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Três décadas de braço dado com o poder

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antónio pedro ferreira

É a estrela maior da gestão em Portugal. A implosão da PT e o terramoto na banca retiraram do palco quem lhe poderia fazer sombra. Há uma década a liderar a EDP, é o gestor mais bem pago do país e um dos mais poderosos. A política já não o seduz, hoje são as artes o que mais o entusiasma. A gestão continua a ser uma paixão, mas os tempos e o novo acionista, a China Three Gorges, obrigam a uma maior discrição mediática. Aos 58 anos, uma carreira no exterior está fora de questão

António Mexia é um homem do poder. De todos os poderes. Foi ministro das Obras Públicas de um governo de direita, o de Pedro Santana Lopes, liderou, por nomeação de executivos socialistas uma das maiores empresas portuguesas, a Galp, e mais tarde a sua concorrente, a EDP. Teve no primeiro mandato de José Sócrates, e no seu ministro da Economia, Manuel Pinho, grandes aliados na construção de uma EDP mais forte e detentora de rendas polémicas.

António Mexia sabe fazer pontes, mexer os cordelinhos e rodear-se dos melhores. Não é um eucalipto que seca tudo à sua volta, como outros gestores da sua geração, defendem amigos e inimigos. Manso Neto, presidente da EDP Renováveis, é considerado um gestor brilhante e Mexia dá-lhe espaço. Alia-se quando é para se aliar, afasta-se quando é momento para o fazer. “Mexia corre por conta própria, se se tiver de vender a alguém é ao poder. Não é apenas, como se tem dito muitas vezes, um homem do BES. Aliás, quem o propôs para a EDP em 2006 foi o BCP, na era de Jorge Jardim Gonçalves, então um acionista influente”, diz um antigo colega das andanças na banca. António Mexia trabalhou quase uma década no BES Investimento (1990 a 1998), a banca foi uma escola. Sabe gerir como poucos as relações angulosas e dá-se com todos. Tanto fala bem com Ricardo Salgado, ex-líder do BES, como é próximo do primo, e hoje arqui-inimigo, José Maria Ricciardi, presidente do BESI, agora Haitong. Não gosta de se deixar capturar. Garante que não mistura os negócios com a vida privada. “Os meus amigos nada têm que ver com a minha vida profissional. Não misturo as coisas”, confessa-nos. Tese corroborada por Eduardo Catroga, que desde 2006 integra o Conselho Geral da EDP. “Temos uma ótima relação, mas nunca fomos a casa um do outro”, conta o antigo ministro das Finanças.

António Mexia cumpre em junho dez anos de liderança na EDP, e, embora tudo dependa da vontade dos acionistas, não enjeitaria ficar pelo menos mais quatro anos, até 2020, data em que termina o novo plano estratégico que desenhou para a elétrica. Tem um lugar invejável. Está ao comando de uma empresa que de 2008 a 2014 lucrou mais de mil milhões de euros por ano (em 2015 os ganhos recuaram para 913 milhões) e que passou praticamente incólume pela tempestade que varreu nos últimos anos a economia portuguesa e arrasou parte das grandes empresas. É o gestor mais bem pago do país. Numa década, António Mexia recebeu 15 milhões de euros como presidente da EDP. São na verdade sete milhões de euros líquidos (o restante foi para o Estado, entre IRS e Segurança Social). Um salário milionário que suscita correntes de ódio na praça pública. Muito dinheiro? Demasiado? O gestor diz que vive bem com isso, embora ache que “a discussão sobre os salários está enviesada”. Não deixa de ser um tema que o irrita.

“O meu salário equivale ao de um defesa-direito de um clube do meio da tabela”, disse recentemente à “Sábado”. A remuneração bruta de Mexia equivale a 0,15% do lucro da EDP. A verdade é que sob a sua liderança os dividendos saltaram de 11 cêntimos por ação para 19 cêntimos. O gestor é generoso com os acionistas, eles retribuem. Mas nem tudo melhorou. A capitalização bolsista encolheu de 14 mil milhões para 10,8 mil milhões. E a dívida da EDP é uma preocupação recorrente, estava nos 17,4 mil milhões de euros no final de 2015. Mexia justifica-se: a dívida cresceu mas os ativos também. A EDP agigantou-se nas suas mãos, entrou nos EUA, Canadá, México e em vários países europeus.

