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Todos à espera do discurso da mais poderosa banqueira do mundo

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JANET YELLEN. A equipa da presidente da Fed está entre a pressão política de aumentar as taxas de juro e desligar-se de vez de uma política monetária ainda com resquícios de estímulos que só alimentam o risco e ‘bolhas’ em algumas áreas financeiras

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A presidente do banco central norte-americano fala esta sexta-feira num simpósio anual que já é considerado o “Davos” dos decisores da política monetária mundial. Os investidores e analistas financeiros estão suspensos à espera de saber se a Fed vai aumentar as taxas de juro ainda este ano. Os mercados de futuros duvidam

A questão que domina o horizonte dos mercados financeiros é simples: o mais poderoso banco central do mundo vai ainda este ano subir as taxas de juro ou não? Os analistas e os investidores estão em suspenso à espera de que ‘sinais’ poderá dar a presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed), a economista Janet Yellen, no discurso que vai proferir esta sexta-feira pelas 16h (hora de Portugal) no simpósio de Jackson Hole nos Estados Unidos, um encontro que já é considerado como o “Davos” de verão.

No encontro do ano passado, Yellen não participou, deixando o palco ao seu número dois, Stanley Fisher, que preanunciou a subida das taxas de juro na reunião de 15 e 16 de dezembro, alegando que não era precisa uma descolagem da inflação para tomar tal decisão. Na altura, a inflação nos EUA estava em 0,2% e desceria inclusive para 0% em setembro. Subiria até 1,4% em janeiro de 2016. A semana de dezembro de subida das taxas de juro saldou-se por uma quebra mundial ligeira das bolsas, de 0,03%, e um recuo de 0,34% em Wall Street. Os mais resilientes foram os mercados emergentes, cujas bolsas ganharam 2%. A Europa registou um ganho ligeiro de 0,1%.

O tema deste ano do simpósio debruça-se sobre o “desenho de um enquadramento de política monetária mais resiliente para o futuro”, mas, na verdade, a atenção vai estar centrada na exegese dos parágrafos do discurso de Yellen.

Draghi vai marcar pela ausência

ELA E ELE. Estes dois mexem muito com a nossa vida. Ele vai faltar ao encontro

ELA E ELE. Estes dois mexem muito com a nossa vida. Ele vai faltar ao encontro

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A Fed subiu as taxas de juro em dezembro do ano passado para um intervalo entre 0,25% e 0,50%, depois de sete anos perto de 0%. A especulação nos últimos seis meses tem girado em torno de saber se a equipa de Yellen vai voltar a subir as taxas ainda este ano. Até final de ano, o Comité de Política Monetária (Federal Open Market Committee, acrónimo FOMC) vai reunir-se três vezes – a 20 e 21 de setembro, a 1 e 2 de novembro, e, finalmente, a 13 e 14 de dezembro.

O programa detalhado do simpósio foi divulgado esta quinta-feira à noite, hora local de Jackson Hole, já madrugada em Portugal. Este ano, da comissão executiva do Banco Central Europeu (BCE), só está prevista a participação do economista francês Benoît Coeuré, num painel no dia 27 de agosto, o último do simpósio. Mario Draghi, o presidente, marcará pela ausência.

Recentemente, vários membros influentes da Fed expressaram opiniões dando a entender que um aumento da taxa de juros é provável ainda este ano, a começar pelo vice-presidente Stanley Fisher, o número dois de Yellen, no domingo passado, e os presidentes dos bancos ‘regionais’ de Nova Iorque, William Dudley, de São Francisco, John Williams, e de Atlanta, Denis Lockhart, na terça-feira. Este último disse mesmo explicitamente: “pelo menos uma subida da taxa será apropriada este ano”.

A publicação, na quarta-feira, das atas da última reunião da Fed, realizada em 26 e 27 de julho, revela que o número de presidentes dos bancos ‘regionais’ a favor de uma subida das taxas de juros passou de seis, em junho, para oito em julho, uma maioria clara nos 12 da rede “regional”.

Vai Janet Yellen abandonar o termo “prudência”?

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O FOMC, o órgão de decisão, tem apenas 10 membros, cinco provenientes do conselho de governadores chefiado por Yellen e cinco presidentes rotativos dos bancos regionais, sendo Dudley, de Nova Iorque, o vice-presidente do comité e um dos mais influentes. Três dos “regionais” atualmente no comité são a favor da subida das taxas, incluindo Esther L. George, organizadora do simpósio de Jackson Hole. Ela tem sido uma dissidente dentro do comité, votando, isolada, pela subida da taxa de juros por três vezes nas últimas quatro reuniões, incluindo a de julho.

Yellen tem defendido, até agora, o discurso da “prudência”, em virtude dos riscos internacionais – incógnita sobre o abrandamento na China, impacto futuro do Brexit à medida que a negociação para a saída do Reino Unido da União Europeia evolua, volatilidade nos preços do barril de petróleo – e do andamento da própria economia americana. Com o desaparecimento do pânico do impacto imediato do Brexit, a subida dos preços do crude depois dos mínimos de janeiro e uma situação “controlável” na segunda maior economia do mundo (a China), a Fed tem centrado a atenção no andamento doméstico.

