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Obras recentes que já fazem parte do roteiro arquitetónico do país

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Um edifício impactante pode colocar uma localidade no ‘mapa’. O Expresso deixa-lhe um roteiro por alguns dos novos ícones da arquitetura

Ana Jorge

DR

Pode um edifício apaziguar-nos? O do bar Cella, no lugar da Barca, na ilha do Pico, nos Açores, parece ter esse efeito. Replica, através da calidez da madeira de criptoméria, que compõe um dos seus corpos, e da organicidade das suas formas ondeantes, as sensações habitualmente proporcionadas pela Natureza. “Nunca tinha estado nos Açores. A minha chegada ao Pico foi uma agradável surpresa, o sítio é um calmante natural que, ao mesmo tempo, desperta todos os nossos sentidos”, recorda Fernando Coelho, arquiteto do ateliê FCC Arquitetura, sediado em Felgueiras, que assina o projeto (com interiores a cargo de Paulo Lobo). O Cella está dividido em dois: um restaurante numa casa de basalto, antes abandonada, e uma estrutura em madeira onde está o bar propriamente dito e onde o FCC interveio. O conceito proposto pelos sócios do bar, que contactaram o FCC depois de terem lido uma reportagem acerca de outra obra do ateliê no Expresso, era o de ali construir algo moderno, inspirado no vinho e no mar. O meio envolvente está, assim, implícito. “O contorno da ilha, as rochas, as baleias, as referências aos barris de vinho”, lê-se na memória descritiva do projeto.

A obra, na ordem dos €350 mil, fez sucesso a nível internacional, tendo conquistado o prémio de Edifício do Ano pelo Archdaily, um dos mais visitados sites de arquitetura do mundo. Ao Cella e à sua divulgação nas mais variadas plataformas e meios de comunicação social deve-se, em grande parte, a projeção da ilha do Pico para o mundo. Fernando Coelho declina a ideia de algo semelhante a um efeito Bilbau, onde o Guggenheim desenhado por Frank Gehry é um dos grandes atrativos. “A diferença de escala entre os dois edifícios e a diferença, a todos os níveis, entre o Pico e Bilbau não permite essa comparação.

Independentemente disso, tenho a noção de que o Cella poderá ser um elemento dinamizador do turismo na ilha”. Para o arquiteto, o mais que ficou deste trabalho foram as “fortes” relações de amizade. “As pessoas da ilha são fascinantes”, salienta.

Centro de Artes, do ateliê Menos é Mais Arquitectos

Centro de Artes, do ateliê Menos é Mais Arquitectos

Já no Continente, a norte, uma das obras mais complexas recentemente inauguradas é a do Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, assinado por Luís Pedro Silva. Implicou a construção de uma estação para 2500 passageiros, de um cais de acostagem, de um porto de recreio para 170 embarcações e das instalações do Parque de Ciência e Tecnologias do Mar da Universidade do Porto, além de várias unidades de investigação, da biologia à robótica, de salas para eventos e um restaurante. Este foi o edifício mais visitado na última Open House Porto, evento organizado pela Trienal de Arquitetura de Lisboa com a Casa da Arquitetura, durante o qual se dá a conhecer ao grande público espaços de valor arquitetónico e cultural, alguns habitualmente interditos. Por lá passaram mais de 14 mil pessoas em dois dias. O edifício foi distinguido com o prémio internacional de arquitetura e design AZAwards, tutelado pela revista canadiana “Azure”, sendo um dos finalistas ao título de World Building of the Year 2016, cujo resultado é conhecido em novembro.

Obras de Siza e Souto

A 40 kms de Matosinhos, em Santo Tirso, dois Pritzker’s (prémio maior da arquitetura) para ver no perímetro do Mosteiro de São Bento: Souto de Moura na requalificação do Museu Municipal Abade Pedrosa e Siza Vieira na sede do Museu Internacional de Escultura Contemporânea (MIEC). No limite, este projeto simboliza a ‘união na diferença’ que tem marcado o percurso destes arquitetos. As duas infraestruturas têm entrada comum, derivando depois para a personalidade própria que caracteriza a arqueologia, no caso do museu municipal, e a escultura contemporânea, no caso do projeto do MIEC para o qual Siza criou um centro de interpretação das 54 esculturas espalhadas por seis jardins e praças. Mas é no Alto-Tâmega, em Chaves, que fica o novo ícone de Siza, o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso. Implantado em terreno sujeito a cheias, nas margens do Tâmega, assenta sobre uma série de lâminas de betão perpendiculares ao rio. “Não sei se é o melhor edifício do Siza, mas é um dos que mais gosto”, comentou Souto de Moura na inauguração, o mês passado. Só nas duas primeiras semanas, o museu acolheu mais de cinco mil visitantes.