Uma estrela sem concorrência?

A EDP é hoje indiscutivelmente a grande empresa portuguesa, a mais lucrativa e a mais influente no espaço mediático. A Portugal Telecom, outrora uma temível rival, desceu de campeonato. E os tempos áureos dos banqueiros já lá vão. Mexia não tem concorrência. O palco é (praticamente) todo dele. Para trás fica um passado de grande visibilidade mediática quando disputava com Zeinal Bava e António Horta Osório o título de melhor gestor português.

Mexia era uma pop star da gestão e gostava de o ser. Foi um dos principais rostos do movimento “Compromisso Portugal”, criado em 2004, com o objetivo de os gestores na casa dos quarenta mostrarem ao país que tinham ideias, propostas de soluções e verdadeiras reformas económicas para Portugal. Nas fotos da época, recolhidas num megaevento no Convento do Beato, ao lado de Mexia apareciam muito António Carrapatoso (Vodafone), Filipe de Botton e Alexandre Relvas (Logoplaste), um conjunto de gestores que gostava de estar nas páginas dos jornais. Mexia nasceu para ser uma estrela da gestão e a imprensa sempre lhe augurou um grande futuro. Em 1990 quando, juntamente com Carrapatoso, estava a caminho do Grupo Espírito Santo, o Expresso, num artigo intitulado “O pós-yuppismo”, rasgava elogios. “São jovens, brilhantes e acabam de se transferir para o privado (...) Será um acontecimento importante que o movimento pós-yuppie português venha a demonstrar mais brilho do que o nosso tristonho yuppismo”. Chegou ao topo. Trabalhou para isso.

Agora o carismático executivo, aparentemente, já não quer tanto ter os holofotes sobre ele. O novo dono da EDP, a China Three Gorges, gosta de discrição e recato. E Mexia, como gestor, já tem menos a provar. “Durante anos a tendência foi dar popularidade aos gestores. Eu sempre gostei mais de dar popularidade a arquitetos, filósofos e músicos. Essas figuras merecem visibilidade pelo que são de inspiração coletiva. São mais importantes do que a ação temporária da gestão”, diz ao Expresso, num encontro para uma pequena conversa, onde quis deixar claro que não gosta de perfis. “As companhias hoje não podem ser personalizadas, são coisas de equipa”, sublinha. Mexia segue a tendência, aparece bem menos na imprensa e dá a cara sobretudo nas apresentações de resultados da empresa e dos seus planos de negócios ou em momentos mais solenes. Mas ainda no mês passado foi possível vê-lo na Bienal de Veneza, ao lado de Álvaro Siza Vieira, no âmbito da exposição com a curadoria de Guta Moura Guedes, isso na precisa semana em que os responsáveis da China Three Gorges se deslocaram a Portugal para contactos com o ministro da Economia. O mundo das artes atrai-o cada vez mais.

Confessa-nos que coloca sempre na agenda, mesmo quando viaja em trabalho, a visita a um ou mais museus, nem que seja a caminho do aeroporto. A vistosa nova sede da EDP, na Avenida 24 de Julho, respira design e arte, e é um espelho do gosto cultivado pelo gestor. O projeto é do gabinete de Aires Mateus. Do outro lado da linha de comboio, mesmo em cima do rio, está a nascer a nova menina dos olhos dele, o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT). Uma obra de 19 milhões de euros, desenhada pela famosa arquiteta britânica Amanda Levete, um dos nomes escolhidos por Guta para a mostra em Veneza.

