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Mulher não entra

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ilustração paulo buchinho

A maioria das grandes cotadas não tem mulheres na comissão executiva. Nova lei vai impor mudanças. E promete igualdade salarial

Eles mandam. Nas empresas, na política, nos media. O cenário muda mas os atores principais são sempre do mesmo género. São poucas as mulheres que alcançam lugares de destaque e de poder. As grandes cotadas não são exceção. Apesar de pregarem as suas ‘boas práticas’ e dos extensos relatórios de responsabilidade social, na prática, falham num princípio básico: igualdade do género. “Já vi conselhos de administração escolherem mulheres para preencher lugares só para dizerem que têm diversidade”, diz Maria Glória Ribeiro, uma caça-talentos de topo da Amrop.

Contam-se pelos dedos de uma mão o número de grandes empresas cotadas com gestoras na sua comissão executiva. Existe apenas uma presidente-executiva, Cláudia Azevedo, da Sonae Capital. É nesta empresa que existe também a única administradora-financeira de todo o índice PSI-20, Ivone Pinho Teixeira. Um caso raro. A maior parte das cotadas está a ficar para trás em termos de diversidade, presas a um modelo ainda patriarcal. “A diversidade no topo das empresas, modelos de liderança onde a paridade seja uma realidade, onde a retenção de talento seja uma prioridade, é o caminho que as empresas vão ter de seguir, correndo o risco de ficar presas a modelos que não dão resposta em tempo útil aos desafios de hoje”, afirma Susana Nereu, ex-administradora-financeira do BBVA em Portugal e atual presidente de dois conselhos fiscais.

A barreira à entrada de mulheres para lugares-chave de organizações nos mais variados sectores é grande. O problema não é de agora nem só português. Mas em pleno século XXI persiste. Das 18 cotadas do principal índice da Bolsa portuguesa, 11 têm comissões executivas compostas 100% por homens. Em 79 membros de comissões executivas das empresas do PSI-20, apenas sete são mulheres. Menos de 10% do total. Olhando para os conselhos de administração, o cenário não é muito diferente. Em 239 administradores, 32 são mulheres, cerca de 15%. E os salários também não são iguais para os dois géneros. As gestoras ganham menos do que os seus pares homens. E não é por serem menos competentes ou inferiores em termos profissionais. O problema é cultural e espelha o que se passa na sociedade portuguesa, em que as mulheres ocupam poucos cargos de decisão e têm salários mais baixos do que os homens.

“Embora assistamos gradualmente à melhoria de alguns indicadores no que respeita à discriminação de género, outros não são confortáveis como os que respeitam à ascensão de mulheres a cargos de decisão e os que apontam para a desigualdade salarial que teima em persistir”, afirma Joana Gíria, presidente da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego. E lembra que, em Portugal, as mulheres ganham aproximadamente 17,9% menos que os homens, o que corresponde a cerca de dois meses de trabalho não remunerado por ano.

Mudar pela lei

Muitos gestores e acionistas de empresas do PSI-20 são do tempo em que, em Portugal, uma mulher casada precisava da autorização do marido para viajar e até mesmo para trabalhar fora de casa. As mulheres hoje votam livremente e têm os mesmos direitos que os homens no papel. Mas não na prática e os números provam-no.

Por isso, o Governo decidiu resolver o problema com a aprovação de uma nova lei. “A paridade nos cargos de decisão está prevista no Programa do Governo e o diploma sobre esta matéria será entregue, na Assembleia da República, no início da sessão legislativa”, garante a porta-voz do ministro-adjunto, Eduardo Cabrita. A proposta apresentada na concertação social impõe quotas para as mulheres em lugares de decisão na administração pública, sector empresarial do Estado e nas empresas cotadas. Nas entidades da administração direta e indireta do Estado, a partir de 1 de janeiro de 2017, 33,3% dos gestores terão de ser mulheres, subindo para 40% a partir de 1 de janeiro de 2019. Nos órgãos de administração e de fiscalização das empresas públicas do sector empresarial do Estado a partir de 1 de janeiro de 2018 um terço dos lugares de gestão terá de ser ocupado por mulheres, tal como no caso das entidades do sector empresarial local.

As empresas cotadas têm de ter 20% da comissão executiva e do conselho de administração composto por membros do sexo feminino, uma quota que sobe para um terço a partir de 1 de janeiro de 2020. “As quotas destinam-se a lugares executivos e não-executivos, o que inclui conselhos de administração e comissões executivas, pretendendo-se mudanças substantivas e não meramente cosméticas”, explica a mesma porta-voz. “O combate às disparidades salariais é também uma das cinco áreas de intervenção previstas na Agenda para a Igualdade no Mercado de Trabalho e nas Empresas, apresentada na Concertação Social”. As restantes quatro áreas estratégicas são a segregação ocupacional (nas profissões); a parentalidade; a conciliação da vida pessoal, familiar e profissional; e a paridade nos cargos de decisão.

No entanto, o Governo está a dar um mau exemplo. O facto de a estatal Caixa Geral de Depósitos vir a ter apenas uma mulher entre os 19 futuros administradores está a causar polémica. O Ministério das Finanças recusou responder a questões sobre o tema. Também no Novo Banco se aguarda para saber se vai estar alguma mulher num lugar de topo.