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Mercado da dívida soberana caiu numa armadilha

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A deriva para juros negativos de grande parte da dívida de médio e longo prazo alemã, japonesa e suíça e a queda para mínimos dos juros das obrigações britânicas e norte-americanas empurram mercados da dívida para pior momento de risco desde 2011. O Brexit acelerou este processo

Jorge Nascimento Rodrigues

Taxas negativas na dívida de longo prazo era algo impensável. “Tais taxas seriam inconcebíveis há uma década e muito pouco prováveis há dois anos”, disse o economista norte-americano Larry Summers na semana passada, num artigo intitulado “Um momento financeiro notável”. A Suíça inaugurou-as a 16 de janeiro do ano passado quando as yields nas obrigações a 10 anos caíram para terreno negativo pela primeira vez.

Foi um exclusivo suíço até 9 de fevereiro de 2016, quando as obrigações nipónicas naquele prazo entraram nesse “clube”. Depois, a 14 de junho, foi a vez da Alemanha registar, pela primeira vez desde os anos 1930, uma yield negativa naquele prazo. A Holanda entrou para o “clube” na semana passada, com as yields a registarem -0,001% no fecho. A França fixou mínimos históricos com yields negativas no prazo a 9 anos na semana passada. O Brexit está a acelerar este processos.

O mesmo se passava com as taxas negativas na dívida a 15 anos – era um exclusivo helvético. A 14 de junho, o Japão junta-se ao “clube” e, a 5 de julho, é a vez da Alemanha. As yields das obrigações alemãs a 15 anos já atingiram um mínimo negativo de -0,021% na sexta-feira passada e as relativas à dívida nipónica fecharam em um mínimo histórico de -0,108% no final da semana passada. A Suíça tem toda a sua dívida de longo prazo, inclusive a mais longa a 50 anos desde a semana passada, com taxas negativas.

Momento sem paralelo na história

A deriva para taxas negativas da dívida de longo prazo em algumas economias desenvolvidas é acompanhada por outro movimento de descida marcante, ainda que em terreno positivo – a queda das yields das obrigações norte-americanas e britânicas para mínimos históricos. As taxas das US Treasuries (designação dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos) a 10 anos já atingiram, na semana passada, mínimos históricos de 1,32%. E, no caso das Gilts, as obrigações britânicas, as taxas a 10 anos caíram, pela primeira vez, para níveis abaixo de 1% no pós-Brexit, fechando em 0,73% na sexta-feira passada.

A queda para terreno negativo das taxas da dívida de longo prazo significa que os investidores se dispõem a ser penalizados, perdendo juros e pagando inclusive uma taxa para ter esses títulos, que consideram de refúgio, em carteira.

“O mercado de dívida soberana global sofreu uma deslocação descontrolada, com uma queda de yields concertada sem paralelo na história”, escreveu Doug Noland, o editor do “Credit Bubble Bulletin”, no balanço desta semana.

Risco no ponto mais alto

À primeira vista, esta deriva é uma dádiva dos mercados financeiros para os Estados emissores, que financiam o seu endividamento soberano de longo prazo a taxas cada vez mais baixas ou mesmo negativas.

Mas, Narayana Kocherlakota, ex-presidente do Banco da Reserva Federal de Minneapolis (um dos bancos “regionais” que fazem parte do sistema da Reserva Federal dos EUA), avisou, na semana passada: “O risco de que a turbulência financeira venha a prejudicar a economia está no seu ponto mais alto desde a crise gémea das dívidas da Europa e dos Estados Unidos em 2011”. O economista referia-se ao pico da crise das dívidas soberanas dos periféricos da zona euro e à crise do teto da dívida nos EUA.

Jaime Williams, em Stock Transcript, um site financeiro independente em Wall Street, alerta: “A consequência não intencional é que eles [os bancos centrais da Europa e do Japão] tornaram o mercado da dívida soberana, tipicamente o mais seguro para os investidores, num parque infantil para os especuladores”.

A situação não tem precedente. A dívida obrigacionista alemã, francesa, holandesa e suíça regista yields médias até à maturidade negativas: -0,6% em média para o conjunto da dívida helvética; -0,39% para a germânica; -0,27% para a holandesa; e -0,11% para a francesa, segundo dados dos Bloomberg Global Benchmark Bond Indices. A média das yields de toda a dívida obrigacionista da zona euro está em 0,23% e a média para toda a dívida das economias desenvolvidas regista 0,39%. Para a Irlanda, um dos periféricos, a yield média até à maturidade de toda as obrigações já está muito próxima de 0%, fechou a semana em 0,06%. Para a Itália e Espanha está acima de 0,7% e para Portugal em 2,22%.

Uma nova armadilha

Esta deriva é um presente envenenado. Ela adiciona uma nova dimensão ao que os economistas Keynesianos classificam de “armadilha de liquidez” e agrava a incerteza nos mercados financeiros que já contribuiu para o que o governador do Banco de Inglaterra chama de “stresse económico pós-traumático”. Mark Carney alertou a 30 de junho para esse “distúrbio” que torna os investidores “altamente sensíveis aos riscos extremos” e “avessos a decisões que os possam expor a um risco de desastre futuro”.

Esta situação de juros negativos na dívida de longo prazo está a criar um contexto de “armadilha de ativos seguros” que poderá espoletar uma recessão na economia real. É um aviso de Pierre-Olivier Gourinchas, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley. Em declarações ao Expresso sublinhou que se poderá gerar uma espiral: as yields da dívida acabam por não poder descer mais, o mecanismo de equilíbrio de mercado passa para a economia real, a recessão bate à porta, e com a recessão exacerba-se ainda mais a corrida aos ativos seguros, que por sua vez, piora a situação.

  • Os juros das Obrigações do Tesouro português a 10 anos ‘estacionaram’ nos 3%, com um aumento ligeiro durante a semana que findou. No caso das obrigações espanholas, os juros não tiveram alteração. Juros caíram significativamente em relação ao pico recente na ‘sexta-feira negra’ pós- Brexit

  • O índice do conjunto das bolsas europeias ainda está 8% abaixo do nível que registava a 23 de junho, antes de conhecidos os resultados do referendo britânico. Atenas, Dublin e Milão são o trio em pior situação, com recuos superiores a 10%. Budapeste, Londres e Zurique já registam ganhos. PSI 20, da bolsa de Lisboa, está, ainda, 4% abaixo