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Benfica, Sporting e FC Porto perdem dez mil euros por hora

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As SAD dos “três grandes” do futebol fecharam os primeiros nove meses desta época com prejuízos acumulados de 64 milhões de euros. O equivalente a quase 10 mil euros por hora. Venda de Sanches ainda não foi registada neste período e alivia pressão nos encarnados. Mas todos deverão ter de vender jogadores para equilibrar contas

Ainda falta um trimestre para o fim deste 'jogo' e isso, em linguagem futebolística, significa que 'tudo é possível porque ainda há muito tempo para jogar'. Mas o relato do que até agora aconteceu no campo financeiro não deixa grande margem para que os três grandes fujam à tática do costume na hora do aperto: com prejuízos conjuntos de mais de €64 milhões nos primeiros nove meses desta época e passivos que teimam em não encolher, as SAD de Benfica, FC Porto e Sporting terão de recorrer à bola longa para o mercado de transferências, à procura de vendas que permitam equilibrar as contas.

A convicção é do professor de economia do ISEG, António Samagaio, para quem a análise às contas dos três grandes torna "expectável que até ao fim de junho os clubes fechem negócios" de venda de jogadores, para assegurar um fecho do ano positivo. E, sobretudo no caso do FC Porto e do Sporting, "garantir o cumprimento das regras de fair play financeiro da UEFA", que obrigam a que os clubes cumpram o requisito de ter uma gestão equilibrada em break-even no acumulado das três épocas anteriores.

Os relatórios e contas divulgados esta semana pelas sociedades anónimas desportivas (SAD) de Benfica, FC Porto e Sporting não permitem grandes euforias nas bancadas. Prejuízo é o cântico do momento: €9,3 milhões no Benfica, €17,1 milhões no Sporting e €37,9 milhões no FC Porto.

Ao todo são €64,4 milhões de resultado líquido negativo. O que dá uma média de perdas na ordem dos €10 mil por dia nas três SAD. O número impõe respeito e ganha contornos ainda mais negros se comparado com os resultados do período homólogo de 2014/15 (€22,1 milhões de lucro no Sporting; €13,9 milhões de lucro no Benfica; e €7,8 milhões de prejuízo no FC Porto). Um cenário de degradação comum, mas com motores diferentes em cada SAD.

Sanches alivia pressão

No caso do Benfica, a SAD até conseguiu aumentar as suas receitas operacionais de €77,7 milhões para €95,2 milhões nos dois períodos em análise, muito por força do desempenho na Liga dos Campeões. Mas em contraponto registou uma quebra acentuada no encaixe gerado pela alienação de jogadores: €21 milhões nos primeiros nove meses deste ano (maioritariamente pelas vendas de Ivan Cavaleiro e Lima), contra os €58,9 milhões que o clube tinha arrecadado no mesmo período da época 2014/15 (fruto das vendas de jogadores como Enzo, Markovic, Oblak, Cardozo ou Bernardo Silva).

O caráter sazonal desta rubrica não é, no entanto, despiciendo. A Benfica SAD dá aliás nota disso no seu relatório e deixa um exemplo concreto de como um lance apenas pode mudar o rumo de um jogo: a venda de Renato Sanches para o Bayern de Munique – por pelo menos €35 milhões (mais um montante variável dependente da concretização de determinadas cláusulas) – não está ainda contemplada nas contas destes primeiros nove meses, mas o seu registo no relatório do quarto trimestre "permitirá perspetivar uma melhoria significativa do resultado líquido da Benfica SAD" no exercício completo da época 2015/16. E que lhe permitirá, também, sair da posição de falência técnica em que se encontra agora, com um capital próprio negativo na ordem dos €8,1 milhões.

A este propósito, aliás, António Samagaio admite que o encaixe gerado pela venda de Sanches faz com que a SAD do Benfica seja a menos pressionada para vender jogadores no imediato, ou seja, até ao fim do exercício atual. O que não significa que não tenham de fazê-lo durante o defeso, sobretudo atendendo ao elevado passivo que a SAD encarnada continua a apresentar (€427,9 milhões) e à eventual necessidade de fazer face a empréstimos bancários ou outros compromissos financeiros de curto prazo.

