Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

FMI diz que dívida grega é “altamente insustentável” e quer que Eurogrupo quantifique as promessas

  • 333

Em Washington, a responsável de comunicação do Fundo sublinhou a mudança europeia ao aceitar mexidas na dívida grega a curto e médio prazo, mas o FMI só aprovará o seu envolvimento no terceiro resgate a Atenas depois das linhas gerais de alívio propostas pelo Eurogrupo serem quantificadas e avaliadas se são suficientes

Jorge Nascimento Rodrigues

O Fundo Monetário Internacional (FMI) só vai aprovar o seu envolvimento financeiro no terceiro resgate à Grécia se as medidas de alívio da dívida grega propostas em linhas gerais pelo Eurogrupo forem devidamente quantificadas e passarem numa análise de sustentabilidade da dívida helénica antes da reunião da direção presidida por Christine Lagarde até final deste ano.

“O alívio da dívida [grega] está agora firmemente colocado na agenda. Os nossos parceiros europeus e todos os outros envolvidos reconhecem agora que a dívida grega é insustentável, altamente insustentável, e que um alívio é indispensável”, referiu esta quarta-feira em Washington Simonetta Nardin, responsável pelas relações com os meios de comunicação do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O FMI considera uma vitória sua este passo dado pelo Eurogrupo na reunião que terminou esta quarta-feira de madrugada em Bruxelas. Os ministros das Finanças dos 19 membros do euro aceitaram vários pontos capitais colocados pelo Fundo. Quatro pontos têm sido sublinhados. Os credores oficiais europeus aceitam, agora, que continua a haver um problema com a sustentabilidade da dívida grega e que é necessário, de novo, mexer nela, ainda que sem um corte nominal no seu valor presente; adotaram o uso de tetos para as necessidades brutas de financiamento em relação ao PIB, o que limita o esforço anual exigido no pagamento da dívida; passaram a analisar um horizonte temporal muito longo; e introduziram um mecanismo de contingência a ser ativado em caso de derrapagens que obriguem a mais medidas de alivio da dívida.

Simonetta Nardin foi mesmo mais longe na conferência de imprensa em Washington acrescentando que acha que o Eurogrupo “começa também a aceitar mais realismo nos pressupostos”. Por “mais realismo”, o Fundo entende que os europeus poderão recuar na questão das metas impostas para o excedente orçamental primário grego. A responsável do FMI reafirmou que não está a ver a sua organização a aceitar um excedente primário em 2018 superior a 1,5% do PIB. “Não seria credível. E poderão ver que não há nada no comunicado do Eurogrupo que diga que 3,5% [do PIB] deva ser usado na análise de sustentabilidade da dívida. Por isso, também aqui, a Europa está a mover-se”, disse Nardin, que reafirmou que “queremos assegurar-vos que não pretendemos grandes excedentes primários”. Por isso, voltarão à carga com o assunto, pois já consideraram publicamente que metas de 3,5% são irrealistas e contraproducentes.

Sem quantificação do alívio e sua avaliação, FMI não discute nova ajuda à Grécia

O FMI reconhece que fez uma concessão ao Eurogrupo quanto ao calendário do alívio da dívida grega. “Concedemos num ponto. Em Bruxelas, o FMI pediu que o alívio da dívida fosse aprovado antecipadamente antes de submetermos [o envolvimento no terceiro resgate] à nossa direção. Aceitámos que não fosse assim, aceitámos e apoiámos que deverá ser contingente, em função da Grécia atingir as metas durante o programa de três anos. E que [o plano de alívio da dívida] deverá ser totalmente entregue no final do período do programa [de resgate]”, disse a responsável, repetindo o reconhecimento dessa “grande concessão” logo feito por Poul Thomsen, o diretor do Fundo para a Europa, na conferência de imprensa que se seguiu ao Eurogrupo já na madrugada desta quarta-feira. O FMI aceitou que o grosso do alívio da dívida se materialize depois do final do programa de resgate em agosto de 2018.

Thomsen participou nas duas últimas reuniões do Eurogrupo – a 9 de maio e esta terça-feira – em representação do FMI, face à notada ausência da diretora-geral Christine Lagarde. O responsável para a Europa fez a despesa do recuo do Fundo para “acomodar” o calendário eleitoral alemão que tem eleições legislativas no próximo ano provavelmente em setembro. O analista norte-americano Marc Chandler sublinha que o FMI procedeu a “um recuo estratégico” para evitar ser culpado pela precipitação de uma crise grega neste verão que já por si estará marcado, na Europa, pelos potenciais choques oriundos do referendo no Reino Unido a 23 de junho e dos resultados das eleições legislativas em Espanha a 26 de junho. Mas, como sublinha o analista grego Yiannis Mouzakis, no site Macropolis, o ministro das Finanças alemão Wolfgang Schäuble recuou no seu propósito de não querer ouvir falar em alívio da dívida grega antes de 2023!

A concessão feita pelo FMI veio, no entanto, com uma exigência. Thomsen já o havia referido e Nardin repetiu-a com mais clareza ainda. “Algumas das medidas que estão listadas no comunicado do Eurogrupo não estão quantificadas” e “por isso, temos de ter uma quantificação no quadro de uma discussão que nos assegure que o que a Europa tem em mente garantirá a sustentabilidade da dívida [grega]”, disse aquela responsável.

Vai ter de haver mais “conversação sobre a dívida” grega até final do ano. Ou seja, depois de um verão em que o tema Grécia vai sair da agenda, o assunto regressará provavelmente coincidindo com o segundo exame ao andamento do resgate. “Precisamos de nos sentar e quantificar e ter uma conversa com os nossos parceiros europeus sobre se as medidas [que o Eurogrupo elenca muito genericamente], depois de quantificadas, são suficientes para restaurar a sustentabilidade da dívida no final do período do programa [em 2018]”, referiu Simonetta Nardin, que acrescentou que sem essa quantificação e avaliação positiva a equipa que está a acompanhar o resgate grego não apresentará à direção do FMI qualquer proposta.

“Se chegarmos à conclusão que tais medidas, mesmo quando quantificadas, não produzem o alívio de dívida necessário, então, terá de haver outra reunião do Eurogrupo para discutir o que fazer antes de submetermos a questão à nossa direção”, concluiu a responsável.