A austeridade

O ano de 2011 marcou uma viragem na forma como António Mexia ocupava o espaço público... e político. É como se houvesse dois Mexias, um do governo de Sócrates e outro pós-troika. O outrora one man show, sempre presente em eventos, grandes comitivas de jornalistas à sua volta, com muitas ações de charme, era o rosto de uma EDP em fase de intensos investimentos. Num par de anos, Mexia assegura junto do governo socialista o prolongamento das concessões das barragens em Portugal (a troco de 759 milhões de euros para o Estado), licenças para três novas centrais hidroelétricas (entregando mais um cheque de 215 milhões) e ainda licenças para pôr de pé o maior projeto eólico do país. É também nesta fase que arrancam os parques eólicos lá fora. E que Manuel Pinho autoriza a criação de um défice tarifário em Portugal, que hoje chega aos cinco mil milhões de euros. O objetivo era evitar uma subida acentuada dos preços da eletricidade. Hoje essa decisão é uma fatura pesada para os clientes.

Havia uma grande proximidade entre Pinho e Mexia, tinham trabalhado ambos no GES. “Houve um grande entra e sai de quadros da EDP no Ministério da Economia de Pinho quando se estava a fazer a transição dos contratos de aquisição de energia (CAE) para os CMEC (Custos para a manutenção do equilíbrio contratual). Toda a gente sabia, não era segredo nenhum a influência de Mexia no novo modelo energético do país”, conta uma fonte política que lidava com o ministério. Com os gabinetes ministeriais sempre à míngua de recursos qualificados, há a tentação de aceitar a “ajuda” de quem sabe e as portas ficam por vezes demasiado abertas para quem domina o sector”, explica a mesma fonte. É quase uma tradição.

Se a cumplicidade com Manuel Pinho era grande, o mesmo não se pode dizer da relação com o secretário de Estado António Castro Guerra, a quem desagradava o excesso de poder da EDP. Castro Guerra queria mais concorrência e mantinha Mexia à distância. Em abril de 2007, Pinho afastou-o do dossiê da energia, que passou a ser tutelado diretamente pelo ministro. A energia acabou por ser um dossiê caro a Pinho, que aprofundou conhecimentos na área. Após a demissão do Governo (em julho de 2009), Manuel Pinho foi para a Universidade de Columbia, nos Estados Unidos da América, dar uma cadeira de energia patrocinada pela EDP.

antónio pedro ferreira

“Mexia é um gestor inteligente, sabe sempre o que fazer em cada momento. E quando Sócrates estava no poder, a época era de bonança e expansão do sector. O gestor aproveitou a onda”, defende uma das fontes ouvidas pelo Expresso. É também a altura em que o grupo decide fazer uma nova sede. O gestor queria que a EDP deixasse uma marca no país, a sua marca.

Mexia tem boa imprensa, sempre teve. Nunca descurou a comunicação e fez do marketing um trunfo. É uma aposta desde o tempo em que liderou a Galp. Aliás, quando Manuel Ferreira de Oliveira lhe sucedeu na petrolífera, ficou espantado com o dinheiro que se gastava e cortou a direito nos custos com a promoção, o que criou um certo mal-estar entre os dois. A EDP de António Mexia tem tido um orçamento de marketing invejável, com mais de duas dezenas de milhões de euros aplicados anualmente pelo grupo, nos vários países em que está presente
“Mexia é um gestor de mão cheia e tem uma enorme inteligência emocional, mas também é verdade que está na maioria das reuniões numa posição dominante. É dono de uma carteira recheada”, comenta uma das fontes ouvidas pelo Expresso.

Assistiu-se assim ao processo de transformação que tornou a EDP uma das maiores empresas de energias limpas do mundo. Um filme de que António Mexia se continua a orgulhar. O mundo deu entretanto uma reviravolta. E, a partir de 2011, com o governo de Passos Coelho, o cenário mudou. A conjuntura tornou-se mais desafiadora. Passou a haver menos financiamento e mais caro. Menos investimento. O custo das energias limpas levantava ondas e começava a ser uma dor de cabeça. Mexia adaptou-se às novas circunstâncias. Os tempos não eram de euforia. O governo queria privatizar o que restava da EDP. Simultaneamente, a troika exigia a redução das rendas do maior produtor de eletricidade do país. Era urgente que a energia deixasse de penalizar a competitividade das empresas portuguesas e a carteira das famílias.

