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FMI revê em alta crescimento da zona euro para 2016

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Um abrandamento da zona euro mais acentuado vai registar-se em 2017 com o impacto diferido da incerteza trazida pelo Brexit e do stresse no sector bancário. Crescimento mundial foi revisto em baixa. Mas Brasil, China e Rússia registam revisões em alta. FMI avança com dois cenários pessimistas

Jorge Nascimento Rodrigues

A zona euro vai crescer mais uma décima em 2016 do que o previsto nas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) em abril passado, mas vai abrandar mais duas décimas no ano seguinte, revelam as atualizações ao "World Economic Outlook" (WEO) publicadas esta terça-feira em Washington.

Segundo as novas previsões, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da área da moeda única vai ser este ano de 1,6%, inferior em uma décima ao do ano passado, mas abrandará ainda mais em 2017, com uma projeção de 1,4%.

A revisão em alta em 2016 no conjunto da zona euro deriva de uma melhoria nas projeções para o crescimento da França (uma nova projeção de 1,5% em vez de 1,1% na previsão de abril) e da Alemanha (uma nova projeção de 1,6% em vez de 1,5% anteriormente). Em sentido contrário, o crescimento de Itália foi revisto em baixa para 2016 e 2017, um corte de uma décima, e o de Espanha foi cortado em duas décimas para 2017.

Se a nova previsão para 2016 coincide com as projeções do Banco Central Europeu (BCE) divulgadas em junho, a projeção para o ano seguinte é muito distinta - o FMI é mais pessimista do que o BCE. O FMI aponta para 1,4%, uma desaceleração em relação ao ano anterior; o BCE projeta 1,7%, o que pode resultar das projeções dos técnicos do banco dirigido por Mario Draghi serem anteriores à materialização do Brexit.

Brexit somou-se à crise bancária em Portugal e Itália

As razões derivam de um impacto negativo diferido da surpresa política de 23 de junho, com o triunfo do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) no referendo britânico, que aumentou a incerteza nos consumidores e nos negócios, e do "potencial de stresses na banca" (europeia). O problema bancário, em particular em Itália e Portugal, é anterior ao Brexit, mas tornou-se "mais saliente".

No caso do Reino Unido, que esteve no epicentro do 'choque' político de 23 de junho, o FMI cortou as previsões de abril em duas décimas para 2016 e em nove décimas para o ano seguinte. O impacto negativo no ritmo de crescimenro britânico vai sentir-se sobretudo no próximo ano. A taxa de crescimento da economia britânica poderá registar uma clara trajetória descendente: 3,1% em 2014 e 2,2% em 2015, e projeções de 1,7% e 1,3% para os dois anos seguintes.

À escala mundial, o FMI cortou em uma décima as previsões de crescimento para este ano e o próximo. A taxa manter-se-á em 3,1% em 2016, um ritmo idêntico ao de 2015, três décimas abaixo do de 2014, mas registará uma recuperação de três décimas em 2017. Em suma, depois de um abrandamento económico global em 2015 e 2016, a taxa de crescimento mundial em 2017 regressa ao ritmo de três anos atrás.

Recessão no Brasil e na Rússia será menor

A atualização do WEO traz boas notícias para três grandes BRIC - as previsões de recessão para o Brasil e Rússia são reduzidas para o ano em curso e o crescimento é melhorado para o ano seguinte; o crescimento da China em 2016 é revisto em alta ligeira, de 6,5% para 6,6%. As projeções do FMI para o Brasil são, agora, de uma recessão de 3,3% em 2016, face a uma quebra de 3,8% na previsão anterior, e de um crescimento de 0,5% em 2017 face a um crescimento nulo nas projeções de abril.

Mas o WEO revela pessimismo em relação à África subsaariana, que regista o maior corte de previsões para 2016 realizado nesta atualização - uma redução da previsão em 1,4 pontos percentuais, com o crescimento da região a descer de 3% para 1,6%, com um corte significativo de mais de quatro pontos percentuais no caso da Nigéria (a maior economia africana), que registará uma recessão.

O FMI procedeu a um corte mais elevado na previsão do ritmo de crescimento do comércio mundial em 2016, cuja projeção baixou de 3,1% em abril para 2,7% com a revisão publicada hoje. Esta nova previsão significa que o comércio internacional só terá uma recuperação significativa no próximo ano. Em 2015 cresceu 2,6%, este ano deverá situar-se em 2,7%, e no próximo ano deverá subir para 3,9%, um ritmo superior ao de 2014. O corte mais significativo na taxa de crescimento do comércio internacional em 2016 verifica-se nos mercados emergentes e nas economias em desenvolvimento.

Saída menos "ordeira" pode 'roubar' ainda mais ao crescimento

Os efeitos do Brexit podem vir a revelar-se piores do que os previstos nas projeções agora divulgadas. Por isso, o FMI avança com dois cenários alternativos ao seu cenário-base, que poderão “roubar” entre cinco a seis décimas, em termos acumulados, ao crescimento mundial este ano e no próximo.

Apesar do choque inicial nos primeiros dias após o Brexit, o FMI reconhece que “a reação dos mercados até agora tem sido, em geral, ordeira e contida”. O que justifica a revisão “modesta” realizada no cenário-base atualizado esta terça-feira.

Mas, as repercussões globais podem ser piores do que o previsto, incluindo uma “reação mais severa do mercado financeiro” do que a observada até agora. O FMI avança, por isso, com dois cenários, um que classifica de negativo e outro de grave. Admite, no entanto, que a probabilidade dos dois cenários pessimistas tem diminuído.

Aumento da aversão ao risco e intensificação do stresse financeiro, sobretudo na Europa, podem levar o crescimento mundial a sofrer um corte acumulado de cinco décimas este ano e no próximo no âmbito do cenário negativo e de seis décimas no cenário grave nos dois anos. O que significaria uma descida do patamar dos 3% no crescimento previsto para 2016 no cenário negativo e no projetado para 2016 e 2017 no cenário grave.