Mas a economia norte-americana emite sinais contraditórios. A economia está praticamente em pleno emprego com uma taxa de desemprego de 4,9% e um desemprego estrutural, de longo prazo, em 1,3%. O Produto Interno Bruto acelerou no segundo trimestre de 2016, com um crescimento homólogo de 1,2%, mas está abaixo do crescimento na zona euro (1,6%) e da média dos quatro trimestres de 2015 nos Estados Unidos (em 1,8%). Stanley Fisher considerou o crescimento “medíocre”, em contraste com a “resiliência” do emprego. A inflação tem estado numa trajetória descendente: 1,1% em abril; 1% em maio e junho; e 0,8% em julho. Um processo desinflacionista que coloca a inflação longe da meta de 2% da política monetária. Má notícia, também, vinda da produtividade: depois de um pico no terceiro trimestre de 2015, tem estado a cair há três trimestres consecutivos.

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O dilema da Fed

A equipa de Yellen está entre a pressão política de aumentar as taxas de juro e desligar-se de vez de uma política monetária ainda com resquícios de estímulos que só alimentam o risco e ‘bolhas’ em algumas áreas financeiras, como acusam os críticos, e a incerteza sobre a retoma económica dos EUA. Stanley Fisher, na já referida intervenção, sublinhou que outras políticas têm de subir ao palco. Internacionalmente, quer o G20, quer o Fundo Monetário Internacional, quer diversos banqueiros centrais dos países desenvolvidos, têm insistido que a política monetária está sobrecarregada (sobretudo no Japão e na Zona Euro) e que a política orçamental tem de passar a ser central na consolidação da retoma económica.

Contudo, um consenso mundial ainda não foi obtido. A zona euro tem resistido a tal mudança, em particular as economias com excedentes, como a Alemanha e a Holanda. O Japão ainda só colocou em marcha uma pequena parte do seu programa de estímulos e no Reino Unido aguarda-se que o novo governo de Theresa May clarifique a sua promessa de romper com a política de austeridade orçamental do seu antecessor e de potenciar uma “sinergia” com a politica monetária do Banco de Inglaterra, que, tudo indica, continuará a apostar nos estímulos face à incógnita sobre as repercussões de médio prazo do Brexit.

O que é certo é que os mercados de futuros continuam a não acreditar que a Fed dará o passo de subir as taxas de juro ainda este ano. A probabilidade de haver uma subida na reunião de dezembro desceu de 45,1% a 16 de agosto para 40,6% esta quinta-feira, segundo o ‘Fed Watch’ do CME Group, que analisa aquele mercado de futuros. Probabilidades perto de 42% só se registam para as reuniões de março em diante do próximo ano. As reuniões de setembro e novembro recolhem probabilidades de 18% e 23,3%, respetivamente. Mas alguns analistas avisam que a Fed poderá sempre surpreender.

O pescador que trouxe a fama a Jackson Hole

PAUL VOLKER. Simpósio de Jackson Hole assumiu projeção quando o ex-presidente da Fed decidiu participar em 1982 impelido por ser um pescador inveterado de peixes voadores

PAUL VOLKER. Simpósio de Jackson Hole assumiu projeção quando o ex-presidente da Fed decidiu participar em 1982 impelido por ser um pescador inveterado de peixes voadores

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No roteiro anual dos eventos que podem marcar a trajetória dos mercados financeiros, o simpósio de Jackson Hole em agosto tornou-se uma referência. Desde 1982 que o Banco da Reserva Federal de Kansas City, um dos 12 bancos regionais que formam a rede da Fed, do banco central norte-americano, organiza numa estância turística de montanha no Estado de Wyoming, no meio dos Estados Unidos, um encontro de reflexão informal com assistência muito restrita. Reúne-se durante três dias a nata dos banqueiros centrais de todo o mundo e académicos de nomeada e acabou por ser considerado uma espécie de “Davos” de verão dos decisores de política monetária.

O simpósio assumiu projeção nos EUA desde que Paul Volcker, o então presidente da Fed, decidiu participar em 1982 impelido por ser um pescador inveterado de peixes voadores, uma das atrações do local. Nos seus momentos mais marcantes, o simpósio marcou a política monetária dos EUA.

Em 2002, o então presidente Alan Greenspan defendeu-se do desastre do estoiro da bolha das dotcom em março de 2000, alegando que ter impedido a ‘bolha’ dos anos 1990 estava além da capacidade da política monetária. Ficou então célebre a sua frase “a noção de que um aperto gradual bem cronometrado [da política monetária] poderia ter sido calibrado para impedir a bolha dos anos 1990 é quase certamente uma ilusão”. Moral da história: impedir bolhas financeiras não é uma especialidade dos bancos centrais.

Oito anos mais tarde, já depois do rebentar da grande crise financeira, Ben Bernanke, o então presidente da Fed, anunciou ao mundo o que até ali poderia ser considerado uma heresia pelas correntes mais tradicionalistas da política monetária, o reforço do programa de quantitative easing (QE) pelo banco central norte-americano. Em vez de ter sido uma resposta temporária à crise financeira de 2008, Bernanke, o especialista da Grande Depressão dos anos 1930, anunciava que a aquisição massiva de divida pública ia continuar e que manteria as taxas de juro perto de 0% por um período longo de tempo. A moda dos QE nas economias desenvolvidas só chegaria à zona euro bastante mais tarde. O Banco Central Europeu lançaria o seu próprio QE em março de 2015, por iniciativa de Mario Draghi.