Champanhe e demissões

Ao longo dos últimos dez anos, António Mexia tem deixado a sua marca na EDP mas também no sector energético. Ele aí continua, enquanto os governantes passam. Desde 2006 o país teve uma mão-cheia de secretários de Estado com a pasta da energia: Castro Guerra, Carlos Zorrinho, Henrique Gomes, Artur Trindade e, agora, Jorge Seguro Sanches. Nem sempre as relações foram fáceis. António Mexia teve, entre junho de 2011 e março de 2012, um dos períodos mais difíceis e duros na defesa dos interesses da EDP, teve de travar um combate com o secretário de Estado, Henrique Gomes, e o então ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira.

A privatização da EDP estava na agenda. Santos Pereira e Henrique Gomes, com o respaldo da troika, iniciaram nos primeiros meses do governo PSD/CDS um projeto de combate às rendas da energia. Mas enfrentaram dois grandes obstáculos. Uma EDP que não queria perder receitas. E um ministro das Finanças (Vítor Gaspar) intransigente na luta pela manutenção do valor da EDP inalterado, para que o Estado conseguisse o mais alto encaixe possível na privatização de 21,35% da empresa. Mexia estava, naturalmente, do lado de Gaspar. No Ministério da Economia chegou a ser planeada uma contribuição especial sobre os produtores de eletricidade que obrigaria a EDP a pagar ao Estado quase 200 milhões de euros por ano. A ideia não vingou. Havia que salvaguardar o sucesso da privatização. Mais tarde, Álvaro Santos Pereira confessa que o lobby da energia foi o mais poderoso que teve de enfrentar.

Na reta final do processo de venda, surgem rumores de que, entre os finalistas da privatização, António Mexia preferia a proposta da alemã E.ON, enquanto o Governo se dividia entre as propostas brasileiras (Cemig e Eletrobras) e a alemã. Mas na corrida estava também o poderio económico (que se revelaria imbatível) da chinesa Three Gorges. A 15 de dezembro, na TVI, o comentador Luís Marques Mendes lança as suas farpas. “O dr. António Mexia, em pleno processo de privatização, foi à Alemanha visitar um dos concorrentes, a E.ON, e isto foi transmitido como um sinal de que ele estava a patrocinar a candidatura dos alemães contra a candidatura dos brasileiros e dos chineses, isto é do pior que pode acontecer”, comentou.

Duas semanas mais tarde a privatização fica fechada. Ganham os chineses. A proposta de 2,7 mil milhões de euros da Three Gorges põe um ponto final na disputa. E a verdade é que os chineses manteriam (até hoje) a confiança em António Mexia, apesar de no início terem torcido o nariz devido à sua alegada preferência pelos alemães.

Em janeiro de 2012, numa entrevista ao “Jornal de Negócios”, o secretário de Estado da Energia, Henrique Gomes, assume frontalmente o choque com a elétrica. “Ao excessivo poder de mercado e de influência da EDP o Estado tem de impor o interesse público. É uma questão de soberania”, declara então o governante. Um par de meses depois Henrique Gomes acordaria a sua demissão com Álvaro Santos Pereira. No livro “Reformar Sem Medo”, o ex-ministro da Economia admite que na saída do secretário de Estado pesaram “algumas intervenções públicas e entrevistas mais polémicas a confrontar e a denunciar os produtores elétricos de uma forma porventura menos adequada”.

