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“A recessão no Brasil é profunda mas temporária”

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Lucília Monteiro

Maílson da Nóbrega, 74 anos, diz que o Brasil continua a ser um país promissor e atrativo para os investidores portugueses

Maílson da Nóbrega, economista que fez carreira no Banco do Brasil, ex-ministro da Fazenda (1988/90) do governo de José Sarney, culpa Dilma pela “profunda recessão” em que o Brasil está mergulhado e diz que o novo governo “livrou o país da catástrofe”.

A atual crise não impede que o Brasil continue a ser um país muito promissor, com enormes potencialidades, que beneficia de uma ordem política virtuosa, com uma democracia sólida e estabilidade política e económica. O ex-ministro, agora consultor e com cinco livros publicados, voltou o mês passado a Portugal e, pela primeira vez, viajou pelo Norte, ficando fascinado com a região do Douro. E traçou a sua visão da economia brasileira perante a plateia de convidados da conferência mdstalks, uma iniciativa da MDS, a multinacional de corretagem de seguros da Sonae.

Quando foi ministro (1988/90) teve de negociar um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). O Fundo pode estar de regresso?
Não, a situação externa do Brasil é muito confortável, o nível de reservas internacionais é da ordem dos 370 mil milhões de dólares, superior à dívida externa, que está nos 320 mil milhões. O país é hoje um credor externo. Naquela época, o país estava em default na frente externa. A situação hoje é muito melhor do que em qualquer outra época.

O problema está no défice público?
O problema é a dívida interna. O défice do Estado em 2015 ficou quase nos 11% do produto interno bruto (PIB). É uma evolução terrível. O principal indicador de solvência de um país é a relação entre a dívida e o PIB. Essa relação é de 63% (2015), 70% (2016) e será 80% em 2018. Esse é o problema mais sério, pela evolução explosiva da dívida pública. A dívida era 51% do PIB quando Dilma foi eleita. Um verdadeiro desastre.

Dilma gastou mais do que podia?
Gastou mais do que podia e, pior do que isso, transferiu para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) 10% do PIB para ampliar a capacidade de empréstimos e a concessão de subsídios para impulsionar o crescimento. Mas o Brasil não ficou melhor com essa operação. Pelo contrário, ficou pior.

Qual é então o grande desafio do Brasil?
É encontrar uma solução de âmbito fiscal para reduzir o défice público, primário e nominal, e em seguida iniciar uma trajetória de redução da relação entre a dívida e o PIB que acredito começará a verificar-se em 2019. Até lá, é cruzar os dedos e rezar para que isso não se transforme numa grande crise de confiança.

O governo de Temer tem condições para iniciar a recuperação?
Não, não passa de um governo de transição. Ele livrou o Brasil de uma catástrofe, o país melhorou muito. Mas não reúne condições políticas, capital político. O presidente interino Temer foi eleito com Dilma, não se elegeu com a proposta de fazer reformas. Teve de fazer um acordo com mais de 10 partidos por causa do sistema fragmentado. Ele terá de fazer reformas por imposição da realidade e não por motivação.

O Brasil está na cauda da América Latina, em termos de crescimento.
Se está numa recessão muito profunda, isso decorre de erros graves da Presidente Dilma e das intervenções desastradas que ela fez na economia. A queda acentuada da confiança fez reduzir drasticamente a taxa de investimento e uma retração do consumo. Mas isso é temporário e pode-se alterar rapidamente com a mudança de política e de gestão do país.

Como sair da recessão?
Pelo desempenho das exportações. Estamos a atingir o fundo do poço e o sector exportador será o motor da recuperação já no próximo trimestre. A queda do PIB em 2016 ficaria nos 6%, mas graças às exportações ficará nos 4%. Acredito que no segundo trimestre de 2017 a economia já estará a crescer, terminando o ano com uma subida entre 1% e 1,5%. Um desempenho melhor depende da redução do grau de incerteza e de injetar mais confiança para impulsionar o consumo e o investimento.

A queda acentuada no investimento é outra fonte de preocupações?
Sim, o investimento está terrivelmente baixo. Passou de 20% para 14% do PIB, por causa da quebra de confiança e do aumento das incertezas. Mas o investimento estrangeiro está bem, regista um acumulado atual de 60 mil milhões de dólares, quatro vezes o nosso défice de conta corrente. Nenhuma multinacional relevante se pode dar ao luxo de estar fora do Brasil.