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Portugal importa vinho para exportar

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“A nossa missão é trabalhar o valor”, diz Jorge Monteiro, presidente da Viniportugal

Rui Duarte Silva

As compras ao exterior duplicaram em sete anos e as vendas no mercado internacional batem recordes

Não há números rigorosos para apresentar, mas é uma realidade: No valor recorde de €737,3 milhões relativo às exportações portuguesas de vinho em 2015 há uma fatia que foi previamente importada para vender ao exterior. “Portugal está a importar vinhos baratos, a granel, sobretudo de Espanha, para satisfazer algumas necessidades”, afirma Jorge Monteiro, presidente da Viniportugal, a associação responsável pela promoção dos vinhos portugueses e pela valorização da imagem da marca Wines of Portugal.

Nas suas contas, “estamos a produzir 6,2 milhões de hectolitros, mas consumimos 4,2 milhões e exportamos 2,7 milhões, o que soma 6,9 milhões e significa que temos uma capacidade de colocação no mercado acima da nossa capacidade de produção”.

Olhando para os números da importação, vemos que duplicaram entre 2007 e 2014, para os €125,8 milhões, tendo caído 4,5% no ano passado, a par da quebra de 24% nas exportações para Angola, um mercado complexo que compra os vinhos portugueses mais caros e os mais baratos. “É verdade que importamos vinhos engarrafados para consumo interno, mas a maior parte será a granel”, sublinha Jorge Monteiro. E se as estatísticas não revelam diretamente se esse vinho é consumido no país ou exportado, uma fatia será necessariamente destinada à exportação, como vinho da União Europeia.

Mas, para lá desta constatação, o foco do trabalho da Viniportugal “é trabalhar o valor dos vinhos portugueses”, mostrar ao mundo que “temos cada vez mais vinhos de maior qualidade e já não fazemos bons vinhos só de vez em quando”. É uma missão que pode ser traduzida em números. Em 2015, as exportações portuguesas de vinho crescerem 1,6% em valor, para atingirem o sexto recorde consecutivo, e caíram 1,2% em volume, com o preço médio por litro a subir 2,8%, para €2,63.

No balanço de 2015, o destaque vai para Angola, com uma queda de 24%, para €72,5 milhões. “Era o nosso maior mercado. Perdemos aqui €23 milhões, mas conseguimos ganhar €12 milhões no total das exportações”, refere o presidente da Viniportugal, admitindo que neste destino “o pior está para vir”. A queda nos primeiros meses do ano é de 66%” e Angola já está em 10º lugar no ranking exportador.

A cair 24% esteve, também, a Rússia, mas este é um destino com pouco peso nas exportações (€1,6 milhões). A Alemanha (€43 milhões) perdeu 7% em valor e 11% em volume, uma descida considerada “circunstancial”, até porque o ano começou a crescer 6%. Já o Brasil, que em 2015 ainda ganhou 0,1% (€28,7 milhões), é “mais uma grande preocupação”.

China cresce 48%

Quando algumas torneiras exportadoras começam a fechar, a solução é ir abrindo novas. É o que está a acontecer em destinos como a China, com um crescimento 48% (€14,2 milhões), Coreia do Sul (38%), Japão (12%, com uma subida do preço médio por litro de 6%, para €3,69) ou Polónia (22%).

Uma das tendências na estratégia da Viniportugal é o regresso à Europa, onde as exportações de vinhos portugueses estão em alta em várias frentes, da Noruega (13%) à Suécia (6%) ou ao Reino Unido (7%, com o preço médio a crescer 10%, para €4,02). Outra, aposta na frente americana. Os vinhos portugueses venderam mais 16% nos EUA (€68,9 milhões), agora o maior mercado do vinho engarrafado, com um preço médio por litro de €3, e 15% no Canadá (€39,9 milhões).

Com um orçamento anual na ordem dos €7 milhões para a promoção dos vinhos portugueses, a Viniportugal consagra aos EUA mais de 20% deste valor e apontou para o Brasil, Canadá, China, Angola, Reino Unido e Alemanha como alvos prioritários este ano, mas em 2017 deverá reforçar o investimento na procura de torneiras alternativas. “Vamos tirar dinheiro a Angola e Brasil para aplicar mais no Japão, Coreia do Sul, EUA, Canadá”, adianta Jorge Monteiro. O objetivo é “não abandonar os mercados difíceis, mas realinhar opções, apostar nos destinos que têm tido mais crescimento e naqueles onde sentimos maior potencial”, justifica.

No mercado nacional, avaliado em €676 milhões pela empresa de estudos de mercado Nielsen, uma das apostas da Viniportugal continua a ser o concurso Vinhos de Portugal, que esta semana registou uma participação recorde de 1.350 vinhos de 383 produtores.