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Brexit não provocou ainda ‘momento Lehman’ nos mercados financeiros

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Spencer Platt/Getty Images

As bolsas fecharam à escala mundial na quarta-feira com ganhos por um segundo dia consecutivo. Mas ainda não recuperaram os 7% que perderam. O impacto negativo no mercado de ações foi pior do que nas duas outras crises recentes, mas no mercado da dívida soberana e empresarial o impacto foi inferior. Incerteza continua e eventos de risco podem ocorrer

Jorge Nascimento Rodrigues

Os mercados de ações fecharam à escala mundial na quarta-feira com ganhos de 2,2%, segundo o índice MSCI global. Em duas sessões consecutivas desta semana, o índice subiu 3,9%.

Na Ásia, as bolsas fecharam já esta quinta-feira em terreno positivo, apesar da bolsa de Tóquio ter encerrado 'mista' (com o TOPIX a cair 0,15% e o Nikkei 225 a subir apenas 0,06%) e das duas bolsas chinesas terem dado sinais contraditórios (Xangai perdeu 0,07% e Shenzhen ganhou 0,05%). O índice MSCI para a Ásia Pacífico subiu 0,8% esta quinta-feira. Analistas apontam para um abertura 'mista' na Europa, com particular atenção a dar a Madrid, Milão, Londres e Zurique, onde podem haver recaídas.

A derrocada financeira parou, por enquanto, mas os seus estragos nos dias 24 e 27 de junho ainda não foram debelados. O índice global caiu 6,97% na ‘sexta-feira negra’ seguinte ao Brexit (vitória da saída do Reino Unido da União Europeia no referendo britânico) e na sequela na ‘segunda-feira negra’ já desta semana.

Na City londrina, no epicentro do terramoto político gerado pelos resultados do referendo britânico, a bolsa recuperou das perdas de 24 e 27 de junho. Depois de uma quebra acumulada de 5,7% naquelas duas sessões, o índice FTSE 100 (das 100 cotadas mais importantes) subiu 6,3% a 28 e 29 de junho. Na sessão de ontem, o índice londrino chegou mesmo a liderar as subidas na Europa, com uma subida de 3,7%, superior às registadas com o Ibex 35, de Madrid, e o AEX de Amesterdão, índices que, também, avançaram mais de 3%.

As negociações para a fusão do London Stock Exchange com a Deutsche Bourse prosseguem e uma sondagem da FTI Consulting junto dos investidores institucionais internacionais revela que 2/3 considera que Londres continuará a ser o importante centro financeiro mundial que tem sido. O próprio processo de Brexit pode ser demorado. A atual secretária do Interior do governo britânico, Theresa May, que apresentou hoje no "The Times" a sua candidatura à sucessão de David Cameron, já disse que a invocação do artigo 50º do Tratado da União poderá não ocorrer este ano.

Na Europa, no seu conjunto, as perdas de quase 14% nos dois dias ‘negros’ ainda não foram anuladas. O índice MSCI para a Europa subiu 6,8% nas duas últimas sessões. No caso da bolsa de Lisboa, o PSI 20 recuou 9,3% a 24 e 27 de junho, e ganhou 4,2% nos dias 28 e 29.

Constâncio deita água na fervura em Sintra

Alguns gurus financeiros vaticinaram que o Brexit seria o equivalente à falência do banco norte-americano Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008 que desencadeou a grande crise financeira. Apesar da derrocada nas duas sessões seguintes ao anúncio do ‘cisne negro’ (uma vitória da opção de saída pelo eleitorado britânico que as sondagens, as apostas e os analistas não previam), o ‘momento Lehman’ não ocorreu ainda.

“Não observamos nenhum problema de pressão de liquidez em nenhum lado. Os mercados funcionaram, os preços formaram-se, tudo funcionou”, disse, na quarta-feira, Vítor Constâncio, vice-presidente do Banco Central Europeu, no Fórum anual organizado em Sintra. Apesar das quebras nas bolsas, Constâncio sublinhou que no mercado da dívida soberana não se verificou fragmentação.

