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FMI enterra polémica sobre agenda neoliberal

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O economista-chefe do Fundo disse esta quinta-feira que o processo de reavaliação das políticas “não alterou fundamentalmente o essencial na nossa abordagem”. Maurice Obstfeld afirma que o artigo publicado na revista de junho do FMI analisando aspetos da agenda neoliberal “tem sido amplamente mal interpretado”

Jorge Nascimento Rodrigues

A polémica internacional em torno de um artigo publicado na revista de junho do Fundo Monetário Internacional (FMI) levou esta quinta-feira o seu economista-chefe, Maurice Obstfeld, a procurar colocar um ponto final, depois de uma reação violenta em editorial do influente jornal britânico “Financial Times” contra o que parecia ser uma crítica explícita à agenda neoliberal vinda de dentro da organização liderada por Christine Lagarde.

A publicação de um artigo de três economistas do Departamento de Investigação do FMI com um titulo chamativo, interrogando-se se o neoliberalismo não terá sido sobrestimado quanto às suas promessas, “não significa uma grande mudança na abordagem do Fundo” e “[o artigo] tem sido amplamente mal interpretado”, disse Obstfeld em entrevista à revista "IMF Survey" publicada hoje online no site da organização.

Evolução, não revolução no pensamento do Fundo

O economista-chefe sublinha que o Fundo tem vindo a desenvolver depois do choque da crise financeira global um processo de reavaliação do seu próprio pensamento face “a novas evidências”. Contudo, “esse processo não alterou fundamentalmente o essencial da nossa abordagem, que é baseada em mercados abertos e competitivos, quadros robustos de política macro, estabilidade financeira e instituições fortes”.

Mas admite que esse processo de aprendizagem com base na experiência trouxe “reflexões importantes para a forma de melhor obter tais resultados de uma forma sustentável”. Obstfeld diz que tal processo de reavaliação é evolutivo e não revolucionário. O "IMF Survey" aproveitou esta deixa para titular a entrevista: “Evolução e não revolução: Repensando a política no FMI”.

Questionado diretamente sobre o artigo “Neoliberalismo: sobrestimado?” que gerou a polémica, o economista-chefe diz que é enganador colocar a questão se o FMI é por ou contra a austeridade. “Ninguém quer austeridade desnecessária. Somos a favor de políticas orçamentais que apoiem o crescimento e a equidade no longo prazo. O que essas políticas poderão ser difere de país para país e de situação para situação”, refere. E, na mesma resposta, sublinha: “Os governos simplesmente têm de viver dentro das suas possibilidades numa perspetiva de longo prazo, ou enfrentar alguma forma de default da dívida, que, normalmente, sai muito cara para os cidadãos, e sobretudo para os mais pobres. Isto é um facto, não é uma posição ideológica”. Mas, a finalizar, não deixa de acentuar: “Por vezes, [a nossa missão de aconselhar governos] exige-nos que reconheçamos situações em que cortes excessivos do orçamento podem ser contraproducentes para o crescimento, a igualdade, e até para as metas de sustentabilidade orçamental”.

Obstfeld não deixou de salientar algumas mensagens políticas, apesar de não ter entrado em detalhe sobre as conclusões específicas retiradas pelos três autores do artigo, um deles o diretor do próprio Departamento de Investigação do FMI.

Há limites para a dor

Em matéria de consolidação orçamental, não deixa de referir que “há obviamente limites para a dor que as economias podem ou devem sustentar; por isso, em casos especialmente difíceis, recomendamos a mudança de perfil da dívida ou a sua redução”. A abordagem que o FMI está a defender para a Grécia, acrescenta.

Quanto à liberalização dos movimentos de capitais, Obstfeld salienta que, já em 2012, o Fundo adotou “uma visão institucional” sobre as condições em que medidas de controlo de capitais podem ser úteis. Aliás, essa nova abordagem baseou-se, precisamente, em trabalho do Departamento de Investigação. O economista-chefe adianta inclusive que o Fundo se interroga, agora, “se e quando a visão institucional deverá ser alterada”.

Os três autores do artigo no cerne da polémica basearam as suas conclusões num estudo empírico abrangendo 53 economias emergentes quanto ao aumento da probabilidade de crises financeiras e em 149 países quanto ao aumento da desigualdade (coeficiente de Gini). Os técnicos do FMI retiraram, a partir de 165 episódios entre 1980 e 2014 num caso e 224 episódios entre 1970 e 2010 noutro caso, quatro ilações“inquietantes”. E concluíram que os benefícios da liberalização dos movimentos de capitais nas economias emergentes e dos processos de consolidação orçamental foram muito exagerados pelos seus defensores. Em vez de promoverem crescimento, tais receitas aumentaram a probabilidade de crises financeiras, fizeram disparar a desigualdade e prejudicaram significativamente o nível e a duração do crescimento económico.

  • Um artigo publicado na revista trimestral do FMI criticando duas receitas neoliberais provocou uma resposta dura do jornal britânico que o considerou um “insulto à inteligência” e uma tentativa da organização de Christine Lagarde de “estar na moda”

  • Especialistas do FMI criticam agenda neoliberal

    Três altos quadros do Fundo verificaram que duas das principais receitas neoliberais aumentaram o risco de crises financeiras e a desigualdade gerando um ciclo negativo que prejudicou significativamente o nível e a duração do crescimento económico. O artigo saiu na edição de junho de uma revista trimestral do FMI já disponível online