Museu do Vinho, em São João da Pesqueira

Museu do Vinho, em São João da Pesqueira

Em pleno Douro vinhateiro, é em São João da Pesqueira que se assoma o Museu do Vinho. Agraciado com a menção honrosa da Associação Portuguesa de Museologia (prémio ganho pelo novo Centro de Ciência do Café, integrado no Museu do Café de Campo Maior) tem a curiosidade de ter sido o projeto de fim de curso da dupla Anabela Coelho e João Abreu. “Quando comecei o projeto, fi-lo com toda a ingenuidade de uma finalista de arquitetura. As preocupações andavam à volta do conceito, da arquitetura dos espaços, da escala, dos materiais, das sensações”, revive a arquiteta. O resultado foi um protótipo “talvez ambicioso demais”, admite. “Na faculdade não se discutem orçamentos, prazos de execução, capacidade de utilização de mão de obra local”, justifica. Quando surgiu a possibilidade da obra ser construída, a arquiteta “nem queria acreditar”. Em muito pouco tempo, juntamente com o colega de curso João Abreu criou o Atelier 405. O escritório ficava na cave de um amigo. “Foi o nosso estágio. Temos a agradecer ao professor Fernando Maia Pinto, que foi um mestre”, sublinha.

Situado entre duas vias, o museu implicou um extenso programa. No centro do terreno, de 2350m2, havia um armazém e um lagar, implantados em dois níveis, que, desde logo, conquistaram os projetistas por constituírem “um testemunho da forma de vinificação tradicional feita por gravidade, muito característica do Douro”. Ambos foram reabilitados e operacionalizados para as funções originais. O Museu do Vinho ocupa seis pisos, os três primeiros com exposições. Há percursos em túnel, onde reina a penumbra, e clareiras iluminadas pela cobertura. É precisamente o terceiro piso que faz a ligação ao edifício dos lagares. A cobertura é composta por linhas côncavas de vidro e vigas de zinco.

Museu Nadir Afonso, com assinatura de Siza Vieira

Museu Nadir Afonso, com assinatura de Siza Vieira

A resolução de um acentuado desnível entre ruas foi também um dos principais desafios colocados ao ateliê ARX no projeto do Mercado de Abrantes. Os arquitetos tiveram de encaixar tudo o que se exige a um mercado, e ainda uma loja de turismo, num edifício organizado em altura, e não em comprimento como é habitual neste tipo de valência. Ocupa cinco pisos numa zona de transição para o centro histórico da cidade, onde outrora funcionaram as oficinas da Rodoviária do Tejo. Este é um autêntico edifício-rua. Através dele se faz a ligação pedonal, através de uma escada, entre o Tribunal e a Câmara Municipal, facilitando o caminho ascendente em direção ao Convento de São Domingos, implantado no pico mais alto da cidade, cujo edifício vai ser reabilitado e transformado em Museu Ibérico de Arqueologia e Arte.

Dado que uma boa parte dos pisos está semienterrada, foi preciso criar formas de conduzir a luz pelo interior. A luz é derramada pelas fachadas laterais, que funcionam como grandes lanternins. As fachadas principal e tardoz são minimalistas. A que está virada para o largo do tribunal, é quase cega; a outra tem um único rasgo, que é porta de entrada. “Em termos formais, há uma ideia de movimento e fluidez muito presente no interior, que facilita a vivência do que é um mercado. A escada (escultórica, no interior) é lugar de conversa, de encontro”, destaca José Mateus. O edifício acrescenta uma definitiva marca de contemporaneidade à cidade ribatejana. Não há azulejos, não há adornos, os únicos materiais são o betão à vista, pintado a branco, e o inox das bancadas.

Quarteirão EDP

Edifício EDP, do ateliê Aires Mateus

Edifício EDP, do ateliê Aires Mateus

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Em Lisboa, não passa despercebido o que poderá designar-se de ‘quarteirão EDP’, o eixo constituído pela antiga Central Tejo e o MAAT-Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Belém, e a nova sede da empresa, perto do Cais do Sodré. O circuito museológico da antiga Central Tejo não só foi requalificado com nova sinalética e novas galerias, como passou a estar enquadrado na lógica expositiva do MAAT. O MAAT propriamente dito, com arquitetura futurista da britânica Amanda Levete, só começa a funcionar em pleno, em março de 2017. Porém, a 5 de outubro próximo já é possível ver a primeira exposição e ter uma perceção do edifício por dentro.

No âmbito empresarial, a sede da EDP, concebida no ateliê Aires Mateus, já se impôs como referência no âmbito da arquitetura e engenharia. O edifício é constituído por duas torres, cada uma das quais com oito pisos acima do solo e seis no subsolo. A praça central, que une essas duas torres, é sombreada por vigas metálicas, revestidas com placas de betão branco, reforçadas com fibras de vidro. Nas paredes moldadas, com espessuras de 0,80 cm e 1 m (dimensões pouco frequentes em obras realizadas em Portugal) foram aplicados cerca de 8300 m3 de betão e 900 toneladas de aço. Ali trabalham mais de 700 pessoas, com todas as implicações na economia dos bairros, alguns ainda tradicionais, que a rodeiam. A obra, numa construção total de 46 mil m2, demorou cerca de três anos a construir, e pôs ponto final a um parque de estacionamento improvisado.