Comparando com a crise de 11 de fevereiro, gerada pelo risco de Grexit, as perdas em bolsa foram maiores, mas nos mercados de dívida soberana e empresarial isso não sucedeu, como referiu a Markit.

‘Efeito tesoura’ no mercado soberano não continuou

No mercado secundário da dívida soberana europeia, as yields das obrigações no prazo de referência a 10 anos, estão em queda e em alguns casos atingiram mínimos históricos.

Na quarta-feira, as yields das obrigações irlandesas, naquele prazo de referência, fecharam em 0,6%, um mínimo histórico, e uma quebra de mais de 30 pontos base desde o pico em 0,94% em 16 de junho, no pico do risco de Brexit. As yields das obrigações francesas e holandesas também fixaram mínimos históricos na quarta-feira próximos de 0%.

No caso das obrigações alemãs, as yields continuam em terreno negativo há quatro sessões consecutivas no prazo a 10 anos, tendo fechado ontem em -0,118%. O mínimo histórico foi registado na ‘sexta-feira negra’ quando desceram para -0,17%, com a corrida a valores refúgio ao rubro no meio do pânico financeiro.

Para as Obrigações do Tesouro português, a trajetória é similar ao que ocorre com os outros periféricos do euro. As yields, no prazo a 10 anos, fecharam em queda na quarta-feira em 3,09%; em relação ao pico recente de 3,43% a 16 de junho, já caíram mais de 30 pontos base.

O ‘efeito tesoura’ que se verificou na ‘sexta-feira negra’ e anteriormente entre 9 e 16 de junho – quando as sondagens revelaram uma subida acentuada das intenções de voto na saída – não prosseguiu no pós-Brexit. Esse efeito significa que as duas lâminas se afastam – ou seja, as yields nos periféricos sobem e as relativas às economias do centro do euro descem.

No terreno da dívida empresarial, como sublinhou a Markit, “a 11 de fevereiro, o índice Markit iTraxx Europe principal (série 25) ampliou-se em 120 pontos base, 21% acima do aumento verificado agora a 27 de junho”. A 24 de junho, no pânico, subiu para 99 pontos base e desceu para 85,75 a 29 de junho.

Não faltam 'pendentes'

A incerteza, no entanto, continua. Os ‘pendentes’ são muitos.

Além do processo de arranque efetivo do Brexit que tem nova data-limite marcada para 16 de setembro em Bratislava, quando se voltarão a reunir, informalmente, os 27 restantes membros da União Europeia, um dos dossiês ‘quentes’ é o italiano. O país esta às voltas com o problema da banca transalpina, que enfrenta a oposição alemã a uma solução que se baseie em “circunstâncias excecionais” para injetar 40 mil milhões de euros. O próprio futuro político do primeiro-ministro italiano Matteo Renzi joga-se na resolução desse problema financeiro e no referendo de outubro sobre a reforma constitucional.

A situação global da banca europeia continua a suscitar preocupações. Na quarta-feira, foi anunciado nos Estados Unidos que as subsidiárias do Deutsche Bank e do Santander voltaram novamente a falhar os testes de stresse; foram os únicos casos rejeitados em 33 testes realizados.

A divulgação, também ontem, pelo jornal alemão "Handelsblatt" de um plano pós-Brexit preparado pelo gabinete do ministro das Finanças Wolfgang Schäuble, prevendo regras ainda mais duras em termos de consolidação orçamental e de vigilância da atuação dos governos do euro, introduziu mais lenha na fogueira.

O plano foi divulgado no mesmo dia em que o Fundo Monetário Internacional publicou o seu relatório de análise da economia alemã, sublinhado que o excedente externo do país continuou a subir atingindo 8,5% do PIB (o máximo permitido pelas regras europeias é de 6%) em 2015. Os técnicos do Fundo apontam para a necessidade de aplicar os recursos orçamentais em investimento público de qualidade e reformas que incentivem o crescimento local, e, por arrasto, o da zona euro.

“Existem muitas incógnitas conhecidas”, conclui o analista norte-americano Marc Chandler. Nada garante que não haja uma recaída nas bolsas.