Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

António Esteves: como olha para o Brexit um banqueiro português na “city”?

  • 333

António Esteves

Nuno Fox

Quadro de topo do Goldman Sachs durante oito anos, António Esteves abandonou o banco há dois meses. A partir de Londres, antevê uma vida complicada para todos. Juros em queda, abrandamento económico e dificuldades acrescidas para o já fragilizado sistema financeiro português

Miguel Prado

Miguel Prado

Jornalista

António Esteves, com uma carreira de quase 25 anos na banca de investimento, é um dos gestores portugueses mais bem sucedidos em Londres. Na “city” era desde 2012 o único português com o estatuto de “partner” do Goldman Sachs, cargo que abandonou há dois meses para iniciar um projeto pessoal.

No centro do furacão em que se tornou o “Brexit”, António Esteves conta ao Expresso que a decisão de saída da União Europeia não traz nada de bom... para ninguém. “Não há resultados positivos para ninguém”, avalia. O que agora podemos esperar é, diz o banqueiro, uma conjuntura recessiva.

Há dois dias, em entrevista ao “Jornal de Negócios”, António Esteves antecipava que o impacto do Brexit na banca dos países periféricos seria muito negativo. Mas dizia também que “não se pode nem pouco mais ou menos comparar o Brexit com o Lehman”.

Esta sexta-feira, em conversa telefónica com o Expresso, o bem sucedido gestor notou que o impacto do referendo britânico “é muito mau para o sistema financeiro”. António Esteves antevê uma baixa das taxas de juro e, com isso, “vamos ter menos crescimento ou até recessão”. No que toca à economia portuguesa não é só a exposição ao Reino Unido que preocupa. “Sendo Portugal um país altamente dependente da União Europeia, mais afetado será”, observa.

Segundo o mesmo responsável, “sempre que há incerteza, volatilidade e cenários deste tipo, há contrações na atividade económica”, o que acabará por penalizar a economia europeia de uma forma geral. Mas no caso português há uma agravante.

“Uma decisão destas é altamente prejudicial para toda a zona periférica. Portugal é, a seguir à Grécia o país mais frágil da periferia. Temos um sistema financeiro muito fragilizado”, nota António Esteves. Com a banca portuguesa a precisar de capital e os mercados europeus em dificuldades, nada de bom se augura para o sistema financeiro nacional.

“O que é mais importante para Portugal é a situação do sistema financeiro. O processo de consolidação da banca fica ainda mais urgente do que era. Tem que haver uma clarificação muito rápida relativamente ao que se vai fazer com o sistema financeiro”, analisa António Esteves.

O banqueiro, depois de oito anos no Goldman Sachs, e estando a viver em Inglaterra há já uma década, está ciente de que o Brexit não tem apenas implicações económicas, porque com a decisão do referendo é também posto em causa o modelo da Europa que temos hoje.

Licenciado em Economia pela Universidade Católica, iniciou a sua carreira em 1994 no Deutsche Bank, em Lisboa. Passou depois pelo Santander. Em 1998 integrou o banco Merril Lynch. Em 2006 foi trabalhar para a FICC em Londres. E dois anos mais tarde integrou o quadro do Goldman Sachs, liderando a partir da “city” os negócios do banco no Sul da Europa, bem como os mercados emergentes.