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“Bacalhau 500 milhões” já está a caminho e não vem a nado

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Katrine Overbro, presidente dos cozinheiros de Bergen, entregou o bacalhau ao capitão Markus Seidl

D.R.

Foi pescado em fevereiro, pesa 3,5 quilos e já é “um símbolo” de uma história iniciada nas ilhas Lofoten, na Noruega, e que vai terminar em Lisboa na próxima semana. Se tiver sorte, este bacalhau ainda ganha uma prova de vela, mas deve acabar em pastéis

Quando foi pescado, em fevereiro último, ao largo do arquipélago de Lofoten, o bacalhau do género graúdo não sabia que teria um final diferente de todos os outros bacalhaus do Mar da Noruega. Mas o destino ditou a sua escolha e agora já viaja a bordo do veleiro Centenário Statstraad Lehmkuhl, para ser recebido com pompa em Lisboa, na próxima sexta-feira, 22 de julho, e ficar na história das relações comerciais entre os dois países como o espécime "500 milhões" que a Noruega exporta para Portugal.

Porquê este bacalhau, precisamente? "Porque era muito bonito", responde ao Expresso José Carlos Rodrigues, da Norge – Conselho Norueguês de Pesca, que representa os exportadores de peixe da Noruega. Na verdade, tudo começou com um telefonema da equipa da Norge para uma das fábricas que exporta mais bacalhau para Portugal, a pedir um exemplar "muito bonito" para representar a espécie e o momento em que as exportações passam a barreira dos 500 milhões.

Em rigor, para os exportadores noruegueses, este será o bacalhau 508.399.822, de acordo com um método de cálculo das unidades vendidas a Portugal nos últimos 70 anos, que exigiu a análise dos registos oficiais e dividiu a tonelagem total pelo peso médio dos bacalhaus, considerando 1,5 quilogramas até 1995 e 1,9 quilogramas na atualidade. Depois, foi só escolher o eleito e arredondar o número para facilitar a comunicação da mensagem.

Na atualidade, o bacalhau da Noruega chega a Portugal por via rodoviária, depois de uma viagem de cinco dias em camiões. Este, no entanto, segue um percurso marítimo, para recordar "os velhos tempos em que os barcos à vela dominavam o comércio internacional", e por isso vem a bordo de um veleiro que participa na Tall Ship Race, entre Antuérpia e Lisboa.

Partiu da cidade norueguesa de Bergen a 23 de junho, já a bordo do Statstraad Lehmkuhl, guardado num frigorífico, para chegar ao porto de Lisboa "nas condições ideias". Na altura, foi entregue ao capitão Markus Seidl pela presidente dos cozinheiros de Bergen, Katrine Overbro. Mas a prova marítima começou apenas a 10 de julho em Antuérpia e, neste momento, o veleiro que traz o "bacalhau 500 milhões" lidera a competição. Está a navegar na costa da Bretanha, perto de Saint Maló, e deverá chegar a Lisboa a 22 de julho, em hora ainda por determinar.

Marcelo ou pastéis de bacalhau?

O desembarque prevê a passagem do testemunho a um membro da direção da Associação dos Cozinheiros portugueses, mas ainda ninguém sabe dizer o qual vai ser o destino final do eleito, uma vez que em cima da mesa estão possibilidades várias, que podem levar o exemplar "500 milhões" até ao presidente da Republica, Marcelo Rebelo de Sousa, em Belém, ou até uma cozinha – para ser transformado em pastéis do dito para vender aos portugueses e angariar receitas para uma causa social.

Portugal importa oficialmente bacalhau da Noruega desde 1823, mas na Universidade de Coimbra há documentos a indicar que os vikings já terão trazido o bacalhau até à zona da Bairrada por volta do ano 900, ainda antes da fundação da nacionalidade. Os registos fiáveis sobre o comércio de bacalhau entre os dois países só começam, no entanto, em 1946.

Por ano, Portugal compra à Noruega umas 27 mil toneladas de bacalhau salgado seco e mais 17 mil de bacalhau verde, o que equivale a cerca de 70% das importações de bacalhau num país que consome mais de 60 mil toneladas . Para os noruegueses, este negócio vale aproximadamente 180 milhões de euros, mas em Portugal, onde o consumo anual per capita desta espécie é de 6,5 quilos, o valor do circuito comercial do bacalhau mais do que duplica aquele número. "Num ano bom, o negócio do bacalhau em Portugal chega aos 500 milhões de euros, considerando a venda final ao público, restauração incluída", afirma José Carlos Rodrigues.

Apesar do mediatismo do bacalhau nas relações comerciais entre os dois países, a quota do bacalhau nas exportações da Noruega para Portugal é inferior a um quinto. Junto com o salmão, o seu peso sobe para 5%, mas o campeão no ranking das transações com este país do norte da Europa é o petróleo.