“Sei que a saída de Henrique Gomes do Governo causou polémica e sei mesmo que houve até produtores de energia que chegaram a celebrar com champanhe a sua partida”, escreveu Álvaro Santos Pereira no livro publicado no final de 2014. Sempre que é confrontado com a afirmação do ex-ministro, António Mexia garante que não bebe champanhe. Henrique Gomes regressou à REN, para pouco depois se reformar. Mas mantém uma visão muito crítica do poder da EDP em Portugal. Sobre Mexia, Henrique Gomes não se quis alongar. Mas disse ao Expresso ter dúvidas sobre as competências que são atribuídas ao CEO da EDP. “A ideia do gestor para mim é um mito. É um mito assente numa tecnoestrutura muito forte e competente, que vive de rendas excessivas que lhe permite controlar o poder político e os media”, apontou Henrique Gomes. Mais não disse. “Não quero alimentar o mito, não vou falar mais sobre o António Mexia”, finalizou.

Nuno Ribeiro da Silva, antigo secretário de Estado da Energia e hoje presidente da Endesa Portugal, acompanha o percurso de Mexia há mais de duas décadas. “O António Mexia tem aspetos positivos e outros aspetos com os quais me identifico menos. Mas é sem dúvida um gestor com carisma e capacidade de mudar, de unir as equipas perto dele. É uma pessoa ousada na gestão, mobilizadora e dinâmica”, elogia.

Os estudos na Suíça

Não é segredo que o presidente da EDP é um ferrenho benfiquista. Porém, a sua infância e juventude foram passadas no bairro de Alvalade. António Mexia nasceu a 12 de julho de 1957 em Lisboa. Foi o segundo filho do casamento de Joaquim Nunes Mexia e Maria da Graça Teixeira Guerra. O seu irmão mais novo, José, nascera em 1954. O pai do agora presidente da EDP era advogado e chegou a ter um lugar na administração do Banco de Portugal, cargo de que seria exonerado após o 25 de Abril. A mãe, hoje a caminho dos 90 anos, era uma das filhas do embaixador Rui Teixeira Guerra, diplomata que, entre outras missões, serviu a representação portuguesa em Berna entre 1960 e 1967, posição que viria a facilitar, uma década depois, a colocação do neto António na Suíça, para prosseguir os estudos. É uma família alentejana, de Mora. Mexia diz-se alentejano. “Gosto muito de ir a Mora, ajudar a minha mãe na gestão da quinta”, conta.

À herança diplomática soma-se a política. António Mexia tem um passado político na família. José Garcia Nunes Mexia, avô paterno, foi deputado na Assembleia Nacional, durante a ditadura, entre 1949 e 1961. E o bisavô Joaquim teve durante alguns meses funções políticas: foi ministro da Agricultura entre abril e julho de 1928 (no governo em que Salazar era ministro das Finanças).

António Mexia cresceu no bairro de Alvalade. Estudou na Escola Padre António Vieira. “Foi um liceu que adorei”, contou em 2010 numa entrevista à revista “Única”, do Expresso. Mas chegado o momento de passar para a faculdade a família decide enviá-lo para a Suíça. Portugal vive tempos revolucionários. E António Mexia, aos 17 anos, vai tirar o curso no estrangeiro.

Na Suíça várias hipóteses estavam em cima da mesa. A família queria que António estudasse Direito, mas sem a cidadania suíça não poderia exercer advocacia naquele país. Arquitetura também foi ponderada. “O António gostava, mas o pai fez oposição e venceu”, contou em 2013 o professor catedrático Vítor Gonçalves quando apadrinhou o doutoramento honoris causa de Mexia pela Universidade Técnica de Lisboa. A escolha final recaiu sobre o curso de Economia Política.

INTERNACIONAL. O escândalo “Mensalão” no Brasil beliscou António Mexia, mas o caso acabou por ser arquivado. Sobre a saída para uma grande empresa estrangeira, o gestor português diz que prefere estar perto das pessoas de quem gosta

INTERNACIONAL. O escândalo “Mensalão” no Brasil beliscou António Mexia, mas o caso acabou por ser arquivado. Sobre a saída para uma grande empresa estrangeira, o gestor português diz que prefere estar perto das pessoas de quem gosta

FOTO tiago de paula carvalho

D.R.

