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Draghi diz que não dá ouvidos aos políticos

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O presidente do BCE reafirma, em entrevista ao jornal alemão, que o banco central é independente dos governos, incluindo o alemão. Diz que seria antidemocrático os banqueiros centrais ditarem aos governantes da zona euro o que devem fazer

Jorge Nascimento Rodrigues

“O BCE obedece à lei, não aos políticos”, voltou a repetir Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), em entrevista ao jornal alemão “Bild” publicada esta quinta-feira, quando confrontado com críticas recentes do ministro das Finanças germânico Wolfgang Schäuble. A frase ficou no ouvido dos jornalistas e dos analistas na conferência de imprensa que se seguiu à última reunião de política monetária do BCE no dia 21. Agora, nesta entrevista ao “Bild”, o italiano acrescentou um ponto, recordando uma frase lapidar de um dos seus antecessores no cargo: “É normal para os políticos comentarem as nossas [do BCE] ações. Mas não seria normal se os ouvíssemos”.

O presidente do BCE volta a ser contundente quando perguntado se a política monetária de “dinheiro barato” não está a permitir a países como a França e a Itália “fugir” à imposição de reformas impopulares necessárias: “Não acho convincente o argumento de que temos de manter a pressão. Não é a nossa tarefa. Não seria democrático para um banco central ditar a governos eleitos o que deve fazer”.

A ilusão nominal

Draghi critica ainda a ilusão “nominal” em torno dos juros cada vez mais baixos que os aforradores alemães (e noutros países do euro) estão a receber pelas suas poupanças em virtude da política monetária do BCE. “O que conta é o que se ganha em termos reais, ou seja, descontada a inflação nos juros. E [em termos reais] o que se ganha hoje é superior ao que se ganhava, em termos médios, nos anos 1990. Na altura, talvez recebesse um juro mais elevado na sua conta de poupança (Sparbuch), mas, frequentemente, havia uma taxa de inflação mais elevada. Por isso, o juro parecia bom à primeira vista, mas o retorno real era, de facto, muito mais baixo”.

E dá uma recomendação: “Não têm de deixar o dinheiro nas poupanças, podem investi-lo de outro modo”. “Existem alternativas ao investimento na poupança”, rematou, citando o caso norte-americano, em que os aforradores enfrentaram sete anos de taxas de juro da Reserva Federal em 0%.

É preciso paciência

Considerou “errada” a ideia de que a política monetária seguida pelo BCE não esteja a surtir efeito. “A nossa política está a funcionar, mas temos de ser pacientes. A confiança dos investidores ainda não foi totalmente restaurada”, disse, para depois sublinhar: “A economia da zona euro tem crescido desde há dois anos mês a mês, os bancos estão a emprestar e o desemprego não para de descer. Entretanto, os países do euro são, agora, capazes de comprar mais exportações alemãs, o que tem parcialmente compensado o declínio no comércio com a China. Mas é um processo lento, porque a crise foi mais grave do que qualquer outra que tivemos desde a Segunda Guerra Mundial”.