A bola (e a receita) que não entra

No Estádio do Dragão o problema das contas desta época assenta de forma substancial na clássica diferença entre 'a bola que entra e a bola que não entra'. Um drama para o adepto e uma chatice para as contas. Sobretudo quando a bola não entra na Liga dos Campeões: as receitas da SAD azul e branca caíram dos 71,3 milhões nos primeiros nove meses da época passada para os 57,3 milhões de euros nos primeiros nove meses desta época, em grande parte devido à redução de 12,2 milhões nos prémios recebidos pela participação nas provas da UEFA (recuaram dos €23,8 milhões para os €11,6 milhões).

Esta quebra traduz a diferença entre chegar aos quartos-de-final da Liga dos Campeões em 2014/15 e nem sequer passar a fase de grupos em 2015/16. A título de comparação, refira-se que o Benfica fez precisamente o trajeto oposto entre as duas épocas na Liga dos Campeões e viu por isso os seus prémios da UEFA aumentarem dos 14,5 milhões em 2014/15 para os 30 milhões nos primeiros nove meses desta época.

A este problema portista acresce ainda, como nota António Samagaio, o facto de as receitas de vendas de jogadores neste período terem caído dos €48,9 milhões nos primeiros três trimestres da época 2014/15 para os €31,1 milhões até março de 2016. "O problema do FC Porto resume-se basicamente a ter mantido a mesma estrutura de custos – acima dos €89 milhões – quando regista uma redução acentuada em duas vertentes de receitas importantes: os prémios da UEFA e a venda de atletas", sintetiza Samagaio, notando que apesar de tudo, o clube portista tem uma situação mais desafogada do que o Benfica ao nível do passivo (€290,8 milhões na SAD azul) e dos capitais próprios (que são positivos em €46 milhões).

Um problema de fundo

Na SAD do Sporting o capital próprio também passou para o negativo – €10,1 milhões –, num período em que o problema central nas contas se resume, no fundo, a um nome. De um fundo: Doyen. Com um valor associado: €14,391 milhões. Ou seja, o valor da provisão relacionada com a indemnização definida pelo Tribunal Arbitral do Desporto no âmbito do litígio que a SAD do Sporting tinha com o fundo Doyen na sequência da transferência do jogador Marcos Rojo para o Manchester United desde agosto de 2014.

Sem esse montante, ainda assim, as contas do Sporting teriam fechado na mesma os primeiros nove meses desta época no vermelho, embora num montante bastante inferior: na ordem dos €2,7 milhões negativos.

Tal como no caso do Benfica e do FC Porto, este registo da SAD leonina fica em parte a dever-se às escassas receitas geradas pela venda de jogadores. Uma situação que a SAD reconhece no seu relatório e contas, assumindo que as contas foram afetadas "também pela decisão do Conselho de Administração de não proceder à alienação de direitos desportivos de atletas considerados fundamentais para o sucesso desportivo e, consequentemente, económico, face à iminência da negociação de contratos de patrocínio e direitos televisivos que justificavam um aumento do investimento na equipa".

Esse "aumento de investimento" em Alvalade traduziu-se, na prática, num acréscimo homólogo dos custos na Sporting SAD de €36,2 milhões para €55,6 milhões (ainda assim os mais reduzidos dos três grandes, face aos €83,2 milhões de custos na SAD do Benfica e €89,5 milhões do FC Porto). Sendo que o aumento verificado na SAD do Sporting representou uma quase duplicação de gastos com pessoal, que subiram dos €18,1 milhões para os €35,7 milhões, resultantes da contratação de novos jogadores e equipa técnica. E entretanto o passivo subiu dos €228,4 milhões para os €245,5 milhões.

"Não é fácil atingir o equilíbrio que se deseja na exploração destas empresas porque para ser competitivo é preciso investir. Mas as situações de passivo enorme e de capital próprio negativo acontecem porque os clubes acumularam prejuízos ao longo de grandes períodos da sua atividade desde que se criaram as SAD", sintetiza António Samagaio.

E se "o que tem permitido aos clubes equilibrar as contas é a venda dos jogadores", Samagaio vê razões reforçadas para que isso aconteça no final desta época. Até porque o professor de economia no ISEG assume as suas reservas em relação ao destino que os clubes darão ao exponencial aumento de receitas de direitos televisivos nos próximos anos, resultantes dos acordos estabelecidos por Benfica e Sporting com a NOS e pelo FC Porto com a MEO. "Depende de sabermos se esse aumento de receita vai ser usado para abater dívida ou se vai ser gasto no apetrechamento dos plantéis".