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Salgado até queria mentir aos advogados

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Ricardo Salgado, antigo presidente do Banco Espírito Santo

Luis Barra

Reunião secreta em casa do ex-líder do BES decidiu o que Machado da Cruz ia dizer aos advogados contratados pelo Grupo Espíritob Santo

Na véspera da reunião com a Arendt&Medernach, uma das maiores sociedades de advogados do Luxemburgo, Ricardo Salgado reuniu em sua casa com Francisco Machado da Cruz e João Martins Pereira, para prepararem as respostas a dar durante o encontro. A firma de advogados, que tinha sido contratada pelo Grupo Espírito Santo (GES) para preparar uma possível defesa legal dos administradores, já tinha enviado a priori as perguntas que iria fazer, e aquela reunião, ocorrida no início de 2014, servia para decidir o que o contabilista (Machado da Cruz) e o administrador da Espírito Santo Financial Group (Martins Pereira) iam revelar. Salgado iniciou os trabalhos naquele dia por começar a dizer que a melhor estratégia seria omitir que as contas das Espírito Santo International (ESI) não refletiam todo o passivo real.

No processo, a que o Expresso teve acesso, Francisco Machado da Cruz esclarece que na referida reunião na qual foram analisadas as perguntas previamente fornecidas pela Arendt&Medernach, Salgado não queria que Machado da Cruz revelasse que a ocultação de passivo era conhecida e propositada. Perante este pedido de ex-líder do BES, o contabilista refere que argumentou que “não fazia sentido mentir”, porque se tratava apenas de “relatar um facto aos advogados do Grupo”. Depois de várias insistências, Ricardo Salgado acabaria por concordar em que se contasse a verdade, de acordo com Machado da Cruz e com Martins Pereira.

Foi esta mudança de posição de Salgado e o revelação aos advogados que acabou por fornecer ao Banco de Portugal as primeiras provas de que as contas das ESI tinham sido falsificadas. Perante as revelações, a Arendt&Medernach acabou por avisar os clientes que deviam, ao abrigo da lei luxemburguesa, revelar de imediato às autoridades a situação, uma vez que a partir do momento que tiveram conhecimento do sucedido eram obrigados a fazer essa denúncia. O documento preparado por este escritório de advogados foi revelado pelo Expresso em junho de 2014.

Quando foi responder às questões colocadas pelos advogados contratados para preparar uma eventual defesa do Grupo, Machado da Cruz contextualizou o sucedido com as contas da ESI, de forma coincidente com aquela que forneceu ao Banco de Portugal. Na sua defesa, Ricardo Salgado procurou sustentar que o contabilista tinha assumido exclusiva responsabilidade pela situação das contas da ESI, o que foi considerado descontextualizado pelo Banco de Portugal porque quando Machado da Cruz se afirma como o “único responsável” estava a refere-se ao trabalho feito pela ES Services na manipulação das contas por ordem de Salgado. Como Machado da Cruz viria a referir, isto não significa que outras pessoas não soubessem que desde 2008 nem todo o real passivo da ESI estava refletido.

Na sequência desta falsificação de contas da ESI, o Banco de Portugal condenou Ricardo Salgado a pagar uma coima de €4 milhões, proibindo-o de trabalhar na banca durante dez anos. Em causa esteve um esquema fraudulento de emissão de dívida no valor de €1,3 mil milhões, que foi colocada em clientes do, na época, Banco Espírito Santo (BES). Prestação de informações falsas, violação das regras sobre conflito de interesses e a não implementação, com dolo, de um sistema de gestão de risco sólido e eficaz e de um sistema de informação e comunicação, bem como a prática de atos dolosos de gestão ruinosa foram os ilícitos em causa. Francisco Proença de Carvalho, advogado de Salgado, já anunciou que vai recorrer desta sentença, apresentando recurso “oportunamente”.

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