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Juros da dívida portuguesa fecham abaixo de 3% em junho

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Luís Barra

Juros melhoram para Portugal, mas prémio de risco continua preocupante. Espanha e Irlanda fixam mínimos históricos nos juros da dívida no último dia do mês. Alemanha e Holanda com juro médio negativo para toda a dívida obrigacionista

Jorge Nascimento Rodrigues

Paradoxalmente, no mercado secundário da dívida soberana da zona euro, o mês de junho foi de ganhos, ou seja, de descida das yields das obrigações, apesar do choque do Brexit. Nuns casos, os das economias do centro, o movimento de descida derivou da corrida dos investidores a valores refúgio face ao pânico financeiro gerado pelo risco de Brexit desde meados do mês, com os títulos alemães em destaque.

Noutros casos, os dos cinco periféricos, domina a expetativa dos investidores que o Banco Central Europeu (BCE) continuará com o seu programa de compra de títulos soberanos no mercado secundário. Um estímulo de política monetária que tem beneficiado, também, quatro dos periféricos e se espera que ainda este ano possa passar a incluir a Grécia.

Itália, o elo mais fraco?

Até final de maio, o BCE, ao abrigo do programa de compra de obrigações soberanas, já adquiriu no mercado secundário 255,2 mil milhões de euros de dívida de Espanha, Itália, Irlanda e Portugal, o que representa 31% da injeção global em toda a zona euro. A Itália lidera o grupo dos periféricos; o BCE comprou mais de 131 mil milhões de euros de dívida transalpina, ou seja, mais de metade da injeção nos quatro países.

Este periférico é atualmente considerado o mais vulnerável em virtude da situação do sector bancário e da dificuldade do governo de Matteo Renzi conseguir um recuo alemão para poder injetar 40 mil milhões de euros na recapitalização bancária.

A Itália tem um referendo em outubro que pode ditar a sorte do atual primeiro-ministro. Recorde-se que, nas últimas eleições autárquicas, o Partido 5Estrelas, eurocético e anti-austeridade, teve praticamente a mesma votação que o Partido Democrático (PD) do primeiro-ministro e ganhou em Roma, a capital política, e Turim, a capital industrial. O PD conservou Milão, a capital financeira.

Espanha e Irlanda com juros em mínimos históricos

No prazo a 10 anos, que serve de referência, as yields das obrigações alemãs desceram, pela primeira vez desde os anos 1930, para terreno negativo, fechando junho em -0,107%. As yields das obrigações francesas e holandesas, naquele prazo, aproximaram-se de 0% no final do mês.

Em destaque estiveram as yields das obrigações espanholas e irlandesas, e, em particular, a descida no dia 30 de junho. No prazo a 10 anos fixaram-se novos mínimos históricos durante a sessão de quinta-feira, com as yields das obrigações irlandesas a caírem para menos de 0,5% e as das espanholas a descerem para menos de 1%. Nem em março de 2015, quando ocorreu o movimento geral na zona euro de queda para mínimos históricos, a Espanha e a Irlanda tinham chegado a estes níveis. As yields das obrigações italianas aproximaram-se dos mínimos de março do ano passado.

Portugal melhorou nos juros, mas prémio de risco ainda é problema

Depois de um primeiro choque no dia 24 de junho em virtude do Brexit, com as yields das Obrigações do Tesouro português a 10 anos a subirem para 3,58% durante a sessão, a trajetória inverteu-se e fecharam a 30 de junho em 2,9%, abaixo de 3%, o que já não se verificava desde 5 de abril.

No entanto, o prémio de risco da dívida portuguesa subiu em junho 13 pontos base, fechando em 304,8 pontos base, o que equivale a um diferencial de mais de 3 pontos percentuais em relação ao custo de financiamento da dívida alemã, que serve de referência.

No mesmo período, o prémio da dívida espanhola desceu 19 pontos base para 116 pontos base e o da dívida italiana manteve-se inalterado em 122 pontos base. Em virtude deste quadro, o spread da dívida portuguesa em relação à espanhola ampliou-se em 32 pontos base em junho. Em relação à dívida italiana, o diferencial aumentou 13 pontos base.

A remuneração a 52 semanas da dívida obrigacionista portuguesa melhorou em junho; de uma rentabilidade negativa de -0,34% no final de maio subiu para 2,2% no final de junho, segundo dados dos índices da Bloomberg para a dívida soberana (Bloomberg Global Benchmark Bond Indices). No mesmo período, a média para a zona euro subiu de 3,67% para 8,71%. Espanha e Itália registam retornos superiores a 9%.

No entanto, a yield efetiva de toda a dívida obrigacionista portuguesa subiu de 2,13% para 2,19%, naquele período, distante de 0,31% de média da zona euro e de 0,73% para Espanha ou de 0,13% para a Irlanda. Na zona euro, a Alemanha e a Holanda registam, em média, yields efetivas em terreno negativo (-0,3% e -0,14% respetivamente) para toda a dívida obrigacionista. Taxas negativas significam que os investidores 'pagam' para manter em carteira esses títulos.

Apesar de a Grécia ter recebido a 21 de junho a primeira parte da segunda tranche do terceiro resgate e do BCE ter levantado a proibição de uso da dívida grega especulativa como colateral pelos bancos helénicos, as yields das obrigações a 10 anos fecharam no final de junho acima de 8%, quando em final de maio haviam encerrado no patamar dos 7%. O efeito do risco de Brexit prejudicou a dívida grega que registou uma subida para o patamar dos 8% a partir de 14 de junho.

A Grécia continua fora do programa do BCE de aquisição de dívida soberana no mercado secundário. A dívida obrigacionista grega, apesar de ser altamente especulativa, é a mais rentável no período de 52 semanas, registando um retorno de 72,65%.