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Europa ainda não recuperou do ‘choque’ do Brexit

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O índice do conjunto das bolsas europeias ainda está 8% abaixo do nível que registava a 23 de junho, antes de conhecidos os resultados do referendo britânico. Atenas, Dublin e Milão são o trio em pior situação, com recuos superiores a 10%. Budapeste, Londres e Zurique já registam ganhos. PSI 20, da bolsa de Lisboa, está, ainda, 4% abaixo

Jorge Nascimento Rodrigues

O conjunto das bolsas europeias ainda não recuperou do ‘choque’ dez sessões depois da ‘sexta-feira negra’ de 24 de junho, quando na madrugada se conheceu a vitória do Brexit no referendo do dia anterior no Reino Unido. O índice MSCI para a Europa ainda está 7,7% abaixo do valor de fecho a 23 de junho, o dia do referendo.

Os mercados bolsistas europeus fecharam, nessa sessão do dia do referendo, com um ganho significativo, de 2%, com os investidores “convencidos” que a opção pela permanência do Reino Unido na União Europeia ganharia, em linha com as sondagens e as apostas. Afundaram-se quase 9% no dia seguinte logo após avistado o ‘cisne negro’ do Brexit.

As exceções, na Europa, são Budapeste, Londres, por mais paradoxal que pareça, e Zurique. Estas três bolsas já ganharam 0,3%, 4% e 0,2%. Sim, o leitor leu bem, o principal índice londrino, o FTSE 100, já ganhou 4% em relação ao valor de fecho no dia 23 de junho, o dia do referendo. Fora da Europa, Nova Iorque regista um ganho de 0,8% no mesmo período. A “região” da Ásia Pacífico ainda está 1,8% abaixo e o grupo das economias emergentes ainda perde 0,8%.

O índice MSCI mundial, para as principais 46 praças financeiras de economias desenvolvidas e emergentes, ainda está 1,6% abaixo do nível de 23 de junho.

O mercado bolsista da Zona Euro é a área mais afetada pelo choque do Brexit. Na zona de embate, um grupo de quatro periféricos e três economias do centro. Em relação a 23 de junho, as maiores perdas registam-se nas bolsas de Atenas (Athex -13%), Dublin (ISEQ -12,4%), Milão (MIB -10%) e Madrid (Ibex 35 -8%). Na segunda linha, as bolsas de Viena (ATX -7,5%), Paris (Cac 40 –6,2%) e Frankfurt (Dax -6,1%). Ainda nesta segunda linha, com quebras acumuladas acima de 6%, encontra-se a bolsa de Varsóvia, com o índice WIG 6% abaixo do valor de 23 de junho.

O índice PSI 20, da bolsa de Lisboa, ainda está a perder 3,97% em relação ao dia do referendo britânico. Pertence a um grupo de bolsas numa terceira linha do choque que perdeu entre 3 e 5%: Praga, Bruxelas, Luxemburgo, Lisboa e Amesterdão, por ordem decrescente de quedas.

Dois momentos na agenda da próxima semana

A próxima semana regista dois momentos que ocorrem na Europa e que podem ter impacto nos mercados financeiros europeus.

O primeiro é a reunião do Ecofin (conselho dos ministros das Finanças e da Economia dos membros da União Europeia) já na terça-feira (12 de julho), onde vão ser discutidas “a ausência de medidas eficazes por parte de Espanha e Portugal em resposta às recomendações do Conselho europeu de junho de 2013” (vulgo, a não correção dos défices orçamentais excessivos por parte dos dois países no prazo limite então fixado, de 2015 para Portugal e de 2016 para Espanha) e “recomendações com base na conclusão do semestre europeu”.

O segundo momento é a reunião do Banco de Inglaterra (BoE), o banco central britânico. A 30 de junho, o governador do banco, Mark Carney, adiantou que “algum alívio na política [monetária] será provavelmente requerido durante o verão” na sequência dos impactos do Brexit. Segundo a plataforma financeira britânica Hargreaves Landsdown, há uma probabilidade de 78% que sejam já anunciadas novas medidas na reunião de terça-feira, a 13 de julho. O outro momento com alta probabilidade é a reunião seguinte, a 4 de agosto, quando for apresentado o Relatório de Inflação.

Crise bancária em Itália continua sem solução

Um fator de risco que se mantém é a crise bancária transalpina. Na semana passada, o Banco Central Europeu (BCE) manifestou uma abertura a uma intervenção governamental italiana, como reclama o primeiro-ministro Matteo Renzi.

Em Madrid, o vice-presidente do BCE, o português Vítor Constâncio, admitiu, na quinta-feira passada, que “uma pequena ajuda pública para corrigir falhas de mercado” é admissível. No dia seguinte, o governador do Banco de Itália, Ignazio Visco, afirmou que “não se pode descartar uma intervenção pública”. O governo de Renzi já notificou a Comissão Europeia de que uma intervenção urgente exigirá uma injeção de 40 mil milhões de euros.

No conjunto dos bancos da zona euro cotados, as entidades financeiras italianas detêm 50% do crédito malparado. “Em Itália, 17% dos empréstimos realizados pelos bancos são tóxicos. Isso é quase 10 vezes o nível [atual] nos Estados Unidos, onde, mesmo no pior momento da crise financeira de 2008-09, era apenas de 5%”, referiu Giovanni Legorano, do escritório do “The Wall Street Journal” em Milão.

Ainda este mês, a 29, a Autoridade Bancária Europeia vai divulgar os testes de stresse a 51 bancos da União Europeia (cobrindo 70% do sector) e poderá sinalizar os que mantêm almofadas de capital insuficientes. No mês seguinte, o BCE vai analisar a situação do malparado na zona euro e publicar orientações, que, ainda que não sejam vinculativas, poderão colocar mais pressão.

Em outubro, Itália realiza um referendo constitucional que poderá ditar a sorte do governo de Renzi. Uma resolução nos próximos meses que passe por penalizar os detentores de títulos de dívida bancários acarreta um problema - os investidores retalhistas, as famílias italianas, detêm 1/3 dos títulos. "Um processo de bail-in, segundo as novas regras de resolução, centraria a penalização nas famílias italianas, e o medo de perdas poderia levar, também, estes investidores a deixar de emprestar aos bancos e os depositantes correriam a retirar o dinheiro", sublinha Amie Tsang, do "The New York Times".

  • No relatório publicado esta sexta-feira, o Fundo Monetário Internacional considera que a “retoma se fortaleceu” na zona euro, mas que a política tem “deambulado”. Aponta oito riscos no curto prazo, entre eles os de ordem política interna, e afirma que a perspetiva de médio prazo é “medíocre”. Alemanha tem de mudar