“Fui para a Suíça porque não tínhamos dinheiro e não se podia tirar dinheiro do país nessa altura. O meu avô tinha sido lá embaixador e, portanto, tinha amigos”, relatou Mexia em 2010 à “Única”. Nessa entrevista lembrou também que no seu grupo de amigos de então era o único português que não tinha carro. “Andei à boleia para todo o lado. Saía de casa e ficava na beira da estrada a pedir boleia até para ir para o Norte da Suíça para fazer esqui. Ia à boleia para a Áustria e cheguei a fazer um cartaz a dizer Paris”, descreveu Mexia.

O agora bem-sucedido gestor recorreu a uma série de trabalhos e biscates enquanto estudou na Suíça. Vendeu roupa numa loja da cadeia H&M, deu explicações de português, distribuía correio com um amigo, serviu bebidas num bar de um hotel. O bom aproveitamento no curso de Economia em Genebra (que concluiu em 1980) permitiu-lhe, durante um par de anos ser professor assistente na faculdade, o que lhe abriu portas para o ensino também em Portugal.

“Quando cheguei a Portugal era assistente em duas faculdades e o dinheiro que eu tinha não dava para pagar a renda de casa. Para não ter de pedir dinheiro a ninguém fazia anúncios”, confidenciou também Mexia na entrevista à “Única”. A publicidade para televisão pagou-lhe as primeiras contas no regresso a Portugal. “Era uma forma fantástica de ganhar dinheiro”, recordava o gestor.

Foi, entre 1982 e 1995, professor de Economia na Universidade Católica e na Universidade Nova. “Brilhante, bem parecido, bem nascido. Era muito popular entre as estudantes”, recorda uma das pessoas ouvidas pelo Expresso.

A universidade era uma passagem. Havia uma carreira política à espera dele. Em 1986, ainda antes dos 30 anos, foi nomeado adjunto do secretário de Estado do Comércio Externo. Cavaco Silva ainda estava fresco no poder. No Governo trabalhou um par de anos, o suficiente para em 1988 o ministro do Comércio, Joaquim Ferreira do Amaral, o nomear vice-presidente do ICEP, o instituto responsável pela promoção das exportações e captação de investimento externo para Portugal. É neste ponto que Mexia começa a trabalhar de forma relevante a sua ligação ao poder económico. “Era muito competente. Quando trabalhou comigo foi uma das pessoas mais dedicadas à questão do investimento estrangeiro”, recorda Ferreira do Amaral. Em 2004 é convidado por Santana Lopes para ministro das Obras Públicas e Comunicações. “Aceitei o convite em quinze minutos”, diz com um sorriso. Gostou muito da experiência. Voltaria à vida política? “Já me passou. Mas respeito imenso quem opta por esse caminho e assisto com o maior interesse ao que se passa na política. Devia ser mais bem remunerada para atrair pessoas mais bem preparadas”, defende. E aproveita para dizer que tem uma grande admiração por Rui Moreira, o presidente da Câmara do Porto. “É pena que não haja mais pessoas como ele a passar do privado para o público”. E aproveita para dizer: “Temos uma sociedade bastante dual. As elites são omissas e não constituem um bom exemplo. Discutimos pouco o que se passa lá fora”.

Do público para o sector privado

A passagem de António Mexia pelo ICEP foi curta. Foi nessa altura, no final da década de oitenta, que o hoje hipermediático António Mexia começou a ser notícia. Em março desse ano o jovem vice-presidente do ICEP mostrava-se proativo na prospeção de investimento estrangeiro. “É necessária uma certa agressividade quando da apresentação das nossas potencialidades e competitividade na fase de negociação”, dizia ao Expresso. Tinha então 32 anos. Volvidos mais de vinte e cinco anos, Joaquim Ferreira do Amaral não tem dúvidas: Mexia “acaba por ser um farol para uma nova geração de gestores”.

