGD é extenso. Mário Draghi, o presidente do BCE, fez questão de exigir um reporte exaustivo sobre determinados assuntos. São seis as explicações a dar. A encabeçar a lista a que o Expresso teve acesso está o processo judicial em que poderá ser visado Pedro Leitão, novo administrador executivo da Caixa e ex-administador da Portugal Telecom. O BCE exige que a Caixa "acompanhe de perto as próximas fases do processo civil pendente relativo a Pedro Leitão" e reporte imediatamente se houver alguma informação relevante. O futuro administrador executivo da CGD saiu da PT em 2014, e há processos que estão a avançar contra antigos gestores da operadora de telecomunicações, por causa do investimento ruinoso de 897 milhões de euros que esta fez na Rioforte, empresa do grupo Espírito Santo. O BCE não identifica o processo que está por trás desta exigência relativamente a Pedro Leitão (até agora presidente interino da Angola Telecom), mas tudo indica que está relacionado com a PT.

O supervisor quer que a CGD informe de imediato a renúncia de António Domingues ao cargo de administrador não executivo da NOS (o que aconteceu na segunda-feira). E que, nos próximos seis meses, se avance com a separação das funções de presidente do conselho de administração das de presidente da comissão executiva.

O BCE impôs ainda à Caixa que reavalie a presença de mulheres na administração do banco. Trinta por cento do número de membros do conselho até 2018 terá de ser composto por mulheres. Agora não há nenhuma. Frankfurt alerta também para a obrigatoriedade de os administradores não executivos terem tempo para cumprir as suas funções de fiscalização. E adverte para a necessidade de as competências dos administradores executivos estarem em linha com a experiência que o cargo impõe. É nesse âmbito que o BCE determina também que a Caixa disponibilize uma formação especifica em gestão bancária e risco de crédito no INSEAD a três dos administradores executivos - João Tudela Martins, Paulo Rodrigues da Silva e Pedro Leitão. Não fica por aqui. Exige também que seja dada formação contínua a todos os membros do conselho de administração, à comissão executiva e ao conselho fiscal. Não se sabe ainda é quem vai dar essa formação.

O BCE quer também saber se os membros do conselho fiscal que aprovou - Guilherme d`Oliveira Martins, Luís Manuel Baptista Branco e António Borges Assunção - dedicam tempo suficiente às suas funções.

Quem vai mandar na CGD

O presidente e os administradores executivos

António Domingues - Presidente do conselho de administração e comissão executiva

Trabalhou durante 27 anos no BPI e, pelo seu percurso na banca, tem um perfil que encaixa que nem uma luva no lugar de presidente da CGD.

Economista, 59 anos, era vice-presidente do BPI quando foi convidado, tendo a seu cargo a área financeira, uma experiência considerada relevante uma vez que a CGD tem em curso um processo de recapitalização. É bem visto nos círculos socialistas, e no BPI foi colega de Vítor Constâncio, hoje vice-presidente do BCE, o que pode ser uma vantagem. Antes do BPI, passou pelo Banco de Portugal e pelo Banco Português do Atlântico (BPA).

Emídio Pinheiro - A sua fidelidade ao grupo BPI vem de longa data: é desde 2005 presidente do Banco de Fomento Angola, mas entrou no BPI em 1991, onde começou por desempenhar o cargo de diretor central.

João Tudela Martins - Fez grande parte da sua carreira no BPI. Em fevereiro deste ano passou a liderar, como diretor, a área de gestão e controlo de risco do banco. Durante mais de 13 anos foi diretor de risco do negócio de empresas do BPI. Antes tinha sido diretor comercial de empresas.

Pedro Leitão - Era até agora presidente interino da Angola Telecom, operadora de telecomunicações que está a ajudar a reestruturar. Não tem experiência no sector bancário. Fez carreira nas telecomunicações. Entrou na PT em 2000 e quando saiu, em 2014, era administrador da PT SGPS e da PT Portugal. Iniciou a carreira em 1993 na McKinsey.

Tiago Ravara Marques - Liderava os recursos humanos do BPI desde 2000 e fez parte do grupo negociador do contrato coletivo de trabalho da banca. Também já foi administrador da BPI Pensões.

Henrique Cabral Menezes - Grande parte da sua carreira foi passada no BPI, a partir de 1998, primeiro como diretor e depois com funções de administração, tendo saído deste banco em setembro de 2009. Entrou no grupo CGD em janeiro de 2014, assumindo a presidência do Banco Caixa Brasil.

Paulo Rodrigues da Silva - Passou pelo BPI entre 1992 e 2000 em cargos de administração, tendo depois integrado a administração da Vodafone em Portugal de 2000 a 2004. Entre 2004 e 2009 esteve nas operações do grupo na Alemanha, Reino Unido e Turquia

Os administradores não executivos

Rui Vilar - Vice presidente - Conhece a CGD como poucos, pois foi presidente do Conselho de Administração (1989-1995) e é um dos responsáveis pela sua modernização. Foi ministro e vice-governador do Banco de Portugal. Teve vários cargos na área cultural e foi durante dez anos presidente da Gulbenkian. Passou pela administração da Galp e foi presidente da REN.

Pedro Norton - Chegou à Impresa (proprietária do Expresso) em 1992, onde desempenhou várias funções de administração, acabando por liderar o grupo como presidente-executivo entre 2012 e 2016. Licenciado em Gestão, teve passagem de dois anos pela banca de investimento.

Herbert Walter - Ex-presidente-executivo do Dresdner Bank, integrou a administração do BPI em representação da Allianz, seguradora que controla aquele banco alemão. Tem experiência no sector bancário e segurador, passou pela administração de vários bancos alemães. Entre 1980 e 1988 foi jornalista do "Frankfurter Allgemeine Zeitung" e do "Handelsblatt

Angel Corcóstegui - Antigo presidente-executivo do Santander Central Hispano, o espanhol tem uma vasta experiência no sector bancário. Trabalhou como analista financeiro no Banco Mundial, em Washington, passou pelo Chase Manhattan e pelo Banco Bilbao Vizcaya, instituição que ajudou a fundir.