Siga-nos

Perfil

Economia

Economia

Portugal é o mais expansionista do euro

  • 333

Impulso orçamental português é o maior no período 2015-2016. Este ano é batido pela Áustria, Estónia e Alemanha

Quando se fala em impulso orçamental está a referir-se o empurrão ou travão que a política orçamental implica para o andamento da economia. A forma mais normal de o fazer é recorrer ao sempre polémico saldo orçamental estrutural, ou seja, o saldo corrigido dos efeitos do ciclo económico e de medidas extraordinárias. Como elimina o efeito do crescimento no défice, permite aferir com maior precisão qual é a dimensão das medidas subjacentes à política orçamental. Quando o saldo estrutural melhora, o Governo está a apertar o cinto. Quando piora, está a ser expansionista.

Nesta avaliação, Portugal é o país da zona euro mais expansionista no período 2015 e 2016. Segundo as últimas estimativas para o saldo estrutural divulgadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) na semana passada, Portugal tem um agravamento de 0,8 pontos percentuais do PIB potencial, a maior parte aliás no ano passado quando foi de 0,5 (ver gráfico). Olhando apenas para este ano, no entanto, a política portuguesa não é a mais expansionista. É ultrapassada pela Áustria, Estónia e Alemanha.

Berlim é, de resto, um dos alvos principais das palavras do FMI quando se trata de apelar à necessidade de estimular o crescimento, nomeadamente quando olha para a Europa. Uma das conclusões do Comité Internacional Monetário e Financeiro do FMI, que se reuniu no fim de semana passado em Washington onde decorreram os encontros de primavera do Fundo e do Banco Mundial, foi precisamente que a economia mundial necessita de uma “agenda global” que impulsione o crescimento, que faça “um uso flexível da política orçamental” e da despesa pública, “dando prioridade a gastos em investimentos de alta qualidade”.

A diretora-geral, Christine Lagarde, não mencionou explicitamente os governos que resistem a esse “impulso orçamental”, mas disse que “alguns” países terão de “ultrapassar algumas linhas vermelhas políticas” que ergueram. “A política monetária ainda precisa de apoiar a procura. As políticas monetárias acomodatícias [de estímulos] têm desempenhado um papel crucial na retoma, e as taxas de juros negativas — tão comentadas —, no cômputo geral, desempenham um papel positivo e ajudam. Mas a política monetária já não pode fazer sozinha o trabalho pesado. As políticas estruturais e orçamentais devem desempenhar um papel mais importante”, referiu Lagarde. “A abordagem em três vertentes significa ir além do statu quo, movendo-se mais rápido. Também pode significar ultrapassar algumas linhas vermelhas políticas para alguns. Valerá a pena fazê-lo? Bem, nós afirmamos que, com a combinação certa de políticas e com esta abordagem em três vertentes, poderia avançar-se com um poderoso pacote global que iria ajudar a gerar um crescimento mais rápido e mais sustentável”, acrescentou a responsável do Fundo.

Frankfurt vs. Berlim

Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, esteve em sintonia com Lagarde. No seu testemunho para a reunião daquele Comité do FMI afirmou, a dado passo, que “todos os países da área do euro devem esforçar-se por conseguir uma composição mais favorável ao crescimento por parte das políticas orçamentais, estabelecendo prioridades ao investimento público e reduzindo a carga fiscal sobre o trabalho”.

A Alemanha, uma vez mais, distanciou-se pela voz do seu ministro das Finanças. “A política monetária não é substituta de uma política orçamental sólida e sustentável e de reformas estruturais”, disse Wolfgang Schäuble na sua intervenção no Comité. “Tendo em conta as circunstâncias extraordinárias nos mercados financeiros, as políticas orçamentais têm de ter um alto grau de cautela e de controlo dos gastos”, contrapôs o ministro alemão. Criticou abertamente uma viragem expansionista: “As limitações e efeitos negativos colaterais das políticas macroeconómicas expansionistas têm-se tornado mais visíveis quanto mais são aplicadas. Elas podem facilitar a complacência em relação às reformas orçamentais, financeiras e estruturais necessárias”. E chamou a atenção que “a eficácia das políticas extraordinárias e de taxas de juro muito baixas tem sido posta em causa e temos de prestar muita atenção aos efeitos colaterais negativos na estabilidade financeira”.