Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Bolsas mundiais perderam €1,9 biliões na 'sexta-feira negra'

  • 333

As praças financeiras caíram 4,8% a 24 de junho depois de anunciado o Brexit e recuaram 1,5% durante a semana. As perdas semanais globais foram de um bilião de euros. Maiores quedas na Europa e Tóquio. Lisboa perdeu mais ontem com o Brexit do que com o Grexit em fevereiro

Jorge Nascimento Rodrigues

A ‘sexta-feira negra’ de 24 de junho custou 2,08 biliões de dólares (cerca de 1,9 biliões de euros) às bolsas em todo o mundo, segundo o índice S&P Global. O equivalente ao PIB anual da Índia em dólares. A vitória do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) no referendo britânico de 23 de junho provocou um terramoto financeiro no dia seguinte, com o índice MSCI global a recuar 4,8%.

A maior queda na sexta-feira concentrou-se na Europa, com o índice MSCI respetivo a perder quase 9%. Um grupo de cinco praças financeiras liderou as descidas diárias, incluindo Atenas, Milão, Madrid, Paris e Tóquio, com perdas entre 7,9% (índice nipónico Nikkei 225) e 13,4% (índice grego ASE).

No epicentro do choque político, na bolsa de Londres, o principal índice, o FTSE 100, recuou 3,2%, muito menos comparativamente com o choque nos cinco periféricos da zona euro e em Tóquio. No entanto, o FTSE 250 (que abrange um segmento maior de cotadas) quebrou 7,2%.

Maior rombo agora do que na 'quinta-feira negra' de fevereiro

O rombo registado esta sexta-feira foi muito superior ao verificado na ‘quinta-feira negra’ de 11 de fevereiro, quando o risco de Grexit (saída da Grécia da zona euro) esteve ao rubro, e o índice MSCI global caiu 1,32%.

A bolsa de Lisboa sofreu nos dois dias negros deste ano. Esta sexta-feira o índice PSI 20 perdeu 6,99%; a 11 de fevereiro caiu 4,5%. Lisboa perdeu mais agora com a concretização do Brexit do que com o risco de Grexit e o contágio helénico em fevereiro.

Volatilidade disparou, mas ficou abaixo das duas crises bolsistas anteriores

O pânico financeiro disparou na sexta-feira. Ele pode ser visualizado através dos índices VIX (de volatilidade). O salto nos índices foi maior em Wall Street e em Tóquio do que na Europa.

O salto no índice de volatilidade norte-americano, associado ao S&P 500, foi de 49%; no entanto, ainda assim, menos do que os 100% a 11 de fevereiro e os 190% em 24 de agosto do ano passado. Na Europa, a subida do índice VIX associado ao Eurostoxx 50 foi de 10,5% e, em Tóquio, o VIX relacionado com o Nikkei 225 aumentou 17%.

Apesar da subida dos índices de volatilidade nesta sexta-feira, o pânico não atingiu os níveis de 11 de fevereiro deste ano e muito menos da ‘segunda-feira negra’ de 24 de agosto do ano passado, aquando da crise bolsista na China. O VIX relacionado com o S&P 500 fechou a 24 de junho em 25,76 dólares face a 28,14 a 11 de fevereiro e 40,74 a 24 de agosto. No caso da Europa, para as mesmas datas, o VIX fechou em 35,43 face a 38 e 45,7. Em Tóquio, o VIX fechou em 40,7 face a 49,84 e 48 naquelas três datas.

Bolsas perderam €1 bilião esta semana

Em termos semanais, o índice MSCI global perdeu 1,5%, um rombo de cerca de 1,2 biliões de dólares de capitalização, cerca de 1 bilião de euros. É o equivalente a toda a riqueza anual criada em Espanha (se medida em dólares).

Apesar do desastre financeiro de sexta-feira, a queda semanal foi inferior à registada na semana anterior deste mês de junho, quando o MSCI global perdeu 2,3%, com o pânico em torno do risco de Brexit, e à verificada na semana de fevereiro em que ocorreu a ‘quinta-feira negra’, quando aquele índice MSCI recuou 2,6%.

