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Terminal do Barreiro é ‘inútil’

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Sines está numa posição ótima para beneficiar da nova ordem portuária mundial e deve ter prioridade nos investimentos

Nuno Botelho

Estudo defende que o país não precisa de novo porto de mar mesmo que Alcântara encerre

A economia portuguesa precisa de um novo terminal de águas profundas? Não, “o Estado não deve investir num novo porto no Barreiro, mesmo que Lisboa seja desativado”, mas deve preocupar-se “em reforçar a interligação e desenvolvimento da atual rede, fortalecendo a coesão do sistema portuário”, responde um estudo encomendado pela Associação Comercial do Porto (ACP) a uma consórcio de investigadores da Universidade Católica Portuguesa (UCP) e da empresa de engenharia Trenmo, sob orientação de um conselho consultivo em que pontificam Valente de Oliveira, Alberto de Castro ou Matias Ramos, ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros.

A posição da ACP é um novo elemento para o debate público sobre o mérito e utilidade de um novo terminal no Barreiro, avaliando numa lógica nacional a organização da rede portuária como fator de competitividade do tecido produtivo. O país deve priorizar “o investimento em Sines e otimizar a sua vocação de transhipment (transbordo de cargas) pela sua localização favorável face ao cruzamento de rotas, beneficiando de estrangulamentos existentes na rede mundial”.

Sines “pode aproveitar a revolução em curso no sistema portuário e do movimento de alianças estratégicas nas companhias de navegação que operam num ambiente de concorrência agressiva, sempre à procura de economias de escala e ganhos de sinergias”, refere Álvaro Nascimento, um dos representantes da UCP que participou no trabalho. Segundo o professor, a planificação portuária deve estimular “o funcionamento em rede dos portos portugueses, numa lógica de cooperação e concorrência” de que resulte um sistema ”com múltiplas portas de entrada que conceda competitividade e flexibilidade ao espaço nacional”.

Uma segunda conclusão do estudo é a necessidade de “resolver os estrangulamentos do porto de Leixões”, executando as obras anunciadas no seu plano estratégico. A ACP identifica em Leixões como projetos cruciais a ampliação do terminal de contentores e a construção do novo cais que viabilize a entrada de navios de maior calado.

Setúbal compensa Lisboa

Para a ACP, o cenário ideal será manter a atual rede portuária. Lisboa é essencial “no abastecimento da região a norte da capital”, diz Nuno Botelho, presidente da associação. Mas, no caso do terminal de Alcântara ser desativado, a solução é distribuir a carga por outros portos e desistir de vez da ideia de uma transferência para o Barreiro, orçada em €800 milhões. A opção pelo Barreiro “é um desperdício de recursos” e um exemplo de “mau investimento público”, diz Nuno Botelho.

Investimento virtuoso é, por exemplo, duplicar a capacidade de Setúbal com um custo reduzido (€32 milhões), o que permitiria absorver a atual oferta de Alcântara. Ou reforçar Sines (de 1,7 milhões para 2,3 milhões TEUS) aplicando €213 milhões.

Os autores do estudo argumentam que o encerramento do terminal de Alcântara teria “efeitos marginais” na região. Sines e Setúbal, com potencial de crescimento, “têm capacidade para substituir o porto de Lisboa e manter o hinterland regional adequadamente servido”. Leixões alargaria a sua área de influência à franja superior (isto é, mais distante) do atual porto de Lisboa, como já se verificou na recente greve dos estivadores. Em resumo, o sistema “está em condições de satisfazer a procura latente” pois o movimento de cargas contentorizadas no eixo Sines-Leixões “traduz a utilização de 71% da capacidade instalada”.

A organização das rotas a partir do porto de Leixões denotam a sua orientação clara para servir a sua região (podendo disputar franjas espanholas), enquanto Sines aparece no outro extremo do espectro, posicionada como uma plataforma de distribuição de cargas intercontinentais. Lisboa tem um perfil intermédio, competindo com Sines nas rotas que ligam à América do Norte e do Sul.

Nas recomendações finais, o estudo de 70 páginas apela à “melhoria das interligações terrestres entre os portos e a conectividade com a rede transeuropeia de transportes”, defende o reforço de “ligações marítimas regulares e eficazes entre Portugal e os portos centrais âncora das rotas intercontinentais (Ásia e América)” e sugere investimento público “no reforço da capacidade dos terminais no limite da capacidade e que servem o espaço nacional”.