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Galp relança aposta na Namíbia

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Há milhões de anos o que são hoje a Namíbia e o Brasil eram um só território. Hoje as descobertas de petróleo no Brasil levaram várias companhias a procurar ouro negro na Namíbia. A Galp é uma delas e acaba de assinar dois novos contratos no país

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

A Galp Energia assinou dois novos contratos de concessão para obter novas licenças de exploração petrolífera offshore na Namíbia, um país onde já tinha perfurado três poços em 2013, e onde irá agora reforçar a sua aposta. “A informação obtida nas campanhas de recolha de dados sísmicos anteriores forneceram indicações animadoras que justificam o aprofundamento de trabalhos adicionais”, avançou ao Expresso fonte oficial da petrolífera portuguesa.

A empresa não avança para já uma estimativa dos investimentos que fará na Namíbia. Certo é que os novos contratos lhe dão uma janela de vários anos para voltar a fazer a prospeção de petróleo naquele mercado. Na área 23 as atividades de exploração (incluindo estudos geológicos e sísmicos) vão durar três anos. Na área 28 a Galp terá quatro anos para a prospeção. “Após este período inicial de exploração, caso sejam identificados prospetos promissores, seguir-se-ão novos períodos de exploração adicionais com o compromisso de efetuar poços de exploração para cada área”, explica a empresa.

Ao contrário do que sucedeu em 2013, quando a Galp detinha uma participação de 14% no consórcio que explorava aquelas áreas, agora a petrolífera portuguesa terá um papel de liderança, assegurando 80% do consórcio (os grupos locais Custos e Namcor terão 10% cada um). “Desta vez, a Galp irá assumir durante toda a fase inicial do projeto o papel de operador em projetos offshore, um objetivo estratégico para a empresa, que é já hoje um player de referência de média dimensão no sector europeu de petróleo e gás”, sublinhou ao Expresso fonte da Galp.

A petrolífera admite vir a integrar outros investidores no seu consórcio, mas nada está previsto para já. “A abertura à entrada de mais parceiros poderá ser equacionada numa fase ulterior, sendo que atualmente não existe qualquer entidade identificada nem prazo para que tal aconteça”, indica a empresa.

As concessões agora renovadas cobrem 20 mil quilómetros quadrados, uma área idêntica à dos projetos de prospeção que a Galp tem em Portugal (na bacia de Peniche são 12 mil quilómetros quadrados, na do Alentejo são 9 mil). Segundo a petrolífera presidida por Carlos Gomes da Silva, as concessões na Namíbia localizam-se em áreas emergentes em que “a existência de hidrocarbonetos já foi testada com um elevado potencial de descobertas significativas”.

Os poços secos em 2013

Gigante em Portugal, com uma capitalização bolsista de €10,9 mil milhões, a Galp é no contexto da indústria petrolífera mundial uma empresa de média dimensão. E, à semelhança de todas as outras petrolíferas, exposta às vicissitudes do negócio da exploração e produção. Incluindo o risco de perfurar poços que afinal estão secos, sem que isso implique necessariamente o falhanço de todo um projeto.

Em setembro de 2013 a empresa reportava a conclusão da perfuração de um terceiro poço na Namíbia, que acabou por ser classificado como um poço seco. Localizada na área 24, numa profundidade de água de 1716 metros, esta perfuração foi abandonada. A rocha tinha uma fraca porosidade (dificultando a extração de petróleo), mas houve indícios de gás. Já na altura a Galp admitia que “estudos adicionais sobre as amostras recolhidas no poço serão essenciais na continuação da atividade exploratória na Namíbia”.

Ainda em 2013 a Galp tinha informado o mercado de que outras duas perfurações na área 23 na Namíbia tinham resultado num poço seco e num poço com indícios da presença de petróleo, embora em volume não comercial (ou seja, cuja quantidade não chegaria para viabilizar o custo de investir na sua extração).

O regresso da Galp à Namíbia após uma primeira incursão sem grandes descobertas, e agora como líder de consórcio, mostra como a indústria petrolífera é sobretudo um negócio de longo prazo, uma prova para maratonistas, bem diferente do que sucede com os sprints da cotação do crude no mercado internacional, proporcionando ganhos (e perdas) rápidos a quem transaciona contratos sobre aquela matéria-prima.

Em busca do ouro negro

A Namíbia é também o exemplo de como as companhias petrolíferas procuram constantemente uma alternativa aos mercados maduros, onde a exploração e produção de hidrocarbonetos está consolidada e gera poucas oportunidades de crescimento. Na Namíbia verificou-se entre 2013 e 2014 uma vaga de novos projetos petrolíferos que atraiu, além da Galp, companhias como a BP, a Repsol, a Royal Dutch Shell e a Tullow Oil, entre outras.

O entusiasmo em torno deste mercado prende-se, em grande medida, com a ideia de que há milhões de anos a Namíbia e o Brasil teriam estado ligadas, partilhando uma geologia semelhante. A descoberta de elevados recursos petrolíferos nas bacias brasileiras de Santos e Campos alimenta a expectativa de que as formações geológicas da Namíbia possam, também elas, abrigar volumes consideráveis de hidrocarbonetos ainda por explorar.