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Os medos de uns e outros no “day after”

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Portugueses no Reino Unido temem aumento da burocracia e perda de fundos. Em Portugal, os ingleses estão mais preocupados com os seus negócios

Arranjar emprego sem ter necessidade de uma autorização especial de trabalho ou um visto, frequentar uma escola ou uma universidade nas mesmas condições que os cidadãos nacionais (sem pagar mais propinas, por exemplo), receber assistência médica em moldes idênticos que as pessoas cobertas pelo sistema de saúde do país para onde se encontra. Estes são apenas alguns dos direitos de que beneficiam todos os cidadãos da União Europeia (UE) quando se encontram a viver, trabalhar ou viajar num outro Estado-membro. E que a saída do Reino Unido pode vir a mudar radicalmente. Não é para já – os procedimentos para a saída poderão demorar dois anos ou mais a ser negociados – nem se sabe qual a extensão das mudanças. A saída pode ser sempre acompanhada de novos acordos, como existe no caso da Suíça ou da Noruega. Mas nada será tão fácil como antes.

São cerca de 127 mil os portugueses a residir no Reino Unido. O país é mesmo o principal destino de emigração lusa – mais de um quarto dos que saem todos os anos vão para lá – e em 2015 o número de entradas voltou a aumentar, atingindo os 32.300 cidadãos, de acordo com os dados do Department for Work and Pensions, contabiliza Inês Vidigal, do Observatório da Emigração. Só enfermeiros foram 1200 em 2013 e outros quase 1300 em 2014, “metade de todos os profissionais desta área que saíram nesse período”, acrescenta.

O futuro é uma incógnita. “Quem já lá está com contratos de trabalho não terá tantas preocupações, mas quem quer ir e para as agências de recrutamento que, com toda a facilidade, têm recrutado em Portugal profissionais ligados à gestão financeira, informática, enfermeiros, os entraves à entrada vão ser maiores”, antecipa Inês Vidigal. Sabendo, no entanto, que o Reino Unido vai continuar a ter necessidades de encontrar no estrangeiro os profissionais que lhe faltam. “Mais do que as leis, são as necessidades de emprego que determinam estes fluxos”.

Entretanto, mesmo antes de se saber os resultados do referendo, o secretário de Estado das Comunidades, José Luís Carneiro, aconselhou os portugueses no Reino Unido que estejam em condições de o fazer (mais de cinco anos de trabalho) a requerer o estatuto de residente permanente, “na medida que salvaguardará direitos fundamentais, nomeadamente de cariz social”.

Tal como muita gente, em Inglaterra e não só, André Castro, 29 anos, membro da comissão executiva do PARSUK, a rede de investigadores e estudantes portugueses que estão a desenvolver a sua atividade no Reino Unido e que conta com cerca de 1700 associados, deitou-se a pensar que Bremain era quase uma certeza e acordou com o “choque e o espanto” da vitória do Brexit, a caixa de correio, o Facebook, o Twitter inundados com comentários de incredulidade.

Investigador na Universidade de Sheffield há dois anos, com contrato renovado para mais dois, foi com um simples “bilhete de identidade português no bolso” que assinou contrato, que já recorreu ao Serviço Nacional de Saúde britânico, que abriu conta no banco. “Sou português, nunca pensei pedir a nacionalidade britânica e agora é uma situação que tenho de equacionar”. Não quer correr o risco de passar pelo que vê acontecer com os seus colegas indianos, paquistaneses, brasileiros que têm de estar a olhar para a validade dos vistos. “Tenho uma colega que teve de regressar à Índia e ainda não conseguiu ter o visto e voltar para trabalhar”.

Enquanto investigador, no seu caso na área da Engenharia Biomédica, André Castro também teme as consequências que o fim do acesso, ou pelo menos mais difícil, ao financiamento de fundos e programas comunitários, como o Horizonte 20/20, possa ter. “Dependemos muito do financiamento a nível europeu. Nesse sentido vamos ser claramente afetados”.

