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Mantém-se pressão sobre os juros da dívida portuguesa

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Juros das Obrigações do Tesouro a 10 anos continuam acima de 3%. Conservam trajetória de subida ao contrário de restantes periféricos do euro. Trajetória da dívida pública e crescimento medíocre pesam no 'sentimento' dos investidores

Jorge Nascimento Rodrigues

Depois de uma descida durante a manhã desta segunda-feira para níveis abaixo de 3%, as yields das Obrigações do Tesouro (OT) a 10 anos vão fechar no mercado secundário da dívida soberana acima daquele limiar. Pelas 16h (hora de Portugal), as yields subiram para 3,05%, ligeiramente acima do fecho de sexta-feira passada.

O prémio de risco da dívida portuguesa continua a subir acima de 300 pontos base. Pelas 16h, regista 313,2 pontos base, o equivalente a 3,13 pontos percentuais acima do custo de financiamento da dívida alemã. Subiu seis pontos base em relação ao fecho de sexta-feira.

Esta trajetória ascendente nas yields e no prémio de risco português contrasta com a tendência descendente nos restantes periféricos da zona euro, incluindo a Grécia.

Os analistas referiam, na semana passada, que a dívida portuguesa estava sob pressão em virtude do “nervosismo dos ratings”, com as yields das OT a flutuarem ao sabor das declarações à Reuters e à Bloomberg do economista-chefe da agência canadiana DBRS que tem a faca e o queijo na mão em relação à notação da dívida portuguesa. Se a DBRS a cortar para terreno especulativo na revisão que vai fazer a 21 de outubro empurra as OT para fora do programa de compra de títulos pelo Banco Central Europeu (BCE) e retira ao sector bancário português a possibilidade de usar a dívida nacional como colateral no recurso às linhas de financiamento do BCE.

Havia, ainda, expetativa negativa, na semana passada, em relação à análise de outra agência de notação, a Fitch, que divulgou a sua posição na sexta-feira já depois dos mercados financeiros terem fechado na Europa. A agência manteve a classificação de ‘lixo financeiro’ para a dívida portuguesa, mas não agravou a notação, e conservou a perspetiva em estável.

A semana passada terminou com um agravamento da rentabilidade nas últimas 52 semanas da dívida obrigacionista portuguesa, que passou de 1,4% a 15 de agosto, marcando um pico do ano, para 0,03% dois dias depois e entrando em terreno negativo na sexta-feira passada, registando -0,48%, segundo dados do índice da Bloomberg. É o único periférico com um retorno anual negativo.

Efeito de acalmia passageiro

Esta segunda-feira, o efeito de acalmia, provocado pela mudança de 'interpretação' da posição da DBRS (que, na segunda declaração, afirmou estar "confortável" com a notação atual atribuída à dívida portuguesa) e pelo facto da Fitch não ter agravado o rating, foi passageiro.

O ‘sentimento’ dos investidores financeiros está a ser marcado por uma perceção negativa da evolução da economia portuguesa. “A tendência de alta decorre da sensação de que Portugal não está a ser capaz de manter uma trajetória descendente no rácio da dívida em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) e que há riscos no horizonte derivados desse contexto essencial”, refere-nos Filipe Garcia, economista-chefe e presidente da consultora IMF, Informação de Mercados Financeiros.

Um padrão parece estar a consolidar-se sobre a economia portuguesa: fraco crescimento, que a coloca no grupo da cauda da zona euro, e subida da dívida pública para máximos no primeiro semestre.

A economia portuguesa perdeu velocidade no primeiro semestre do ano, com a taxa de crescimento em volume do PIB a descer de 0,9% no primeiro trimestre para 0,8% no segundo, a taxa trimestral mais baixa desde o final de 2014. Além da desaceleração há uma alteração de conteúdo. A procura interna abrandou significativamente no segundo trimestre e não foi compensada pela melhoria na procura externa líquida (ou seja, no saldo entre a exportação e a importação). O calcanhar de Aquiles do crescimento acaba por ser a procura interna que parecia ser o alvo da estratégia de crescimento do governo de António Costa e do ministro das Finanças Mário Centeno.

O início do segundo semestre parece confirmar o padrão. Segundo os indicadores coincidentes mensais calculados pelo Banco de Portugal (BdP) para julho, divulgados na sexta-feira passada, a atividade económica melhorou, iniciando uma trajetória ascendente, mas o consumo privado continua em trajetória descendente iniciada em abril.

Acresce que a trajetória da dívida pública é ascendente em 2016. Segundo as estimativas divulgadas esta segunda-feira pelo BdP para o final do primeiro semestre, a dívida pública, na ótica de Maastricht, ascendeu a 131,6% do PIB, um máximo, ultrapassando o nível de 130,2% registado em dezembro de 2014. Mesmo se avaliada em termos líquidos, sem os depósitos que servem de ‘almofada’ financeira ao Estado, a dívida pública subiu para 121,7% do PIB, depois de ter registado um máximo de 121,6% no final de dezembro de 2015.

A subida do peso da dívida pública em relação ao PIB contrasta com a descida da dívida do sector privado não financeiro (empresas e particulares) que caiu de 238,5% em dezembro de 2014 para 222,1% no final do primeiro semestre de 2016.

Estas estimativas do BdP publicadas no Boletim Estatístico são feitas com base em extrapolações, pois o Instituto Nacional de Estatística só divulgará o valor do PIB no segundo trimestre no dia 31 de agosto nas Contas Trimestrais Nacionais.

  • A agência de notação financeira sublinha que fatores como as perspetivas de crescimento económico mais fraco ou se o Governo falhar na redução do rácio da dívida em relação ao PIB e em relação aos desequilíbrios externos podem ter impactos negativos sobre a classificação de crédito

  • De acordo com o Banco de Portugal, nos primeiros seis meses do ano, a dívida das administrações públicas, na ótica de Maastricht (a que conta para Bruxelas), aumentou para os 240.019 milhões de euros, mais 2.402 milhões de euros do que em março deste ano

  • Os juros das Obrigações do Tesouro a 10 anos atingiram ao final da manhã 3,002% no mercado secundário. Os analistas falam de "nervosismo com os ratings" de Portugal