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Gestão da crise na zona euro criticada no Fórum do BCE

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A União Económica e Monetária não desempenhou o seu papel regional de “fornecedor de ativos seguros” durante a crise. Dois académicos da London Business School e da Universidade da Califórnia em Berkeley propuseram hoje em Sintra um corte com a orientação seguida

Jorge Nascimento Rodrigues

A crítica é frontal à gestão da crise por parte do núcleo duro da União Económica Monetária (UEM), ainda que num artigo científico que aborda questões técnicas complexas de política monetária para uma audiência de elite que se reuniu esta terça-feira no Fórum anual organizado pelo Banco Central Europeu em Sintra.

Em resumo, face à crise, a UEM funcionou, numa primeira fase, descarregando os custos de desalavancagem sobre os periféricos da zona euro, e, numa segunda fase, alimentando um excedente externo do conjunto da zona que “exporta” recessão para fora. Um erro conduziu ao outro e somou riscos acrescidos hoje em dia.

Intitulado “Real Interest Rates, Imbalances and the Curse of Regional Safe Asset Providers at the Zero Lower Bound” (“Taxas de juros reais, Desequilíbrios e a Maldição dos Fornecedores Regionais de Ativos Seguros no Limite Inferior de Zero”), o artigo é da autoria de dois académicos, Hélène Rey, da London Business School, no Reino Unido, e Pierre-Olivier Gourinchas, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Nele se prevê que a taxa de juro real (taxa nominal corrigida da inflação) mundial permanecerá “baixa ou mesmo negativa por um longo período de tempo” e que a missão de um “fornecedor de ativos seguros regional”, como é a UEM, é corrigir os desequilíbrios e não agravá-los tanto mais que se perspetiva a possibilidade de um período de estagnação secular como ocorreu após a crise de 1929.

Desequilíbrios malignos

Numa primeira fase, os países centrais da UEM decidiram “não absorver as perdas do sector bancário no seu balanço. Essas perdas não assumidas foram empurradas para o balanço do sector público dos países periféricos, forçando-os a uma desalavancagem agressiva”, diz o documento. Por núcleo duro, os autores referem primordialmente a Alemanha, mas também a Bélgica, França e Holanda. Esse processo levou “a um amplo excedente externo agregado da zona euro, efetivamente exportando a recessão para fora”. “Desde 2014, todos os países da zona euro têm excedentes externos ou uma balança equilibrada, e é projetado continuarem assim nos próximos anos”, sublinham os autores.

Ora, no quadro atual de juros dos bancos centrais próximos ou no seu limite inferior, tais desequilíbrios são “malignos”. Num tal ambiente, “os excedentes externos propagam a estagnação”.

Face a este panorama, os dois académicos acham que seria uma manifestação “de sabedoria se [a UEM] se abstivesse de políticas que nos fazem oscilar à beira de uma armadilha de liquidez global”. A condição de fornecedora regional de ativos seguros pode revelar-se uma “maldição, não só para o centro da UEM, como para a UEM no conjunto, e para a economia global”, diz o artigo apresentado em Sintra. Se a UEM não atuar como devem atuar os fornecedores de ativos de refúgio para os investidores. O caso dos Estados Unidos é apontado como exemplo – tendo um ‘privilégio exorbitante’ de ser o país da moeda global, tem também um ‘dever exorbitante’ de atuar em períodos de stresse global. Os fornecedores de ativos de refúgio regionais devem seguir a mesma responsabilidade nos seus espaços.

Quatro propostas

O que os autores propuseram em Sintra é um corte com o que tem sido seguido na UEM.

A primeira proposta é que a zona euro emita ativos seguros numa dimensão mais ampla do que basear-se apenas nas obrigações alemãs e francesas, ou nos depósitos suíços. Propõem que se avance com iniciativas que criem ativos da própria zona euro, desligando a oferta de ativos seguros de uma ou duas economias específicas do euro.

A segunda dirige-se ao endividamento público e ao crédito malparado nas carteiras da banca da zona euro. Para o primeiro problema propõem a institucionalização de um mecanismo de reestruturação de dívida soberana dentro da própria zona euro, evitando longos períodos de desalavancagem e resolvendo o problema de sobreendividamento. O tratamento do crédito malparado é urgente para evitar, dizem os autores, o “tão conhecido fenómeno de empréstimos zombie”.

A terceira é a União dos Mercados de Capitais.

A última proposta diz respeito a monitorização. E os autores são muito claros nos alvos: os bancos e intermediários financeiros dos países centrais da UEM, aqueles que incentivaram o período anterior de exuberância financeira.

E deixam um último aviso: face a um período longo de taxas de juro reais baixas, é preciso “repensar a sustentabilidade dos atuais modelos de negócio dos bancos e das seguradoras e a solvência dos próprios fundos de pensões”.

  • Uma coordenação formal entre bancos centrais é "complexa". Por isso, o presidente do BCE propõe um mínimo: a "partilha" no diagnóstico das causas dos atuais problemas e das medidas que se exigem. Num mundo globalizado, "é essa a realidade", disse Draghi na abertura do Fórum sobre Bancos Centrais que termina amanhã em Sintra