De resto, não tem dúvidas. A vida dos portugueses no Reino Unido implicará “mais documentos, mais perda de tempo, mais stresse”.

Ingleses no Algarve mais preocupados com o negócio do que com a burocracia
No soalheiro Algarve, contudo, a vida não para. É verdade que os ingleses a residir em Portugal – estima-se que perto de 50 mil, a maior parte na região mais a Sul – também estão a viver “em choque” este “day after” ao referendo. Mas são as questões da burocracia e de eventuais restrições à sua mobilidade no espaço europeu que menos os preocupam. “A embaixada e o consulado reuniram-se, antes do referendo, com residentes e reformados britânicos a viver em Portugal e asseguraram-lhes que essas regalias serão mantidas. Eu sou residente fixo, tenho uma empresa portuguesa e há direitos que não perco”, conta Bruce Hawker. Tem 49 anos, desde os 28 que vive em Portugal e é proprietário do grupo editorial Open Media, que detém títulos para a comunidade britânica em Portugal, como o semanário “Algarve Resident” ou a revista “Essential Algarve”, e também o algarvio “Barlavento”.

As consequências do “Brexit” no investimento imobiliário e no turismo em Portugal, no geral, no Algarve, em particular, ocupam-lhe as conversas durante o dia. “O meu telefone ainda não parou”, conta. Logo pela manhã, ligou-lhe um conterrâneo, que também tem residência fixa no Algarve: “É dono de um empreendimento turístico de luxo, que sempre trabalhou muito bem o mercado britânico, sendo que a grande fatia dos clientes vem do Reino Unido. Se o rendimento dos ingleses cair, os seus clientes vão ter menos dinheiro para gastar e ele está preocupado que isso afete o negócio e, portanto, o número de funcionários e, em consequência a própria economia regional”.

Afinal, não foi assim há tanto tempo que o negócio agudizou. Em plena crise económica, as empresas algarvias ficaram “de rastos”. A Open Media, sedeada em Lagoa, chegou a perder 80% das receitas devido à quebra das receitas publicitárias dos seus principais clientes: empresas de construção, promotores imobiliários, marcas de mobiliário, empresas de serviços a estrangeiros, bancos internacionais. “Não vamos conseguir sobreviver a outra crise destas”, garante. Fred Phillips, que tem uma empresa de design em Boliqueime desde 1979, a Ateliê do Sul, e que trabalha para empresas internacionais presentes no Algarve (como resorts e promotores imobiliários), teme o desinvestimento. “A desvalorização da libra vai travar investimentos, a incerteza vai paralisar o mercado. Esperamos é que seja uma paragem curta”, explica o empresário, que aos 18 anos chegou à região depois de se apaixonar por uma portuguesa de Faro.

Hawker é mais pessimista, está “muito apreensivo”, mas sossega-lhe o espírito “a diversificação que os mercados imobiliários e turísticos sofreram no Algarve, nos últimos anos. Os franceses estão a investir em força, os alemães voltaram, os nórdicos também cá estão. Pela primeira, no ano passado, o número de franceses a comprar casa em Portugal suplantou os ingleses”, explica. Pode ser que o mercado não venha a ser afetado pela quebra do poder de compra dos britânicos, caso o Reino Unido entre em recessão. Phillips está igualmente preocupado, mas é otimista: “Portugal e Inglaterra têm uma relação especial há mais de 500 anos. Com ou sem Europa, vão ter sempre uma amizade comercial especial”, assegura.

Por outro lado, não acredita que a desvalorização da libra afete os reformados ingleses que habitam na região, levando eventualmente à sua saída: “Não tenho dados, mas a minha experiência é a de que a maioria dos reformados britânicos tem mais poder de compra para além das suas reformas, que são altas. A vida em Portugal tem um custo ainda razoável. Quem já vive cá, vai continuar cá”. Em Espanha, contudo, onde a comunidade britânica “é enorme” mas tem menor poder de compra, os efeitos podem ser mais nefastos. “Lá vivem mais em apartamentos, em Portugal têm casas”, descreve.