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Monte alentejano renasce como hotel de cinco estrelas

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REABILITAÇÃO. A secular casa agrícola deu lugar ao hotel com 40 quartos, sem se fazer edificação nova

mário joão

Recuperada por Souto de Moura, a herdade São Lourenço do Barrocal, na zona de Alqueva, conta a história da família proprietária, mas com os olhos postos nas “próximas gerações”

Reviver o passado em São Lourenço do Barrocal? É mais olhar o futuro, na perspetiva de José António Sousa Uva, que há catorze anos se lançou num projeto destinado a dar vida nova à herdade da família no concelho de Reguengos de Monsaraz, onde representa a oitava geração.

“Não se trata de brincar às herdades e ao campo, mas pensar verdadeiramente o que deve ser um projeto agrícola e turístico a trabalhar em conjunto nos dias de hoje e recriando todo este património antigo que faz parte do nosso legado”, defende José António Sousa Uva, frisando que ser esta também “a grande herança do Alentejo e muito por onde passa o seu futuro, que não é viver agarrado ao passado mas pensar o que faz mais sentido para as próximas gerações”.

NOVA HISTÓRIA Artesãos locais contribuíram para a decoração dos quartos, onde foram utilizados móveis e objetos antigos da herdade

NOVA HISTÓRIA Artesãos locais contribuíram para a decoração dos quartos, onde foram utilizados móveis e objetos antigos da herdade

mário joão

O hotel inaugurado em março, que é o primeiro de cinco estrelas no concelho de Reguengos de Monsaraz, representa a primeira fase do projeto turístico São Lourenço do Barrocal, que envolveu a recuperação do secular monte alentejano que estava em ruínas.

O amplo edifício da casa agrícola foi todo reabilitado, num projeto assinado pelo arquiteto Eduardo Souto de Moura, albergando agora um hotel com 40 quartos (entre estes, 16 a funcionar em casas contíguas da herdade), além de um spa, adega de vinhos, restaurante, bar e uma loja de produtos regionais. Os investimentos nesta fase inicial do projeto ascenderam a 9 milhões de euros, dos quais 5,5 milhões apoiados por fundos comunitários.

RESTAURANTE A horta biolócica é o próximo projeto a alimentar um conceito gastronómico “da quinta para a mesa”

RESTAURANTE A horta biolócica é o próximo projeto a alimentar um conceito gastronómico “da quinta para a mesa”

mário joão

A prioridade da recuperação do monte foi fazer uma “reabilitação honesta”, num “espírito de recriar a raiz das coisas” e recorrendo o mais possível a “materiais tradicionais usados na construção há duzentos anos”, como adianta o promotor. Para a decoração dos interiores, foram feitas “parcerias com largas dezenas de artesãos”, nas áreas de carpintaria, têxteis ou olaria, passando também pelos tapetes de Arraiolos.

A decoração procurou sobretudo “dar vida a imensas peças da antiga casa de família, coisas que estavam esquecidas e que são o legado da própria herdade”, segundo frisa Sousa Uva, apontando inúmeros objetos distribuídos pelos móveis e pelas paredes do hotel. “Isto são documentos contabilísticos da herdade do século passado, esta é a receita de perdiz de escabeche escrita pela mão da minha bisavó”, exemplifica.

O PROMOTOR José António Sousa Uva no balcão de receção do hotel, cuja decoração é marcada por objetos e retratos de família

O PROMOTOR José António Sousa Uva no balcão de receção do hotel, cuja decoração é marcada por objetos e retratos de família

mário joão

“Este projeto é muito mais que a reabilitação de um conjunto de edifícios. Conta a história de uma família que tem aqui as suas raízes há muito tempo, e é orgulhosamente alentejana, mas que se propõe-se também ajudar a que esta zona de Monsaraz seja um destino reconhecido no estrangeiro”, salienta José António Sousa Uva.

A próxima fase do projeto São Lourenço do Barrocal vai passar pelo turismo residencial, envolvendo a venda de lotes para construção de casas particulares. Na herdade com 780 hectares já foram infraestruturados 25 lotes destinados a moradias privadas, cujos preços serão de 300 mil euros cada.

“Faz sentido que uma herdade como esta se abra a outras famílias, e para que outros também possam ter uma casa no campo e criar aqui as suas raízes”, sustenta o promotor do projeto.

SPA Uma outra utilização no edifício onde funcionou um antigo lagar de azeite

SPA Uma outra utilização no edifício onde funcionou um antigo lagar de azeite

mário joão

Do lado agrícola, o próximo objetivo passa por desenvolver uma horta biológica, ocupando um espaço com cerca cerca de um hectare e num projeto apoiado pelo programa Proder (envolvendo investimentos de 100 mil euros). Além da venda de produtos frescos a terceiros, o principal foco consiste em abastecer de hortícolas, frutas e ervas aromáticas o restaurante da herdade, onde já se produz vinho e azeite com a marca São Lourenço do Barrocal.

Trabalhar a “ligação entre o Alentejo e Lisboa”

“A horta biológica é o grande projeto que vamos agora fazer, e que terá capacidade para abastecer o restaurante do hotel o ano todo”, avança o responsável do projeto. “A ideia aqui sempre foi conseguir fazer um restaurante com o conceito da quinta para a mesa, enraizado no lugar e com conhecimento direto de quem produz”.

LOJA Vinho e azeite da herdade, além de artigos selecionados de produtores locais, estão à venda no espaço junto ao hotel

LOJA Vinho e azeite da herdade, além de artigos selecionados de produtores locais, estão à venda no espaço junto ao hotel

mário joão

Na visão de José António Sousa Uva, o crescimento de Lisboa como destino turístico também dá perspetivas positivas ao Alentejo, sendo este um dos pilares em que deve assentar a promoção da região. “Há um triângulo muito interessante a trabalhar, e tem a ver com a ligação entre Lisboa e o Alentejo - quer o Alentejo agrícola, associado ao vinho e ao campo, quer o Alentejo de praia”, defende o responsável do projeto São Lourenço do Barrocal. “O Alentejo deve ser promovido dessa forma, como território vasto e diverso que é, e também na vertente de proximidade com Lisboa, pois os turistas sentem cada vez mais curiosidade em saber o que se passa além de Lisboa”.

ALQUEVA À VISTA A paisagem do Grande Lago é um dos trunfos da herdade com 780 hectares

ALQUEVA À VISTA A paisagem do Grande Lago é um dos trunfos da herdade com 780 hectares

mário joão

Na herdade junto à barragem de Alqueva, há espaço de sobra para avançar com a extensão do projeto turístico, mas o objetivo não passa por construir mais edifícios além das estruturas existentes. “Com a abertura do hotel não fizemos edificações novas nem temos tenções de o fazer”, garante o promotor de São Lourenço do Barrocal, referindo que “a forma como formos avançado para as outras fases vai depender de como evoluir o projeto, há que dar passos seguros”.
“É um projeto que nunca vai ter fim, tem de ser pensado no horizonte de uma geração. E uma herdade como estas está sempre em trabalho contínuo, tanto do lado agrícola como turístico”, conclui José António Sousa Uva.