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Moçambique: entusiasmo empresarial espera para ver

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Maputo

GRANT NEUENBURG/ Reuters

Empresários manifestam preocupação crescente, mas os grandes investimentos seguem sem percalços. Construtoras sofrem

Jorge Costa, ex-secretário de Estado das Obras Públicas, divide-se entre o Porto e Maputo, na qualidade de gestor da Grow Engineering, um dos braços do grupo DVM. É da capital moçambicana que traça para o Expresso o retrato desolador do país. “A economia está parada, a desvalorização cambial é uma ameaça séria e as divisas começam a escassear”, regista. Mas acredita que “esta fase de bloqueio” seja de transição “porque o país tem todas as condições para correr bem”. Quem “opera no mercado deve ter músculo e paciência para não desistir ao primeiro revés”, resistindo até que o investimento estrangeiro em grandes projetos “conceda um novo impulso ao país”.

A incerteza em que o país mergulhou é um balde de água que esfria o entusiasmo das 250 empresas com operações diretas no país e a redução do consumo afeta o desempenho da comunidade exportadora. Após o recorde de 2015 (€355 milhões), a exportação regista este ano uma quebra de 35%. Moçambique desce de 19º para 24º lugar na tabela dos principais destinos.

Paulo Nunes de Almeida, presidente da Associação Empresarial de Portugal, regista “uma crescente preocupação e inquietude dos empresários que lidam com o mercado” e o receio de que o entusiasmo ceda lugar à deceção. A adesão das empresas à FACIM-Feira Internacional de Maputo servirá de teste ao sentimento dos exportadores. A Fundação AIP, organizadora do pavilhão português, refere que “as inscrições seguem a bom ritmo”, prevendo que a adesão (40 empresas) seja superior à da última edição.

Investimentos firmes

Quem não se intimida com o ambiente adverso é o consórcio têxtil (Mundotêxtil, Crispim Abreu e Mundifios), promotor do projeto agroindustrial da MCM-Mozambique Cotton Manufacturers. O novo investimento de €30 milhões, que triplicará os atuais 200 postos de trabalho, “arrancará muito em breve”, depois de algum atraso devido “à montagem do financiamento e incerteza do país”, diz José Pinheiro, administrador da MCM. “É um projeto exportador que não depende do mercado interno. O novo investimento é um sinal de confiança no negócio e na estabilidade do país”, acrescenta. Depois da cultura de algodão e produção de fio, a MCM instala tinturaria, tecelagem e confeção.

No investimento, o campeão é a The Navigator Company (ex-Portucel), que não vacila na execução do maior projeto florestal integrado de produção de pasta de papel e energia, orçado em €2000 milhões, até 2023. Após a instalação da base florestal (356 mil hectares), segue-se uma fábrica para transformar eucalipto em pasta de papel, com um impacto de €1000 milhões na balança exportadora de Moçambique.

Parceiros no Banco Único, Américo Amorim e Visabeira são investidores históricos e com uma fé inabalável no futuro do país. A Visabeira é dos raros grupos que faturam mais de €100 milhões, beneficiando de um conglomerado empresarial diversificado que vai da rede de hotéis Girassol à TV Cabo ou construção. A ofensiva mais recente de Américo Amorim verificou-se na agricultura com o projeto na Zambézia (19 mil hectares), destinado à produção de soja, arroz e feijão. Na energia, Amorim conta com a exposição da Galp, parceira (10%) da ENI na exploração de um dos blocos da bacia do Rovuma e uma rede de distribuição de 34 postos de abastecimento.

O entusiasmo contaminou depois indústrias como a das bebidas. A Sumol+Compal deu o mote, comprando uma base fabril a pensar no abastecimento dos países da África Austral e a Unicer evoluiu para uma distribuidora própria, através de uma parceria comercial.

Moçambique tornou-se um mercado natural para as grandes construtoras que, tal como a banca, logo inscreveram o país na sua cruzada externa. A indústria não escapa ilesa da sova que a economia está a levar. Os efeitos refletem-se já na redução de empreitadas, impedindo a reposição da carteira, depois da prosperidade de 2014/15 (€700 milhões no biénio).

Com os cofres do Estado vazios, os novos concursos “escasseiam e a execução das empreitadas pode sofrer atrasos”, admite Jorge Costa. A Somague, após a conclusão de dois troços do corredor ferroviário de Nacala, teve de dispensar pessoal.

A sucursal da Mota-Engil é o líder sectorial (13ª maior empresa do país) e conta com uma carteira com 50 obras. Uma boa parte delas, como a construção do maior hotel moçambicano (Nampula), o maior edifício de Maputo ou a reabilitação de 256 quilómetros de via férrea na província do Niassa terminam em 2016.

Ricardo Pedrosa Gomes, presidente da associação sectorial (AECOPS), reconhece que “as expectativas geradas há dois anos ficaram adiadas, à espera que o projeto do gás do Rovuma arranque”.

Pela sua escala, o país está longe da relevância de Angola, pelo que os efeitos de um colapso serão mais acomodáveis.

Quando decidiu estrear-se no exterior, a construtora Lucios destoou da tendência geral e optou por Moçambique, atraída pelo “funcionamento saudável do mercado em que pontua a iniciativa privada”. Cinco anos depois, “a operação corre bem, mas a confiança dos investidores está afetada”, diz o administrador Filipe Azevedo. O principal risco “reside nos problemas políticos, na política cambial e no adiamento dos grandes projetos”. A construtora está para ficar e prevê manter este ano a produção de 2015 (€13 milhões).