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Duncan Green: “Sou como o Bobo do Rei Lear”

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alberto frias

Economista britânico, professor na London School of Economics e estratego da Oxfam, veio a Lisboa ensinar no ISEG como deve acontecer a mudança

Cristina Peres

Cristina Peres

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Jornalista de Internacional

Alberto Frias

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Fotojornalista

Como mudam as sociedades e a complexidade do sistema são os temas do seu livro “How Change Happens”, que será lançado na Oxford University Press em outubro. A propósito de anos de pesquisa, pouco mais de meia hora de perguntas e respostas.

O que faz na Oxfam?
Sou consultor estratégico sénior. Não giro fundos nem equipas, estou autorizado a movimentar-me por todas as valências, posso conversar com toda a gente, visitar o terreno... além disso, dou aulas na LSE. Sou um interface que se mexe entre comunidades, concentrado em criar sentido a partir das diferentes histórias que oiço: um enorme privilégio. Retribuo com um blogue diário e escrevi um livro.

É, portanto, livre na Oxfam?
Posso ser comparado ao bobo do “Rei Lear”: estou autorizado a dizer a verdade ao rei se o fizer rir ao mesmo tempo. Algures no futuro serei decapitado.

E ouvem-no?
Sim, mas daí até tornarem as minhas sugestões realidade...

Há peritos de ONG que se queixam de existir conhecimento e experiência acumulados, mas grande dificuldade em aplicar as alterações na prática. Concorda?
A mudança social e política acontece de forma imprevisível com uma alta percentagem de acidentes envolvidos. As mudanças fazem sempre mais sentido em retrospetiva e são difíceis de prever. Pode aproveitar-se para ponderar que é assim que o sistema evolui e, daí, perguntar o que posso eu fazer de diferente para influenciar o sistema. O meu livro analisa quem tem o poder em cada questão que se nos coloca, que tipo de poder é, para compreender a dinâmica dos sistemas. A mudança política acontece com manifestos e eleições, crises, escândalos e conjunturas críticas... se a mudança originada nestes momentos é uma oportunidade, os ativistas deveriam aproveitá-la.

Quer dar um exemplo?
Se se trabalha com alterações climáticas as conjunturas críticas serão os desastres climáticos e a pergunta é: como se desenvolve pesquisa e conhecimento antes que o próximo desastre aconteça? Se se trabalha com paz, então a crise seguinte será uma guerra... Significa melhorar o trabalho com os ritmos reais de mudança em vez de insistirmos no modo como gostaríamos que as coisas acontecessem. Raramente temos tempo para trabalhar no assunto planeando e executando em tempo real.

Uma das características das mudanças não é começarem um processo que não se consegue parar?
Sim, sim, muitas vezes as grandes mudanças levam mais décadas do que anos e, no entanto, os ciclos políticos têm três, quatro ou cinco anos. Há sempre um desencontro, mas há sempre um contrabalanço.

Como acontece a mudança se as instituições não gostam de perder o controlo do modus operandi e a sua função é levá-los a mudar?
Essa é uma grande pergunta e eu não tenho apenas uma resposta, mas uma maneira é alterar a perceção. Por exemplo, passar de curto para longo prazo num assunto como as alterações climáticas permite que, pensando a 20 anos, as companhias de seguros fiquem do nosso lado. Nos processos de mudança, o sucesso depende de construir alianças com suspeitos não habituais. Tradicionalmente, os grandes agentes de mudança têm sido guerras e crises económicas gigantes. À medida que nos tornámos melhores a evitá-las, se calhar anulámos um dos grandes agentes de mudança. A resposta é encontrar uma forma mais humana de mudar. A mudança acontece porque o contexto se altera, por causa da tecnologia nova, da demografia, que muda radicalmente a sociedade. Em duas gerações, passa-se de uma população jovem a uma de velhos e não há sistemas em funcionamento para absorver essa alteração.

Será que uma sequência de intervenções lineares pode contribuir para uma intervenção sistémica?
Não me parece que a soma dos elementos seja uma intervenção sistémica porque, como argumento no livro, uma intervenção sistémica tem de ser diferente do projeto. O projeto da Oxfam é cozinhar um bolo. Precisa de ingredientes e de uma receita. Tendo-os, esteja-se onde se estiver pode cozinhar-se um bolo. E isso é o projeto, a prática. Na ajuda humanitária anda tudo à volta de projetos. Mas se quisermos trabalhar na capacitação das mulheres, na gestão da água, temos de ter projetos e isso força-nos a uma espécie de comportamento que presume que se pode compreender o sistema antes de começar. Assim como presume que, quando se começa a desenhar a intervenção, se pode realmente intervir, ter impacto e fazer mesmo um trabalho fantástico. Na prática, o que acontece é que as pessoas avançam a sua melhor aposta, intervêm e depois percebem que não compreenderam o sistema.

Diz que a Oxfam canaliza 40% do seu orçamento para resgate e socorro de crises e 60% para planeamento. O seu trabalho insere-se nos 60%?
Eu argumento que os 60% deveriam começar a parecer-se mais com a ajuda humanitária. Assim como esta deveria pensar mais em poder e política e não só em cavar poços. Se o fizermos, teremos uma mistura mais coerente. Porém, há muitas pressões institucionais e pessoas a dizer o mesmo há 20 anos. Há decerto uma razão para que não tenha acontecido, não é? O que é preciso é compreender o que está a impedir que aconteça.

O crescimento acelerado da desigualdade não deveria ser mais preocupante?
É preocupante! E subiu nas prioridades da agenda bastante depressa. A desigualdade é tão extrema e errada! A Christine Lagarde [diretora do FMI] fez um trabalho fantástico ao lançar o relatório da desigualdade, provocou uma reação incrível. Em termos conceptuais, tem havido um progresso enorme porque aconteceu a combinação de novas provas (ajuda sempre) da falência do velho sistema, uma conjuntura crítica, e um grande desastre (também ajuda). O processo está em curso, ainda há pouco a desigualdade não era imaginável. Agora está incluída no discurso político e é a partir daí que começa o processo de debate. Daqui passa-se às ideias políticas, a tudo o que faz parte da expressão política da ansiedade da desigualdade e, daí, chega-se a novas leis e novas políticas. O movimento Occupy Wall Street foi em si uma perda de tempo, mas foi muito importante para colocar a desigualdade na agenda global.

O barulho vale a pena?
O barulho por vezes fica-se apenas pelo barulho. Fez-se o mesmo com as alterações climáticas, demorou dez anos mas resultou. Agora é ver o que vai acontecer. Houve alguns progressos na tributação das transações fiscais globais, pode ser que um dos grandes legados da crise financeira seja a preocupação com a justiça fiscal. Mas temos trabalho garantido para mais de uma geração! Vemo-nos daqui a dez anos...

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 9 junho 2016