Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Já nem o consumo tira Portugal da cauda da zona euro

  • 333

Paulo Vaz Henriques

A procura interna foi o calcanhar de Aquiles da economia no segundo trimestre. Melhoria na contribuição da procura externa não chegou para compensar

A economia portuguesa está a perder gás e leva já cinco trimestres consecutivos de desaceleração. No segundo trimestre deste ano, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,8%, o valor mais baixo desde o final de 2014, o ano da saída ‘limpa’ do programa da troika. Este ponto mais baixo culmina uma trajetória de desaceleração da economia portuguesa que se verifica desde o segundo trimestre do ano passado (ver gráfico) e empurra Portugal para o ‘clube’ dos membros da zona euro com crescimentos medíocres, inferiores a 1%, ou negativos. Um ‘clube’, no segundo trimestre de 2016, em que se incluem a Grécia (em recessão há quatro trimestres), apesar do terceiro resgate, Portugal (0,8%), Itália (0,7%), Letónia (0,7%) e Estónia (0,5%), uma orla de periféricos. Níveis de crescimento que são metade ou menos da média da zona euro, que se situou em 1,6% no segundo trimestre, com ‘campeões’ como a Espanha e a Eslováquia com crescimentos acima de 3%.
Só que, além da redução de velocidade, há também uma alteração de conteúdo.

Uma das novidades, negativa neste caso, é que a procura interna — onde se inclui o consumo público e privado e o investimento — abrandou consideravelmente. O investimento já estava negativo e afundou-se mais ainda. O consumo caiu para pouco mais de metade. Assim, o contributo da procura interna para o crescimento do PIB caiu de 1,9 pontos percentuais no trimestre que findou em março para 0,5 pontos percentuais no trimestre que terminou em junho. Essa quebra brutal não foi compensada pela melhoria na contribuição da procura externa líquida — ou seja, o saldo entre exportações e importações —, cujo contributo para o crescimento homólogo saltou de terreno negativo (-1%) no primeiro trimestre para 0,2% no segundo trimestre. O calcanhar de Aquiles do crescimento nestes três meses acabou por ser aquilo que parecia ser o alvo da estratégia do Governo.

E a política orçamental não ajuda?

Por mais paradoxal que pareça, num contexto em que a política económica deveria dinamizar o consumo privado e em que as operações na rede multibanco aumentaram quase meio ponto percentual no segundo trimestre, o ritmo de crescimento do consumo abrandou. Não existem ainda dados detalhados do INE, que só são publicados a 31 de agosto, mas os indicadores disponíveis apontam nesse sentido. O indicador quantitativo do consumo trimestral do INE aponta para uma queda de 2,3% no primeiro trimestre para 1,7% no segundo trimestre nos bens de consumo corrente. Ao mesmo tempo, apesar da aceleração do crédito ao consumo (de 1,7% para 3,7%), a compra de bens duradouros desacelerou de 14,5% para 10,2%. O máximo dos últimos 15 meses ocorreu no segundo trimestre de 2015, com uma variação de 18,6%. A aquisição de automóveis destaca-se no consumo de bens duradouros: depois de um pico nos últimos quatro trimestres, com um crescimento homólogo de 26,3% no primeiro trimestre deste ano, desacelerou para 10,6% no segundo trimestre.

Do lado do comércio externo, Angola é a grande dor de cabeça. Embora as exportações para a União Europeia tenham crescido 3,5% no primeiro semestre, essa dinâmica foi abafada pela quebra de 16% para os países extracomunitários, em particular para a economia angolana, o nono destino das nossas exportações (uma quebra de mais de 40%). Depois, também com quebras, surgem o Brasil (35%), o Canadá (28%) e, pela sua importância, como sexto destino das exportações, os EUA (quebra de quase 10%). Em virtude do recuo significativo nas exportações extracomunitárias, o valor da exportação emagreceu 1,8% em termos homólogos nos primeiros seis meses do ano.

A taxa de crescimento em cadeia no segundo trimestre, em relação ao anterior, revela que a economia portuguesa não descola de uma taxa trimestral de 0,2%, que se mantém há três trimestres. Com quatro trimestres a este ritmo, o PIB português chegará ao final do ano com um crescimento inferior a 1%. Mais concretamente, com um valor a rondar 0,8%, um ritmo que, ainda assim, pode não comprometer a nova meta orçamental imposta por Bruxelas (ver texto em baixo).