Em dois anos de ICEP teve a oportunidade de acompanhar os dossiês de investimento em Portugal das companhias alemãs Continental (que em 1990 adquiriu a histórica fábrica de pneus Mabor, de Famalicão) e Volkswagen (que em parceria com a Ford criou em 1991 em Palmela a fábrica Autoeuropa). Orgulha-se disso. “Fui que eu trouxe a Autoeuropa para Portugal”, diz com uma pontinha de vaidade. Este é, a par da entrada em bolsa da PT, um dos momentos da sua carreira que destaca.

Nuno Ribeiro da Silva, secretário de Estado da Energia entre 1986 e 1991, admite que Mexia “teve um papel muito importante em todo o processo da Autoeuropa”. O que terá despertado algumas invejas. “Houve muitas fitas por causa do protagonismo que o António Mexia e a equipa do ministro Ferreira do Amaral tiveram na vinda da Volkswagen para Portugal”, recorda Ribeiro da Silva. Uma das personalidades que hoje menos simpatizam com António Mexia é Luís Mira Amaral, ministro da Indústria e Energia entre 1987 e 1991, e que não gostou nada que o vice presidente do ICEP tivesse ficado com os louros.

Dá nas vistas. E em 1990 é nomeado para a administração do BES Investimento, onde passará oito anos. Uma etapa da sua carreira que criou um vínculo relevante ao Grupo Espírito Santo (GES). “Era um ótimo chefe. Dava imensa liberdade. Só exigia resultados. E gostava de remunerar bem a sua equipa”, diz um antigo quadro do BESI da sua equipa. Foi um dos empregos mais estáveis de António Mexia. Esta ligação valeu-lhe ser, por vezes, apontado como sendo um homem do BES. Hoje o gestor admite tristeza com o colapso do Grupo Espírito Santo. “Perder o GES foi mau para Portugal”, diz ao Expresso, lamentando. Há meia dúzia de anos, antes da queda, o gestor estava longe de adivinhar o que aconteceria. “Trabalhei quase 10 anos no BES e é um grupo que revela consistência e modernidade”, afirmava em 2010 na sua entrevista à “Única”. Cinco anos depois o banco ruiria como um castelo de cartas.

Mexia quase não foi chefiado, foi praticamente desde sempre líder. “Tento sempre colocar-me no lugar dos outros, sejam eles quem forem”, diz, para resolver esta falta de experiência. Tem no currículo a presidência de grandes empresas: Transgás, Galp e EDP. “Ser suficiente é horrível”, dizia. Mexia quis ser sempre o melhor.

Os dissabores

Se nas últimas três décadas Mexia colecionou sucessos profissionais, pelo caminho ficam também alguns dissabores. Quando liderou a Galp, teve uma relação conflituosa com o então ministro da Economia, Carlos Tavares, que até hoje deixou marcas. Tavares não concordava com a estratégia da equipa de Mexia para a Galp, na altura a considerar a hipótese de saída da exploração do bloco 33 em Angola. Na guerra de poder no BCP, Mexia colocou-se ao lado de Paulo Teixeira Pinto, e acabou acusado por Jorge Jardim Gonçalves de ter feito parte de um grupo de acionistas que esmagaram o banco.

Mais tarde, quando no Brasil rebentou o escândalo de corrupção do “Mensalão”, Mexia viu o seu nome arrastado para os jornais, por ter recebido, enquanto ministro das Obras Públicas, o consultor brasileiro Marcos Valério (pivô do esquema de corrupção, que teria conseguido a reunião com Mexia por intermédio do então presidente da PT, Miguel Horta e Costa). Em 2009, António Mexia teve de ir a tribunal em Lisboa, testemunhar sobre a reunião com Valério. O processo acabou arquivado.

