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BCE entalado entre a deflação e o populismo

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A equipa de Mario Draghi está reunida esta manhã em Viena. O conselho do banco não deverá alterar os juros, mas deflação, Brexit, Grécia, críticas aos estímulos, e previsões macroeconómicas estarão em foco. Expetativa em relação à conferência de imprensa ao início da tarde

Jorge Nascimento Rodrigues

A inflação na zona euro manteve-se em maio em terreno negativo pelo segundo mês consecutivo e a política de estímulos monetários do Banco Central Europeu (BCE) tem sofrido críticas sistemáticas a partir de alguns governos da moeda única e das forças política que os suportam.

É, neste contexto, que o conselho do BCE está em reunião esta manhã em Viena, devendo divulgar as suas decisões daqui a pouco mais de uma hora. A atenção dos investidores e analistas mudará, depois, para a conferência de imprensa do presidente Mario Draghi às 13h30 (hora de Portugal).

Draghi, congratulou-se, certamente, com o acordo conseguido na reunião do Eurogrupo que afastou o risco de uma nova crise grega no verão, mas o referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia a 23 de junho e as eleições legislativas em Espanha três dias depois são uma dor de cabeça. No dia 21, o Tribunal Constitucional germânico deverá divulgar finalmente a sua posição sobre o programa OMT criado pelo BCE e colocado em causa na Alemanha. Os analistas não esperam um “chumbo”, mas as condicionalidades que a decisão possa colocar ao Parlamento alemão em matéria de compra de dívida pública pelo BCE serão escrutinadas pelos investidores.

As mais recentes sondagens divulgadas no Reino Unido apontam para um empate técnico entre os partidários da permanência na União Europeia e os que advogam a saída (Brexit). Para lançar ainda mais lenha para a fogueira, Donal Trump, o presumível candidato do Partido Republicano às eleições presidenciais norte-americanas, anunciou que se deslocará ao Reino Unido no dia seguinte às eleições. Trump tem apoiado o Brexit.

Os analistas não esperam que a equipa de Draghi dê já hoje luz verde ao uso como colateral pelos bancos gregos da dívida soberana helénica que têm em carteira, enquanto o primeiro exame ao resgate não seja efetivamente encerrado pelo Eurogrupo. A atenção politica deverá, por isso, deslocar-se para os eventos políticos que vão marcar junho.

O perigo do populismo

A derrota em maio nas eleições presidenciais por apenas 32 mil votos do candidato de extrema direita Norbert Hofer na Áustria deve ter provocado um alívio ao presidente do BCE e à sua equipa que, nas últimas semanas, não têm perdido uma oportunidade para atacar o populismo, à direita e à esquerda, crescente na União Europeia e na zona euro.

O próprio relatório do BCE sobre estabilidade financeira, divulgado no mês passado, acentua os riscos políticos derivados de “um crescente apoio a partidos políticos populistas que são encarados como menos reformistas, podendo gerar potencialmente um atraso nas reformas necessárias no plano orçamental e estrutural, provocando pressões renovadas nos países mais vulneráveis [do euro]”.

O BCE não quer ser surpreendido com choques adversos vindos dos resultados do referendo no Reino Unido e nas eleições espanholas. A resposta a esse populismo dever-se-ia combater com uma articulação tripla entre a política monetária, a orçamental e a de reformas estruturais, insistiram no final de maio Draghi, Peter Praet – membro do comité executivo e economista-chefe do BCE -, e os governadores dos Bancos centrais de França e Holanda.

