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Dívida portuguesa provoca perdas aos investidores

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O retorno das Obrigações do Tesouro desde o início do ano está ainda em terreno negativo. Restantes periféricos dão ganhos entre 4,5% e 8%. Juros da dívida portuguesa a 10 anos resistem nos 3%

Jorge Nascimento Rodrigues

Os investidores na dívida obrigacionista portuguesa registam uma perda de 0,8% desde o início do ano, segundo o índice da Bloomberg para a dívida soberana (Bloomberg Global Benchmark Bond Indices). O contraste com os restantes periféricos da zona euro é arrasador: um retorno de 7,8% para a dívida grega; de 6,9% para a espanhola; de 4,97% para a irlandesa e de 4,6% para a italiana. A média de ganhos desde início do ano para a dívida da zona euro no seu conjunto é de 6,1%.

O mês de agosto regista um retorno negativo de -0,57% para as Obrigações do Tesouro português (OT). No entanto, mantém-se em terreno positivo, se for avaliado para o período das últimas 52 semanas. Nesse caso, o ganho é de 0,58%, em terreno positivo, ao contrário do que se registou em fevereiro, março, abril e maio. Contudo, este ganho nas últimas 52 semanas é brutalmente inferior a 19,3% para a dívida grega, 9,6% para a espanhola, 8% para a italiana e 6,5% para a irlandesa.

Atualmente a dívida que mais retorno está a dar desde início do ano aos investidores é a do Reino Unido, que se destaca com 17,27%. No período das últimas 52 semanas, as obrigações britânicas ficam em segundo lugar, com um retorno de 17,27% face a 19,3% para a dívida grega.

Juros das OT não descem de 3% no prazo de referência

Apesar do acordo entre Lisboa e Bruxelas relativo ao plano de recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e do défice das Administrações Públicas ter caído 543 milhões de euros nos primeiro sete meses do ano em relação a período homólogo do ano passado, o ‘sentimento’ dos investidores continua a pautar-se pela dúvida. Permanece uma reação negativa à continuação da desaceleração da economia portuguesa no segundo trimestre do ano e ao aumento da dívida pública para máximos históricos em termos de rácio no Produto Interno Bruto no final de junho.

O Instituto Nacional de Estatística publica a 31 de agosto as Contas Trimestrais Nacionais, sendo um momento em que as tendências macroeconómicas verificadas no primeiro semestre do ano poderão ser melhor aferidas. Logo a 2 de setembro, a agência de notação Moody’s publicará os resultados da sua revisão sobre o rating português e no dia 16 será a vez da S&P. Ambas classificam a dívida portuguesa de longo prazo como especulativa, vulgo ‘lixo financeiro’, mas qualquer agravamento da notação ou da perspetiva fará regressar o ‘nervosismo do rating” ao mercado da dívida, ainda que o evento crítico seja a decisão da agência canadiana DBRS a 21 de outubro (no caso de cortar o rating para ‘lixo financeiro’) após a apresentação a Bruxelas do ‘rascunho’ do orçamento para 2017 e do relatório sobre o andamento da consolidação orçamental em 2016.

No mercado secundário, as yields das OT no prazo de referência a 10 anos, depois de terem descido para 2,7% a 15 de agosto, retomaram uma trajetória de subida e têm resistido no patamar dos 3%. Esta semana fecharam em 3,06%, dois pontos base acima de 3,04% aquando do encerramento a 19 de agosto. As yields da dívida no prazo de referência subiram, esta semana, para Portugal e Grécia, e desceram dois pontos base para Espanha e Itália, e seis pontos base para a Irlanda, que continua a registar as yields mais baixas no grupo dos periféricos, inferiores a 0,5%. O custo de financiamento da dívida espanhola a 10 anos continua abaixo de 1%, um patamar de mínimos históricos, consecutivamente desde 10 de agosto.

A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) anunciou a realização de dois leilões de OT no último dia do mês, um a 5 anos e outro a 10 anos. No prazo de referência, no último leilão realizado a 13 de julho, o Tesouro pagou uma taxa de colocação de 3,09%. No mercado secundário o nível das yields na dívida a 10 anos flutua ligeiramente acima de 3%, longe dos mínimos históricos de 1,6% registados excecionalmente em março do ano passado em reação ao lançamento do programa de aquisição de dívida pública da zona euro no mercado secundário pelo Banco Central Europeu. Em fevereiro de 2015, o IGCP colocou dívida a 10 anos pagando uma taxa média de 2,04%, a mais baixa de sempre, e em abril desse ano pagou 2,182%.

Apesar de juros a 3% serem historicamente baixos para o Tesouro português, a dinâmica em Portugal foi de subida em relação aos mínimos de março do ano passado, enquanto em Espanha, Irlanda e Itália foi de descida para novos mínimos históricos em julho e agosto, depois de passado o choque pontual do Brexit em final de junho.

Prémio de risco subiu

Em virtude da descida para níveis ainda mais negativos das yields das obrigações alemãs – que fecharam a semana em -0,07% - o prémio de risco da dívida portuguesa subiu de 307 pontos base a 19 de agosto para 313,1 pontos base a 26 de agosto. Estes níveis correspondem a um diferencial de mais de 3 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã.

Esta semana, o prémio de risco da dívida espanhola desceu oito pontos base para 101 pontos base (e chegou a estar abaixo de 100 durante a semana, ou seja, inferior a 1 ponto percentual) e dois pontos base para a dívida irlandesa. Subiu dois pontos base para a dívida italiana, cujo prémio está em 119 pontos base, e 13 pontos base para a dívida grega, com o risco acima de 820 pontos base.