Momentos. Manuel Pinho e António Mexia trabalharam juntos no GES e voltaram a encontrar-se quando Pinho foi ministro da Economia e Mexia fez crescer a EDP (cima). Com os novos patrões chineses, Mexia, que garante não gostar de champanhe, faz um brinde (ao centro). Com Eduardo Catroga e o primeiro-ministro, António Costa, na cerimónia prémios EDP Solidária 2016, há cerca de um mês

Momentos. Manuel Pinho e António Mexia trabalharam juntos no GES e voltaram a encontrar-se quando Pinho foi ministro da Economia e Mexia fez crescer a EDP (cima). Com os novos patrões chineses, Mexia, que garante não gostar de champanhe, faz um brinde (ao centro). Com Eduardo Catroga e o primeiro-ministro, António Costa, na cerimónia prémios EDP Solidária 2016, há cerca de um mês

sérgio granadeiro

tiago miranda

marcos borga

A relação com Rafael Mora e Nuno Vasconcellos, dono da Ongoing, também levantou alguma polémica. Enquanto ministro, Mexia ajudou a consultora de ambos, a Heidrick & Struggles, a aceder a grandes empresas públicas, a quem passaram a prestar serviços. Tinha trabalhado com eles na Galp. A consultora desenhava grande parte dos salários dos gestores do PSI20, e Rafael Mora tinha sido uma peça-chave no lançamento do “Compromisso Portugal”, movimento no qual Mexia era um dos principais rostos. A Ongoing tornou-se tóxica e colapsou. Mexia já há algum que se tinha afastado.

Houve ainda um contratempo na sua vida privada. O negócio na área do turismo que fez com o amigo, Diogo Vaz Guedes, a Aquapura, um hotel de charme no Douro, correu mal. Foi um investimento mal calculado e a empresa acabou insolvente.

O essencial é ser genuíno

Mas se alguns reveses pontuam o percurso de António Mexia, o gestor, hoje com 58 anos, irradia confiança. Vai ao ginásio com regularidade, é frugal, sente-se jovem e vive o presente. “Deixei de pensar a dez anos”, assegura. Está sempre impecavelmente vestido, e a gravata preta é uma imagem de marca. Trabalha 12 horas por dia. Não lê habitualmente romances, prefere obras de não ficção. Entretém-se com Bach, Mozart, Genesis, Nick Cave, Cinematic Orchestra, Bill Calahan, Benjamin Clementine e “acima de tudo Miles Davis”. A música é uma constante na sua vida. Cultiva-se no cosmopolitismo e é leitor frequente de várias publicações estrangeiras, da “Economist” à “Monocle”, passando pela “Vogue”. Da história, vê inspiração em Churchill e Gandhi. No presente é o traço de Siza, Souto de Moura, Tadao Ando e Amanda Levete que o fazem sonhar com cidades mais elegantes.

Por cá, Mexia vai com gosto aos restaurantes de José Avillez. Quais? “Todos”, diz com um sorriso. Também gosta do chefe Kiko, que vai ter um restaurante na nova sede da EDP.

Lá fora, viaja muito. “As viagens cansam mas oxigenam”, assegura. “Hoje gosto mesmo é da Europa”, nota o gestor. Itália é um dos seus destinos favoritos. Pedimos-lhe que liste algumas cidades que o marcaram. Nova Iorque, Londres, Paris, Roma, Veneza, Istambul, Bombaim. Hoje, nos tempos livres, António Mexia ajuda a mãe a gerir as propriedades agrícolas no Alentejo (tem centenas de hectares em Mora). “Gosto do cheiro a terra”, confidencia. Mas é na Comporta, com a vista no oceano, que se sente melhor. E é à agitação urbana que vai buscar a energia com que vive o quotidiano. Não gosta de falar da sua vida privada. É divorciado. E a filha, Maria, estudante de economia na Católica, e muito boa aluna, é o seu orgulho. Garante que, enquanto gestor, se esforça por estimular o melhor dos outros. “A diversidade é uma questão absolutamente indispensável. O essencial em qualquer relação é ser genuíno”, aponta António Mexia. Dele dizem os mais próximos que é um líder emocional. Já correram rumores de que pretendia dar o salto para a administração de uma empresa estrangeira. Mas é com um certo sentimentalismo que agora enjeita a hipótese. “Hoje não quero estar longe das pessoas de quem gosto”, remata.