O presidente do BCE tem acusado alguns governos da zona euro de sobrecarregarem a política monetária com o fardo de combater quase exclusivamente o crescimento medíocre e o risco de deflação, e de não fazerem o seu papel, ainda por cima elevando o tom de crítica à política monetária de estímulos. As novas previsões económicas dos especialistas do Eurosistema, que serão divulgadas esta quinta-feira, deverão revelar se há uma revisão em baixa da taxa de crescimento do PIB na zona euro. Em março, a previsão era de 1,4% em 2016, de 1,7% no ano seguinte e de 1,8% nos dois anos posteriores.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) salientou nas perspetivas divulgadas esta semana que os países com folga orçamental devem impulsionar a economia da zona euro. A mesma mensagem tem sido repetida pelo Fundo Monetário Internacional num apelo direto a que a Alemanha e outras economias do centro do euro com excedentes externos deem um impulso orçamental. Mas os apelos têm caído em saco roto.

Charada em junho

Na mira das críticas indiretas do BCE tem estado o ministro das Finanças alemão que, em abril, acusou a política monetária expansionista, com o seu impacto negativo em alguns sectores (nomeadamente os aforradores alemães e os fundos de pensões), de favorecer a ascensão do populismo no seu país.

Wolfgang Schäuble deu, então, cobertura política a uma oposição dentro e fora do BCE contra nomeadamente as decisões de taxas negativas sobre os depósitos (que penalizam fortemente os bancos) e taxas diretoras em 0% que penalizam a poupança. Penalizações a sectores sensíveis do eleitorado nos países do centro da zona euro que não são compensadas por êxitos do BCE na obtenção das suas metas.

A inflação na zona euro manteve-se em terreno negativo em maio, registando -0,1%, e as previsões económicas dos técnicos do BCE em março apontavam para uma taxa anual de 0,1% em 2016, bem longe da meta de abaixo mas próximo de 2%. Aguarda-se a nova previsão a divulgar hoje.

Para o “The Wall Street Journal”, o BCE enfrenta uma “charada” em junho. Mario Draghi está confrontado entre dar a entender que o quadro de taxas de juro poderá baixar ainda mais na tentativa de prosseguir os estímulos monetários esperando que a economia real na zona euro descole, e o risco dessa perspetiva de mais quantitative easing (na expressão inglesa para este tipo de programas de estímulos monetários) levar os bancos a não correrem à segunda edição da linha de financiamento condicionada conhecida pelo acrónimo TLTRO cujo primeiro leilão se realizará a 22 de junho.

Constantin Gurdgiev, atualmente professor de Finanças no Middleburry Institute of International Studies, em Monterrey, na Califórnia, acrescenta que, também, não é claro que a economia real vá ganhar com as novas medidas que entram em vigor em junho. A segunda série da linha TLTRO irá traduzir-se por mais financiamento a grandes empresas e cotadas em bolsa, sobretudo apoiando investimento já planeado, e não novos investimentos por parte do resto da economia real ou de sectores empreendedores, aponta o dedo Gurdgiev. O arranque em junho do programa de compra pelo BCE de dívida obrigacionista de empresas não financeiras irá reanimar a especulação nesta área, reforça o mesmo economista.

Como sublinhava, esta semana, o Deutsche Welle (DW) alemão, nada garante que o novo programa virado para a injeção financeira em empresas não se traduza por mais aplicações financeiras por parte destas, em vez de investimento. Como se refere no artigo da cadeia pública alemã, “o que falta é uma boa razão para o fazer”, pois há falta “do que se chama de procura agregada, no jargão económico”. O DW recorda que o programa de compra de dívida pública pelo BCE no mercado secundário, desde março de 2015, se saldou por juros historicamente baixos da dívida pública (no caso da Alemanha, negativos em média no conjunto de toda a dívida obrigacionista) e por um custo baixo de financiamento do endividamento para muitas economias, mas que isso não se traduziu por impulso orçamental, mesmo nos países com folga nessa área. Espera-se que Draghi dê mais explicações sobre o novo programa de compras de ativos empresariais.

  • Os juros das Obrigações do Tesouro português subiram na abertura desta quinta-feira para 3,15%. O movimento em alta abrange Espanha, Irlanda e Itália. O Banco Central Europeu reúne-se em Viena. Expetativa sobre a Grécia. Não está garantido que Draghi dê luz verde aos bancos gregos para voltarem a usar a dívida helénica como colateral