A maior perda semanal verificou-se na Europa. O índice MSCI respetivo caiu 2,15% face a perdas de 1,7% em Nova Iorque e 0,9% na Ásia Pacífico. A “região” que melhor resistiu, esta semana, ao Brexit foi a América Latina, cujo índice MSCI ganhou 1,6%, apesar de ter caído 3,4% na ‘sexta-feira negra’.

Corrida a valores refúgio

Ouro, dólar, iene e obrigações soberanas das economias do G7 e das economias do centro da zona euro estiveram em alta na corrida dos investidores a valores refúgio face ao Brexit.

A semana ficaria marcada pela valorização de 1,4% do dólar e de 1,9% do iene face a uma quebra de 4,8% da libra e de 1,6% do euro. A libra caiu a pique na sexta-feira após o anúncio da vitória do Brexit. Perdeu 8,75% entre a abertura e o fecho. De 24 de junho

Em contraste com as quedas dos índices globais de commodities na sexta-feira, o preço da onça de ouro subiu 4,7%. Em termos semanais, face a um recuo de 1,6% do preço do Brent, de 1,9% do índice de matérias-primas CRB e de 2% do índice de matérias-primas S&P GSCI, o preço da onça de ouro ultrapassou na sexta-feira a barreira dos 1300 dólares e ganhou 2%.

As yields da dívida obrigacionista no prazo de referência, a 10 anos, das principais economias desenvolvidas estiveram em queda e fixaram mínimos históricos no caso da Alemanha (com as yields a descerem para -0,17% durante a sessão de 24 de junho), do Reino Unido (fixando um mínimo de 1,018% na sexta-feira) e da Suíça (com as yields a desceram para -0,54 durante a sessão de 24 de junho). Sublinhe-se que, nos casos da Alemanha e da Suíça registam-se yields negativas, ou seja, os investidores pagam para deter esses títulos, em vez de receberem uma remuneração.

No caso dos títulos a 10 anos dos Estados Unidos (US Treasuries), as yields fecharam na sexta-feira em 1,56%, depois da maior descida diária em cinco anos e meio. Chegaram a baixar durante a sessão para mínimos de 1,41%.

Efeito de tesoura na zona euro

No mercado secundário da dívida soberana, assistiu-se a um ‘efeito de tesoura’ na sexta-feira. Enquanto, as yields, nas obrigações a 10 anos, subiam 70 pontos base (0,7 pontos percentuais) para a Grécia e seis pontos base para Portugal, Espanha e Itália, o custo de financiamento da dívida alemã naquele prazo de referência caía, de novo, para terreno negativo, fechando em -0,037%.

Fruto da divergência crescente entre as yields dos periféricos e as da Alemanha (que serve de referência na zona euro), o prémio de risco subiu 76 pontos base para a Grécia, 13 para Portugal, 12 para Espanha, 10 para Itália e cinco para a Irlanda. Apesar das subidas das yields da dívida durante esta semana, os níveis ficaram abaixo dos registados na crise do contágio grego de 11 de fevereiro. Recorde-se que, então, as yields das Obrigações do Tesouro português a 10 anos fecharam acima de 4%. Na sexta-feira passada, chegaram a subir para 3,7%, mas fecharam em 3,4%.

Para discutir certamente o efeito global do Brexit, os 60 bancos centrais do mundo reúnem-se este fim de semana em Basileia e os ministros das Finanças e banqueiros centrais do G7 encontram-se a 1 de julho.

Além da continuação dos impactos dos resultados do referendo britânico, com um processo demorado pela frente que vai aumentar a frequência de 'eventos de risco' para os mercados financeiros, incluindo um efeito 'dominó' na União Europeia, a Espanha vai a votos este domingo para o Congresso de deputados, sendo incerta a configuração parlamentar que resuttará desta repetição de eleições legislativas.