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Banco do Japão aposta em “sinergia” com o governo, mas desaponta mercados

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Haruhiko Kuroda, governador do Banco do Japão

KAZUHIRO NOGI/GETTY

Os banqueiros centrais nipónicos não mexeram nas taxas de juro nem no montante anual do programa de QE. Mercados financeiros consideraram modestas as medidas tomadas, apenas de aumento da compra de fundos de investimento

Jorge Nascimento Rodrigues

O Banco do Japão (BoJ) anunciou esta sexta-feira não ter mexido no quadro de taxas de juro nem no montante anual de 80 biliões de ienes (cerca de 700 mil milhões de euros) do seu programa de alívio quantitativo (quantitative easing). Não decidiu nenhuma ampliação do seu programa de aquisição de obrigações do Tesouro japonês. Mas sublinhou a “sinergia” entre a política monetária atual e a política orçamental expansionista do governo do primeiro-ministro Shinzo Abe.

O BoJ reuniu quinta e sexta-feira o seu comité de política monetária e decidiu proceder na próxima reunião de 20 e 21 de setembro a uma avaliação da eficácia da sua decisão de baixar para terreno negativo as taxas de remuneração dos depósitos dos bancos e do impacto do seu programa de QE, face às dúvidas manifestadas por alguns banqueiros centrais.

Nas previsões económicas dos banqueiros centrais nipónicos, divulgadas hoje, a previsão média é de uma inflação de apenas 0,1% este ano, um corte em relação à projeção de 0,5% avançada em abril passado. As projeções só se aproximam da meta de 2% no final de 2018. Hoje foi divulgada a inflação homóloga em junho que desceu para -0,5%, pior do que as previsões que apontavam para -0,3% pu -0,4%. A inflação homóloga encontra-se em terreno negativo desde março com uma dinâmica deflacionária: -0,1% em março; -0,3% em abril; -0,4% em maio; e, agora, -0,5%.

Os banqueiros centrais nipónicos decidiram aumentar apenas o volume de compras de fundos de investimento para quase o dobro e duplicaram o programa de fornecimento de dólares às empresas exportadoras, o que envolveu cerca de 40 mil milhões de euros adicionais. O que foi considerado um pacote “modesto” pelos analistas financeiros e provocou algum “desapontamento” na bolsa de Tóquio, que, no entanto, fechou em terreno positivo.

O governador Haruhiko Kuroda realizará daqui a minutos uma conferência de imprensa em Tóquio.

“Sinergia” com o governo

Apesar da recusa em avançar para medidas mais agressivas esperadas pelos analistas financeiros, o BoJ acentuou a convergência de atuação com o governo de Abe, que anunciou ir aprovar na próxima semana, a 3 de agosto, um pacote de estímulos orçamentais num montante de 28,1 biliões de ienes, cerca de 245 mil milhões de euros. O pacote governamental destina-se em 39% a fundos para apoiar as PME e em 38% para investimento em infraestruturas, nomeadamente portuárias e nos comboios de alta velocidade.

O reconhecimento da convergência de atuação é expresso no comunicado do BoJ: “O Banco acha que as medidas de política monetária tomadas [esta sexta-feira] e as iniciativas do governo produzirão efeitos de sinergia na economia”.

Incerteza e Brexit provocam mexida modesta

A justificação para as mexidas, apesar de modestas, decididas por esta reunião do BoJ é imputada ao Brexit (opção pela saída do Reino Unido da União Europeia no referendo de 23 de junho) e pela incerteza gerada pelo abrandamento nas economias emergentes e pela volatilidade nos mercados financeiros.

O BoJ decidiu ampliar as compras de fundos de investimento designados por ETF (Exchange Traded Funds) de 3,3 biliões para 6 biliões de ienes (cerca de 52 mil milhões de euros), mas a decisão teve dois votos contra. Duplicou o programa de empréstimos de dólares às empresas exportadoras através da banca de 12 para 24 mil milhões de dólares.

Os analistas financeiros esperavam ser surpreendidos positivamente por uma mexida na taxa negativa de remuneração dos depósitos dos bancos nos cofres do BoJ, cortando-a dos atuais -0,1% para -0,15% ou -0,2%, mesmo assim abaixo da taxa do Banco Central Europeu (-0,4%). Mas isso não aconteceu. Alguns banqueiros centrais expressaram dúvidas sobre a eficácia da política de juros negativos.

O BoJ também não ampliou o montante de aquisição de obrigações do Tesouro nipónico, um movimento que era esperado pelos analistas como sinal de que o banco central poderia preparar-se para adquirir eventuais novas emissões governamentais de muito longo prazo com vista a suportar medidas ainda mais agressivas de expansão orçamental.

Depois de volatilidade ao longo do dia na bolsa de Tóquio, os índices Nikkei 225 e Topix fecharam com ganhos de 0,56% e 1,2% respetivamente, num quadro de encerramento “misto” das bolsas da Ásia Pacífico.

  • Já depois do fecho da bolsa de Tóquio, o governador Haruhiko Kuroda sublinhou que há margem para mais estímulos monetários, apesar das críticas que o BoJ estaria a ficar sem “munições” para enfrentar a inflação negativa e um crescimento económico medíocre