Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Testes de esforço vão revelar a “ligação que falta” no ajustamento do sector bancário

  • 333

A Autoridade Bancária Europeia divulgará esta noite os resultados dos testes a meia centena dos principais bancos europeus. Nenhum da Grécia e Portugal está incluído. O foco mudou para o crédito malparado que totaliza €1 bilião, disse Andrea Enria, presidente do organismo

Jorge Nascimento Rodrigues

A Autoridade Bancária Europeia (ABE) vai divulgar pelas 21h (hora de Portugal) desta sexta-feira, depois do fecho do mercado bolsista de Nova Iorque, os resultados de testes de esforço a 51 bancos europeus, menos de metade dos 123 que foram sujeitos a testes na operação anterior. Não estão incluídos bancos cipriotas, gregos e portugueses.

Com a atual, já foram realizadas cinco rondas de testes de esforço; a primeira em 2009, seguida de novos testes em 2010, 2011, 2014 e 2016. Nos 51 bancos, 37 estão sob a supervisão direta do Banco Central Europeu (BCE), e representam 70% dos ativos bancários na zona euro.

No entanto, em paralelo, o BCE desenvolveu testes de esforço junto de mais 56 bancos da zona euro usando a mesma metodologia. Os resultados dessa segunda operação não serão publicados pelo BCE, mas os bancos testados poderão divulgar os resultados esta sexta-feira.

Os bancos vão ser sujeitos a dois cenários na União Europeia, um de base, que segue as previsões da Comissão Europeia, e outro, adverso, com uma contração em 2016 e 2017 e uma retoma fraca no ano seguinte. Segundo, Sergio Nicoletti, diretor-geral de política macroprudencial e estabilidade financeira do BCE, a metodologia usada agora em 2016 "é mais rigorosa do que em testes anteriores e o cenário adverso pressupõe uma desaceleração económica severa". No entanto, estes testes não incluíram o impacto do Brexit nem a sujeição do sector a um período prolongado de taxas negativas de remuneração dos depósitos bancários (nos casos do Banco Central Europeu, e dos bancos centrais sueco e suíço).

A ABE mudou o foco da sua atenção para a situação do crédito malparado que totaliza 1 bilião de euros, sublinhou na quinta-feira a presidente do organismo, Andrea Enria, em declarações à cadeia norte-americana CNBC.

Andrea Enria sublinhou, ainda, que o “crédito malparado é um elemento importante, direi mesmo a ligação que falta, no processo de ajustamento da banca europeia”.

Sublinhe-se que a gravidade desta situação foi referida recentemente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Na atualização do "World Economic Outlook", na semana passada, o Fundo chamava a atenção para problemas não resolvidos no sistema bancário europeu, “e em particular nos bancos italianos e portugueses”.

Em abril, no “Global Financial Stability Report”, o FMI referia: "Os sistemas bancários mais atingidos dentro na zona euro, em fevereiro, foram os da Grécia, Itália e, em menor escala, Portugal, juntamente com alguns grandes bancos alemães, refletindo alguns ou todos os seguintes fatores: problemas estruturais de sobrecapacidade, altos níveis de crédito malparado e modelos de negócios mal adaptados".

Sobre a situação desde o rebentar da crise financeira, no relatório do Organismo de Avaliação Independente (IEO, Independent Evaluation Office) publicado na quinta-feira, os avaliadores são muito críticos da passividade do FMI: “O FMI manteve-se otimista sobre a solidez do sistema bancário europeu e a respeito da qualidade da supervisão bancária em países da área do euro até depois do início da crise financeira mundial em meados de 2007. Este lapso foi em grande parte devido à prontidão do FMI em tomar à letra as garantias das autoridades da área do euro e a nível nacional”.

Recorde-se, ainda, que, nos testes de esforço levados a cabo pela Reserva Federal norte-americana, e divulgados em junho, o Deutsche Bank Trust Corporation, filial do Deutsche Bank AG alemão, e o Santander Holdings USA, subsidiária do Banco Santander SA espanhol, foram chumbados por revelarem “fraquezas amplas e substanciais”. O Santander levou o chumbo pela terceira vez consecutiva e o Deutsche pela segunda vez consecutiva.

Foco no crédito malparado

Nesta quinta operação de testes europeus na sequência da crise de 2008, a ABE concentrou-se, apenas, nos principais bancos europeus, e a atenção dos analistas vai virar-se hoje para a avaliação da situação dos sectores bancários italiano, que tem concentrado a maior atenção mediática, alemão e francês, que registam mais de 60% do total de crédito malparado na Europa.

A maior fatia é detida pela banca italiana com 355 mil milhões de euros, seguida da francesa com 164 mil milhões, da britânica com 113 mil milhões, e da alemã e grega com 97 mil milhões cada uma, segundo dados do Banco Central Europeu (BCE) e da Bloomberg apresentados pelo analista norte-americano Marc Chandler numa nota a investidores.

No caso italiano, os três principais bancos, considerados “sistemicamente importantes” pelo BCE, Unicredit, Intesa Sanpaolo e Banca Monte dei Paschi di Siena, dominam mais de 50% do malparado, sublinha Chandler. Segundo muitos analistas, os resultados dos testes de esforço poderão ser importantes para a solução a encontrar, nas próximas semanas, para a situação crítica da banca italiana, no quadro de uma flexibilização da diretiva de resolução e reestruturação já em vigor. Na mais recente conferência de imprensa do presidente do BCE, Mario Draghi sublinhou que, ou se resolve o problema, ou há o risco de liquidações com o impacto financeiro, social e político que se antevê.

Nenhum banco da Grécia e de Portugal foi incluído nos testes da ABE, apesar da banca helénica registar 97 mil milhões de euros em crédito malparado, tanto quanto a Alemanha, e de Portugal ter 40 mil milhões de euros naquela situação.

As situações de aprovisionamento para perdas são, contudo, muito distintas. Segundo dados de Marc Chandler, o sector bancário francês regista o mais alto nível de aprovisionamento de mais de 64%, seguido do grego, com 50%, e do italiano com 48%. No caso português, o nível seria de 45% e no caso alemão de 42%. O sector bancário britânico apresenta o nível de aprovisionamento mais baixo, de apenas 41%.